The Newsroom, S02.

Uma bagunça. Diversas linhas narrativas iniciadas na primeira temporada simplesmente somem, alguns personagens também (pra mim, perder as cenas do Will no psiquiatra jovem foi vacilo). Até mesmo os créditos são diferentes. Lembro que Sorkin teve muitos problemas com a recepção mais ou menos da primeira temporada, e dá pra sentir que ele parou de pensar em arcos de várias temporadas. Começou a pensar somente no que tinha ali na frente dele. A parte mais interessante pra mim, a dinâmica absurda e feroz que se precisa para produzir uma hora de TV ao vivo por dia, é jogada pra segundo plano por grande parte da temporada. Talvez, na intenção de ter menos Sorkismos possíveis, o que restou foi o que virou a segunda temporada. Ainda gosto, apesar de ser bem menos romântica que a primeira.

The Newsroom, S01.

Dia desses li um post, de uma dessas contas de instagram que fazem posts de texto explicando alguns conceitos psiquiátricos de forma cute, que um dos efeitos de estar operando além da própria capacidade mental é resistir experimentar coisas novas. Como se o cérebro estivesse carregado até o limite. Faz um tempo que comecei, quase instintivamente a assistir de novo algumas coisas. The Wire. True Detective. Filmes do Kar Wai. Não foi muito planejado, mas continuou acontecendo. E continua acontecendo.

Terminei a primeira temporada de The Newsroom esses dias. Virei um tio que reassiste infinitamente as mesmas obras, mesmo que elas não sejam tão boas assim. Comfort food mental on demand. Quando The Newsroom começou, eu imediatamente curti. Todos os Sorkismos do mundo em uma série só, usando um caminhão de dinheiro da HBO e finalmente um Sorkin livre pra fazer o que quiser, escrever como achava que deveria ser. Claro que não deu muito certo, pois ele decidiu reescrever a realidade como um todo, num arroubo de autoconfiança invejável. Mas fora o que não deu certo, ainda há uma série que é romântica até o osso. Seja em relação ao Jornalismo com J maíusculo, seja com relações interpessoais. Personagens, que apesar de aparentemente serem apenas versões de uma mesma pessoa, causam em mim um sentimento familiar de pertencimento. Mesmo que eu nunca tenha pertencido à algo como o ambiente da série. Nostalgia por um passado inventado. Por querer estar ali, mesmo sem nem saber o que ali realmente seja.

Mr Inbetween, S01.

Fazia tempo que eu não ria com um personagem lacônico desse jeito. Em algum lugar de New South Wales, Ray é um capanga faz-tudo para um criminoso não muito importante em alguma cidade não muito grande. Os episódios voam, misturando violência e humor quase na mesma dose. O mérito maior é mesmo para Scott Ryan, que faz o papel de Ray. Dono de um timing insuperável, episódio após episódio não tem como não simpatizar com as agruras que ele passa, mesmo que elas sejam causadas por ele mesmo. Ótima série, que passou batida pelo meu radar, mas graças à uma dica direta de down under (valeu D!), corrigi essa falha. Tu meio que devias fazer o mesmo, vai por mim.

Nine Perfect Strangers, S01E01-05.

Sempre tive medo de hippies. Em Nine Perfect Strangers, meus medos meio que se justificam. A mistura de xamanismo oportuno, busca de autoconhecimento como a solução final para a tristeza e problemas da vida, yoga, bioenergia e mais um monte de coisas que custam caro em spas é bem assustadora. Porque beira um culto. E mesmo que seja em busca de algo maior/melhor, ainda há de se pagar a salgada conta. Tirando essa minha birra, boa série (não li o livro em que se baseia mas estou curioso agora). Kidman e boa parte do cast em chamas, mastigando o roteiro com fúria e os episódios se desenrolam sem muitos momentos menores. É uma espécie de House on The Haunted Hill da wellness. Diversão pura, às vezes.

Vigil, S01E01-03.

BBC One, a mesma produtora que fez Line Of Duty e Bodyguard. Submarinos atômicos e homicídio. Cast impecável. O único ponto ruim de Vigil até agora é que tão soltando um episódio por semana (e como sempre no UK, serão apenas seis no total). Dos nichos que curto, “treta em submarino nuclear” é definitivamente um dos meus favoritos, mesmo que passe anos e anos sem sair nada novo usando esse tipo de cenário. Vigil tem ainda três episódios mais, tudo bem. Feliz que aconteceu, não porque acabou etc

ZeroZeroZero, S01.

Uma série que junta Roberto Saviano com Stefano Sollima e um caminhão de dinheiro da Amazon. Esteticamente impecável, monta uma narrativa transcontinental de forma eficiente, mesmo que com alguns momentos menores. Abre muito espaço para se observar em detalhes as diversas camadas de um dos tipos de negócios mais importantes hoje em dia. As cenas em Dakar para sempre me atordoarão. Um sonho de de desaparecer no deserto.

Dealer, S01.

Sempre vou ser pato pra esse tipo de série minimalista, inovadora e que pega umas ideias meio YouTube e empurra até o limite do orçamento (ver também: High Maintenance, Black Summer, Dead Set, Calls etc). Dealer é uma belezinha singular. Demora algumas cenas pra engatar as marchas, mas daí é só sucesso. Ótimos atores, uma meia dúzia de cenas que te deixam com o coração na mão e claro, a língua francesa em sua mais ríspida sonoridade gangsta. *chef’s kiss*. Me lembra demais certa vez que subi o morro errado e um corre de dez minutos demorou duas horas e meia.

Painting With John, S01E01.

Em tempos de confinamento, solidão, tempo infinito e paciência, assistir a esse Painting With John foi como receber um desconhecido em casa e ver que em 30 segundos ele virou teu amigo. O título do episódio é Bob Ross Was Wrong e tu já sabes como vai ser o tom. Vinte minutos passam voando enquanto John pinta e fala contigo. Em tempos doloridos, quase qualquer companhia cura.

High Fidelity, S01.

Assisti o filme de High Fidelity mais vezes do que gosto de admitir. Acho que a primeira vez foi em 2001. Tinha 14 anos. Fui ler o livro só muitos anos depois (mais fácil piratear filme). Naquela época, mesmo entendendo muito menos de mundo do que hoje, já dava pra saber que aquilo tudo retratado ali era algo em extinção, por mais que eu quisesse que não fosse.

Lojas imensas de discos, caras que tem um emprego part-time, moram em apartamentos espaçosos em capitais, gastam suas noites descobrindo novas bandas pelos bares da cidade.

Velho, pra um moleque em Castanhal no Pará, aquilo tudo era ficção científica. Mesmo aos 14 anos sem nem ainda ter tido um coração partido – ou um top discos favoritos. Contudo, o desejo de ter broders que fazem listas aleatórias contigo todos os dias, que zoam tuas referências, completam com outras e ainda conseguem ser engraçados no processo: esse lance sim eu achei que seria possível de alcançar. E meio que foi, em alguns momentos da minha adolescência tardia.

Uma releitura do livro, ali por 2009, mostrou que era hora de largar um pouco aquele osso. Rob é um fraco, o filme/livro são horríveis no jeito que tratam alguns personagens e as referências musicais zeraram muito mais rápido do que imaginei. Arquivei o filme e o livro junto com aquele DVD, que imita uma caixa de sabonete, do Fight Club.

Ainda faço listas, ainda curto uma proseada pegada na prepotência de quem sabe demais sobre edições de discos e tal. Essas coisas ficaram em mim, pro bem e pro mal. Mas o resto da obra foi embora. Li outros livros do Hornby, curti alguns. Envelhecemos.

A série do Hulu é meio doidera. Primeiro porque existe. Segundo porque passa um pano em vários pontos fracos do filme/livro. Só que, se High Fidelity já não crível em 2000, em 2020 é tão realista quanto um anime. Mas daqueles slice of life bem específicos e encantadores, manja. Ainda tem um tutano massa ali. Piadas boas, alguns atores dançando muito em cima do material. A música é boa, rola um update brutal em várias referências. Funciona bem, apesar de tudo.

E aí cancelaram a série, claro.

Talvez a próxima encarnação de High Fidelity seja melhor ainda. Mesmo que eu não consiga mais assistir o filme ou ler o livro, pelo menos sei que tem essa série para garantir uma eventual reassistida massa. Pra me consolar um pouco em tempos de coração partido. Se a Rob da série pode ser melhor do que o Rob do filme, deve ter alguma chance pra mim, também.

The Eddy, S01.

Algumas cenas dessa série conseguem materializar o sentimento de ser um expatriado em uma capital europeia. Tudo é bom, tudo é confuso. Todo mundo se entende em francês, inglês, polonês, árabe, jazz. As coisas seguem em frente, impreterivelmente. Fica a teu cargo decidir seguir ou não. Outras cenas dessa série quebram teu coração. Amira, Jude, Farid, Katarina. Baita personagens. Em certo momento o protagonista, Elliot (André Holland, irritavelmente perfeito) diz que ele primeiro acostumou a deixar a si mesmo para trás. Daí, se acostumou a deixar outras pessoas para trás também. The Eddy é sobre várias coisas, mas talvez a mais importante para mim seja essa: o que deixamos faz tanta parte da gente quanto o que decidimos levar adiante.