Malignant, 2021.

Bagulho é doido. James Wan sempre foi um diretor que sabe o que está fazendo, mesmo que esse “o quê” seja ruim (Aquaman, Furious 7), bom (The Conjuring, Death Sentence) ou simplesmente filme-pra-adolescente-se-divertir (Saw, continuações de Conjuring e Insidious). Malignant é meio indeciso como filme, pois há uma produção massa, que constrói uma cinematografia até rebuscada às vezes (numas meio “ei, faz meu filme parecer Se7en pfv”) – mas daí tudo fica meio zoado com a atuação do cast em cima dos diálogos totalmente dureza de se testemunhar e com a notória predileção por gore grotesco de Wan (em boa forma, mas de novo, meio indeciso no que quer “ser”). No final das contas, divertido pra carai, mesmo que ali pelo começo dê uma canseira leve. Um filme feito por um cara que certamente passou horas em seções de horror de videolocadoras, assistia aquelas sessões de filmes B da BAND e que até hoje se lembra dos filmes que viraram lenda na escola ali pela sétima série.

Red Room, #01-03.

Ed Piskor é dos meus. Acho que ele é um dos poucos artistas que acompanho há anos no Instagram e ainda curto o que ele posta. Porque ele é nerdão. Daqueles que passa o tempo livre realmente jogando games 8-bit. E quando ele senta pra trampar, trampa mesmo. Escreve, ilustra, letra, diagrama, edita. Broder é um estúdio de arte inteiro sozinho. Red Room foi desenvolvida quase em tempo real, com páginas disponíveis no Patreon assim que Piskor as terminava (não paguei, mas valeu esperar pra ver Red Room no formato “final”). Misturando dark web, snuff, gore a galore e um doentio detalhismo gráfico, Piskor apresenta Red Room em histórias fechadas, mas que se conectam dentro do universo da HQ. É um trampo de nerd pra nerd, na sua forma mais brutal e intrincada. Coisa de quem cresceu assistindo Faces da Morte em VHS, que baixou um DIVX de Cannibal Holocaust, que lia revistas como Lôdo. Treta demais pra explicar, na real.

Nine Perfect Strangers, S01E01-05.

Sempre tive medo de hippies. Em Nine Perfect Strangers, meus medos meio que se justificam. A mistura de xamanismo oportuno, busca de autoconhecimento como a solução final para a tristeza e problemas da vida, yoga, bioenergia e mais um monte de coisas que custam caro em spas é bem assustadora. Porque beira um culto. E mesmo que seja em busca de algo maior/melhor, ainda há de se pagar a salgada conta. Tirando essa minha birra, boa série (não li o livro em que se baseia mas estou curioso agora). Kidman e boa parte do cast em chamas, mastigando o roteiro com fúria e os episódios se desenrolam sem muitos momentos menores. É uma espécie de House on The Haunted Hill da wellness. Diversão pura, às vezes.

Maniac of New York, #01-05.

Enquanto os detentores dos direitos de Friday The 13th não se resolvem, posso colocar essa boa Maniac Of New York direto na linhagem de Voorhees: e se o monstro como esse surgisse em uma cidade incapaz de resolver problemas óbvios? Por quanto tempo ele seguiria destruindo tudo ao seu redor? Um brutal exercício slasher em forma de HQ.

Fear Case, #01-04.

Matt Kindt em boa forma, econômico e esquisito no grau. Tyler Jenkins em seu modo mais noir-gore possível. Fear Case desenrola como um filme amaldiçoado, deixando pouco espaço para especulações ou conspirações, apesar de ser calcado em justamente coisas do tipo. Algumas perguntas merecem nem ser contempladas.

Public Memory – Ripped Apparition, 2020.

Um esculacho darkwave, cheio de faixas quase perfeitas. O release é uma pérola: “Despite playing with our experience of time, Ripped Apparition isn’t simply an exercise in nostalgia. Nor does it retreat to an imagined world to come. The album evokes a degraded past and future, existing simultaneously, saturated with loss and uncertainty. Escape to another time is not an option here anyway; there is only the unrelenting present and an attempt to make sense of the dreams and fantasies we’ve built it on.” :: https://publicmemory.bandcamp.com/album/ripped-apparition

Vigil, S01E01-03.

BBC One, a mesma produtora que fez Line Of Duty e Bodyguard. Submarinos atômicos e homicídio. Cast impecável. O único ponto ruim de Vigil até agora é que tão soltando um episódio por semana (e como sempre no UK, serão apenas seis no total). Dos nichos que curto, “treta em submarino nuclear” é definitivamente um dos meus favoritos, mesmo que passe anos e anos sem sair nada novo usando esse tipo de cenário. Vigil tem ainda três episódios mais, tudo bem. Feliz que aconteceu, não porque acabou etc

Phantom On The Scan, #01-05.

Acho que comecei a ler as HQs do Cullen Bunn via Cold Spots ou The Empty Man, não lembro (mas recomendo ambas fortemente). De cara gostei do jeito que ele escreve horror e desde então tenho acompanhado o autor, de vez em quando lendo alguma coisa que ele publicou anos atrás; Phantom On The Scan é de 2021 e reúne Bunn com o artista Mark Torres, que fez Cold Spots. Cinco edições que passam voando, triturando referências e mostrando que Bunn e Torres operam no mesmo nível, seja no gore ou no minimalismo. O horror sci-fi nosso de cada dia, bem representado.

Reckless: Friend of The Devil, 2021.

Ano passado, ao escrever sobre o primeiro livro de Reckless, meio que deixei a entender que é um privilégio acompanhar o trabalho de Brubaker & Philips hoje em dia. Continuo pensando o mesmo, um ano depois. Nada como ter um livro como esse em mãos e viver esse pequeno momento. Esse segundo livro, Friend of The Devil, me fez lembrar da última vez que reassisti Once Upon a Time… in Hollywood. Há um sentimento de familiaridade, que inicialmente achei meio esquisito, pois não tenho lá muitos amores pelos 70s (ou 80s). Mas acho que são os personagens mesmo, que soam como um amigo, mesmo eles sendo de um período doido naquele pedaço dos Estados Unidos, nada a ver comigo ou de onde venho. Em breve sairá mais um livro dessa série, mais um espaço de tempo a ser compartilhado com esses personagens. Te desejo vida longa, Ethan Reckless.

The Green Knight, 2021.

O que você quer ser quando ninguém tá prestando atenção. Ou: como diferenciar ser de ter. Esteticamente atraente, quase não parecendo um filme vindo dos Estados Unidos. Acho que li o poema quando ainda não sabia ler, então não sei dizer nada sobre a adaptação em si. Aprecio o tema e as poucas explicações. Ambição é uma merda. Boa trilha sonora. Patel em quase-chamas. Não escaparia de uma eventual reassistida. Que quando importar, estejamos prontos (e sempre importa).

The Vast of Night, 2019.

A primeira vez que tentei assistir esse, não passei dos primeiros quinze minutos. Daí tentei de novo e meio que do nada eu só queria estar ali presente, assistindo cenas e mais cenas sobre essas doideras que estão acontecendo em uma cidade muito pequena. Um diretor a se acompanhar.

Bones – BURDEN, 2021.

Tava aqui na vibe BONES e me toquei que já faz um tempo, uns sete/oito anos, que ele fica na dele, soltando uma mixtape atrás da outra. Nos últimos dois anos ele descobriu uma vibe agressiva interessante – mas ao mesmo tempo ainda comete faixas bregas e emo até o osso. No conjunto da obra, a consistência é de se admirar. Um artista completo. SESH :: https://soundcloud.com/teamsesh/sets/bones-burden

Hailu Mergia & The Walias Band – Tezeta, 1975.

O tipo de disco que me faz querer acordar cedo só pra dar play: “This “Tezeta” album is one of those that have been impossible to find for nearly three decades. Sourced by Awesome Tapes From Africa and expertly remastered by Jessica Thompson, its unique and funky renditions of standards and popular songs of the day are so quintessentially Walias, flavorful and evocative. Hailu’s melodic organ, unashamedly front and center in every track, makes even the complex pieces accessible.” :: https://hailumergia.bandcamp.com/album/tezeta

Roadrunner: A Film About Anthony Bourdain, 2021.

The bittersweet curse. A história de um viciado, que troca de hábitos com o tempo, mantendo vícios como motor fundamental. Assombrado, esse documentário é bem difícil de assistir. Porque tu vês um cara no começo, aos 43, experimentando a sensação de conseguir ver uma saída para a sua vida dura, mas de alguns êxitos. Daí esse cara é envelopado por fama, grana e toda a comida disponível no mundo. Depois ele se vicia em ser um pai, um marido. Depois em ser um viajante. Depois em ser um romântico. Contém uma dezena de cenas incríveis. Mas sempre vou acabar lembrando mais da cena em que ele se apaixona pela Asia. Todavia, fora o fato de que sou fanboy do Bourdain, o documentário é um esqueleto do que poderia ser um filme/doc sobre a vida dele. Tudo bem, tanto faz. Talvez seja bom desse jeito.

Lake Mungo, 2008.

A primeira vez que assisti Lake Mungo, nem sabia o que tava fazendo (ainda bem). Dia desses assisti ao crocante blu ray e acabou por ser outro filme, quase. Perdeu a aura de filme para TV e revelou um filme que claramente estava anos à frente dos seus pares. É como um Blair Witch que envelheceu muito bem. O diretor nunca mais fez outro filme, alimentando fortemente a aura de lenda urbana que Lake Mungo parece/deveria ter.

Burden, 2016.

Ah, arte. Sem entrar numas de querer falar sobre arte perfomática, mas aceitando que na real o que tu quiseres fazer da vida pode ser arte, só meio que depende de ti mesmo. A trajetória de Burden é interessante, sua obra, talvez. Mas não importa muito, no final das contas. O lance acaba sempre sendo vai lá e faz, mermão.

Man Push Cart, 2005.

Na sincera, achei que era um documentário quando comecei a assistir. E digo isso como elogio, pois foi somente depois de um tempo que saquei que era ficção. Um fime triste para cacete, que ressoou de forma brutal comigo. Uma dureza de vida, de filme, de tudo. O tipo de filme difícil de recomendar, mas que fica marcado não só pela impressionante capacidade técnica, mas pela sensibilidade fundamental ao narrar uma bad trip incomensurável.

ZeroZeroZero, S01.

Uma série que junta Roberto Saviano com Stefano Sollima e um caminhão de dinheiro da Amazon. Esteticamente impecável, monta uma narrativa transcontinental de forma eficiente, mesmo que com alguns momentos menores. Abre muito espaço para se observar em detalhes as diversas camadas de um dos tipos de negócios mais importantes hoje em dia. As cenas em Dakar para sempre me atordoarão. Um sonho de de desaparecer no deserto.

First Reformed, 2017.

Belo filme, com mão firme no minimalismo estético sem cair na vibe teatral. Possui uma conexão direta com filmes como Diary Of A Country Priest, do Bresson, e Winter Light, do Bergman. Mas como esses filmes já possuem várias decadas de vida, talvez seja bom ter First Reformed disponível em serviços de streaming hoje em dia. Os temas são os mesmos, a dor também – os tempos é que são diferentes mesmo. Ethan Hawke em seu estado mais bruto, ainda que sensível. Algumas cenas ficam queimadas na minha cabeça. Ser um bicho humano é uma treta infinita. Destaque para a trilha do Lustmord, uma boa surpesa.

No Sudden Move, 2021.

Antes desse filme, Soderbergh havia entregue o ótimo Let Them Talk (obrigado, Steven). A mudança drástica de tema é admirável, assim como o impecável trabalho de câmera e cinematografia nesse No Sudden Move. E qualquer filme que coloca o Del Toro em situações como as que ele passou nesse, será bom filme. Que homem. E o resto do elenco é um Avengers Assemble em si. Coisa boa de se assistir.

On the Rocks, 2020.

Quem dera ter um pai como o Murray para me acompanhar em momentos terríveis da vida, me pagando drinques e insistindo em me dar caronas para todo lugar. Bom filme, engraçado sem ser uma comédia. Um drama que usa a “velha” New York como personagem de forma muito eficiente, sem pesar a mão no romantismo por tempos idos. Ah, a cidade que nunca morei, mas que parece ser casa.

The Sparks Brothers, 2021.

Uma metralhadora apontada para o formato “documentário músical”, que usa a história dos Sparks para descer o dedo em tudo que eu e você já vimos diversas vezes em docs tipo esse. Irresistível, empolgante, denso, bem engraçado. Coisa bem de quem curte mais o formato do que o conteúdo, como fizeram várias vezes os próprio irmãos do Sparks. 10/10.

The Only Living Boy in New York, 2017.

Meio inevitável assistir a esse filme inteiro imaginando a Marisa Tomei no lugar da Kate Beckinsale, mas tudo bem. Nada muito novo aqui, além do Jeff Bridges em chamas incandescentes em todas as cenas. Só por isso já vale a assistida “I’m a duke!”. Um bom filme de tardes de domingo. Saudades de ser um jovem granado.

Motherless Brooklyn, 2019.

Fadado a ser eternamente fascinado por filmes (neo) noir, demorou alguns minutos para eu curtir esse Motherless Brooklyn, dirigido e escrito pelo próprio Norton. De certa forma, é um filme sobre tentar lutar em umas categorias de peso acima da sua. Entendo. Destaque para um dos melhores Miles já registrados em um filme e para o eterno Alec Baldwin, que me fez ter simpatia por tiranos (mas não muita).

Bongzilla – Weedsconsin, 2021.

16 anos desde o último disco do BONGZILLA. Tava vendo que o Amerijuanican é de 2005. Ali no começo das minhas experiências stonerísticas, apareceu o Bongzilla com seus riffs crocantes anunciando todo um novo gênero (sludge/stoner/doom crossover), vinhetas engraçadas nas músicas e um senso de humor maconheirístico fortemente brega. Pra um adolescente, perfeito. Mas dezesseis anos são dezesseis anos né. A banda virou um trio, eu virei pelo menos umas três pessoas diferentes pelo caminho. Mas nesse ano da pandemia, aqui nos encontramos, sem muito daquele senso de humor besta, sem muita moral, sem muitos amigos. Mas ainda comendo riff fincado na bagaceira no café da manhã. Obrigado, BONGZILLA :: https://heavypsychsoundsrecords.bandcamp.com/album/bongzilla-weedsconsin

Howie Lee – 7 Weapons Series, 2020.

Esse disco tava no meu servidor desde o ano passado, de vez em quando aparecia numa sessão de shuffle pegada, me fazendo parar pra prestar atenção no que tava tocando. Maluco Howie Lee. “Known for fusing traditional Asian sounds into the experimental clubbing field, Howie Lee pushes the boundaries in order to access a broader sound palette. Styles and elements are always mixed ingeniously; Tibetan chanting, middle-eastern zurna, syncopated drums, deep and modern bass, buoyant jazz chords – it’s difficult to know what to expect.” Ou seja, the good shit :: https://maloca.bandcamp.com/album/7-weapons-series