The Beatles: Get Back, S01E01.

Uma dessas coisas que eu não queria que terminasse. Meses atrás me diverti bastante vendo o Paul e o Rick Rubin apenas escutando fitas de rolo das composições do Paul em McCartney 3,2,1. Tive a mesma sensação em Get Back: quero apenas ficar aqui quieto vendo essas pessoas falarem/fazerem o que sabem melhor pelo máximo de tempo que eu puder. Nessa primeira parte, há um contexto pesado, uma tensão. Um deslocamento proposital. Aí eles começam a tocar juntos. Debulhando uma quantidade impressionante de covers e canções não-finalizadas. Tentando achar um terreno em comum. John é fascinante. Tem um momento que ele bota Across The Universe pra tocar (claramente uma baita canção imortal) e nem fala nada. Sabe que o lance é bom. Ou talvez não liga tanto para o que os outros vão achar. Ele é o primeiro a responder à alguma ideia nova ou proposição com um “that could be”. Um broder cativante e hipnotizante. Já Paul é o project leader que sofre por ter essa posição (que considera injusta). Seu momento é quando, por pura fúria, brota o que viria a ser a própria Get Back do nada. Murmurando sons ininteligíveis e um proto-riff de baixo. Arrepiante. Um momento raro de um cara muito talentoso tentando fortemente. Transpiração contra tudo. A paciência infinita de Ringo é muito admirável, também. Completamente estaria do lado dele se ele tivesse tomado a posição que George toma. George, aliás, visivelmente cansado e vazio. Mas tentando usar isso a seu favor. Um otimista, em seu estado puro. Em certo momento, John está de pé, na frente do Paul, tocando com aquele olhar desafiador. Finalmente uma felicidade tangível. Um espaço de tempo em que tudo funciona. E a maior banda de todos os tempos toca o cosmos.

The Sopranos, S05.

Uma ressaca infinita. A temporada anterior desmonta tudo, deixando para esta quinta os pedaços. Os episódios são cheios de momentos tristes, principalmente porque a esta altura tu já sabes como algumas coisas irão se resolver, afinal são cinco temporadas de convivência com esses personagens. É também a temporada Steve Buscemi (completamente em seu elemento, roubando todas as cenas). Tem o episódio dirigido pelo Bogdanovich, assim como o episódio com a minha “cena de sonho” favorita da série. Vários pontos altos. Mas o que fica é essa sensação de uma ressaca que não passa, de um tempo ruim que insiste em continuar. Dinheiro não resolveu os problemas, diálogo também não. Restou conflito. O problema é que depois de um conflito, tem sempre essa ressaca.

The Sopranos, S04.

A temporada do descontentamento. Nos primeiros episódios, o tema parece ser dinheiro versus amor. Há uma urgência que permeia as cenas. Precisamos de mais dinheiro, precisamos saber onde está o dinheiro, quem tem mais dinheiro. Assim que resolvermos isso, tudo vai ficar bem. Algumas cenas ficam queimadas na memória, seja pela agressividade (Tony em modo berserker, atacando Carmela sem perdão, um dos grandes momentos da tal Golden Era da TV, dois atores em plena forma) ou pela sensibilidade (Tony conversando com Svetlana – que aliás nesse reassistida garante seu lugar como meu personagem favorito da série, mesmo com tão pouco tempo em tela). É nessa temporada que muitas coisas indicadas lá na primeira finalmente acontecem. O que levou três temporadas para se montar, desenrola-se sem muitas cerimônias. Uma bela temporada, quase sem episódios ruins. Pela primeira vez, consequências brutais alcançam os personagens.

Dexter, S09E01.

Isso foi uma viagem. Creio que parei de assistir Dexter ali na quarta ou quinta temporada. Digamos que foi na quinta, que é de 2010. Não assisti o final, não sei o que aconteceu. Larguei a série. Quando vi esse novo episódio, que teoricamente inicia uma nova “fase” na série, mas que tecnicamente continua em sua nona temporada, fiquei curioso. O que acontece quando tu pulas umas três temporadas de uma série, ignorando os finais, as resoluções. Acontece uma viagem. Há dez anos eu morava em um lugar tropical, assim como Dexter, trabalhava em outra profissão também. No guarda-roupa, quase nenhum casaco. O episódio abre com Dexter lidando com tarefas mundanas de quem mora em lugares gelados. Entendo. Onde viemos parar, velho. Não entendo algumas coisas (quem morreu, quem sumiu, quem é aquele personagem ali) mas acho que a confusão apenas alimenta mais esse sentimento doido de estar caminhando em um lugar novo, mas que te parece familiar. Que diferença que dez anos faz.

The Sopranos, S03.

Essa temporada é uma das minhas favoritas, não só porque marca o fim da Era Livia Soprano (boun ‘anima, pois finalmente não tenho ataques de ansiedade assistindo cenas dela) como solidifica definitivamente a série como Uma Das Maiores. Episódios clássicos (incluindo o dirigido por Steve Buscemi), Tony finalmente entendendo (e fingindo não entender) a origem dos seus problemas. Personagens que antes não possuíam muita dimensão, expostos com delicadeza e profundidade. Acho que quase todos os personagens passam por um momento de claridade/verdade nessa temporada. Um momento que se desdobra e mostra tá aqui ó, esses são seus problemas, essas são as causas, essa é uma das formas de lidar com isso. Te vira.

Heels, S01.

Assim que comecei a assistir Heels, me lembrei da (agora) lendária frase de Lester Bangs em Almost Famous: “Tell him it’s a think piece about a mid level band struggling with their own limitations in the harsh face of stardom”. No caso dessa série, o stardom na real nem está próximo, mas a frase ainda encaixa. Wrestling nunca foi muito a minha, joguei aqueles jogos de SNES e assisti um pouco na finada Manchete, mas nada que me fizesse ter um grande interesse. A parte técnica me é mais fascinante: narrativas que duram anos e anos, produções multimídia a todo vapor, violência profissional extremamente técnica. Puro suco de USA. Heels conta a história de uma promoção local de wrestling, sob os olhos da geração atual de atletas (performers?), divididos entre apenas ter um lugar pra fazer o que curtem e realmente atingirem algum alcance e fama com o seu trampo. Personagens que lidam com suas limitações de formas diferentes, criando um drama que consegue cativar sem forçar a mão. Penso em Sons Of Anarchy, mas menos cabeça-dura. Alguns diálogos tentam emular o sentimento que séries como Friday Night Lights talhavam com excelência. O resultado fica entre essas duas séries que citei, pendendo um pouco mais para a eterna Friday Night Lights. Nada mau. Boa série.

The Sopranos, S02.

A primeira temporada te conquista, guiando-te com esmero pelas entranhas do universo desses personagens. A segunda temporada te trata mais de igual para igual. Tu já sabes o que vem por aí. Os diálogos ficam mais carregados, as tensões entrecortam-se em diversos momentos. É quando tu percebes que essa é uma das maiores séries de TV de todos os tempos, senão a maior. Quando Tony começa a se perguntar, angustiado, qual é o problema que ele tem, que não consegue resolver, tratar ou controlar, a série começa a ficar cada vez mais vertiginosa. Alguns problemas não possuem resolução.

The Sopranos, S01.

Devo ter assistido à essa primeira temporada pelo menos umas quatro vezes. Talvez mais. Consigo lembrar dos episódios com certa clareza, mas toda vez acabo rindo com alguma piada ou referência que deixei passar anteriormente. Livia Soprano continua me estressando demais, crédito total à perfeição que Nancy Marchand dá ao personagem. Acho que teve uma época que eu, de propósito, não prestava muito atenção às cenas dela porque me dava um troço no coração bicho, difícil demais. Muito estresse. Mas nada como envelhecer. Ainda me dá uma ansiedade do caralho, mas é de certa forma fascinante. Os episódios passam rápido, deixando aparente as intenções da série. Coisa de gente grande, fazer TV dessa forma, ainda mais em 1999. Quando moleque, achava massa o Tony ali, daquele jeito todo grosseiro e engraçado. Nos meus vinte e poucos anos, tinha ojeriza total à ele. Um personagem que significava e agia como tudo que eu não queria ser. Agora nos meus trinta e poucos, acho que entendo as coisas diferente de novo. A incompletude de Tony é a coisa mais aparente. E esse sentimento permeia meio que todos os outros personagens também. O tema central dessa primeira temporada parece ser justamente isso, o que nos falta.

The Newsroom, S03.

A terceira e última temporada de The Newsroom tem só seis episódios. Eu não lembrava de nenhum. Os primeiros cinco são bem fracos, quase protocolares. Isso tem que acontecer, para que aquilo possa acontecer. Sorkin em piloto automático total. Aí no último episódio, o series finale, ele empurra todas as fichas pro centro da mesa: em uma hora, mostra todas a suas cartas para o que seriam provavelmente umas seis temporadas ao menos. O episódio voa, finalmente trazendo o fan service que faltava nos episódios anteriores e mostrando Sorkin emocional e melancólico, todavia de forma benevolente. Quando toca That’s How I Got To Memphis (que eu tenho usado como pequeno hino pessoal desde que ouvi a versão de Charley Crockett), o coração do cara já não aguenta mais. Um bonito, apesar de incompleto, adeus à uma série que poderia ter sido tão diferente. Sorkin meio que abandonou a TV depois de The Newsroom e hoje em dia é um diretor de cinema. Algumas coisas tem que acontecer, para que outras coisas possam acontecer.

Squid Game, S01.

Dia desses no Instagram, o Rafael Grampá tava postando sobre como é muito mais fácil ficar criando obras em cima de algo que já foi um sucesso. Que a repetição de temas narrativos e visuais, forçada ou em forma de “homenagem”, é um dos grandes motores da indústria criativa hoje em dia. Talvez sempre foi. Os ciclos podem ser curtos ou longos (ver: westerns pós-guerra, filmes de super herói da última década), mas sempre acabam sendo muito parecidos. Pegam o que deu certo e montam em cima. Alguns criadores deram reply ao Grampá, incluindo frases como “sempre quis criar algo novo, mas acabei refazendo sucessos do início da minha carreira pois vende mais”. Squid Game não apresenta nada muito novo para quem comeu Battle Royale e Suicide Club quando moleque – e muito menos pra quem consumiu Hunger Games, quando a série de livros e filmes era a Maior Coisa Da Terra. O ponto mais interessante pra mim, é o uso de dívidas financeiras como denominador comum de gente ruim, incapaz, parasitas de uma sociedade onde todo mundo é endividado, mas os piores são os que não querem pagar suas dívidas. Nada pior do que um endividado que resolve fazer mais dívidas. Pelo meu conhecimento (superficial) das dinâmicas sociais da Coreia do Sul, faz sentido esse terror em ser visto como um dos falidos (apesar de uma cena bem interessante mostrar que todo mundo tá falido de uma forma ou de outra, mesmo quem tem as aparências que apontam em outra direção). De resto, o jogo de vidas humanas de sempre. Doideira ser lugar-comum obras criativas com jogos que envolvem vidas humanas. Esteticamente, um puta exercício de disciplina e montagem dos Coreanos. Todavia, um fraco argumento contra os 1% ou a favor dos 99%. Lembro daquele clichê-frase sobre xadrez, que no final do jogo o rei e os peões vão todos pra mesma caixa.