ATHENA, 2022.

Toda a raiva que existe em ti – toda raiva que couber: urgente, inclemente, pulsante como uma ferida aberta, triturando concreto, expelindo fumaça, envolta em gritaria e ordens e risadas e momentos microscópicos de euforia e tensão. O filme que não te larga em nenhum momento, porque é função dele te fazer de testemunha: essa é a fúria, dor, amor e tristeza de uma parcela imensa da sociedade em que tu vives. Realizando uma revolução na base do molotov e do dedo médio em riste, da dor que permeia todos os teus dias. Se vários filmes decidem abraçar uma ideia e te dar uma versão complexa e rebuscada dela, ATHENA nem finge querer ser nada além do que é: um grito longo e assustador que merece ser vivido. O tempo distorce, os atores se camuflam em massas e respirar vira algo que tu fazes junto com eles. Visualmente feroz, esse filme é tudo que tu precisas de vez em quando. Difícil ficar melhor que isso. Um filme que te dá tudo que uma obra de arte pode te dar. O resto é contigo.

Nope, 2022.

Como um sonho que se torna mais e mais difícil de se acordar. Não que os outros filmes do Jordan Peele sejam ruins, mas sempre senti que faltava algo, ou: parecia que todo mundo via algo neles que eu não conseguia pescar. Nope não dá essa impressão. Pelo contrário, é um filme que exala autoconfiança – sem em nenhum momento ser pedante. As decisões cinematográficas funcionam, o elenco entrega, os efeitos especiais são modernos e requintados, a narrativa é deliciosa. É um filme de horror apenas no centro, pois expande e abraça outros temas com sinceridade. Interessante ver menções claras ou obtusas à Texas Chainsaw Massacre, Spielberg, Tarantino, Scorsese. É como se Peele quisesse amarrar as tradições cinematográficas hollywoodianas em uma só, porque pode (e quase consegue, apesar de o resultado ser mais do que referências bem costuradas: nasce um novo tipo de filme). Há uma perfeição aqui, rara e intransponível, fatalmente norte-americana (em certo nível bem parecido com o que acontece em Top Gun Maverick, outro filme da categoria blockbuster que toca a perfeição sem medo). Talvez seja até bravura, algo raro na indústria norte-americana nas últimas décadas. Nope é raro, demanda atenção e deixa questões fundamentais na cabeça do cara. Que filme.

Resurrection, 2022.

Fazia um tempo desde que vi um filme recente com esse tipo de ritmo. Thriller de horror pegado, ancorado na excelente Rebecca Hall, talvez num dos ápices das suas capacidades como atriz: entregando um universo próprio de desconforto, raiva, cansaço e antipatia benevolente em várias cenas. Só mais assombrado do que a performance de Hall, talvez seja ouvir (pela também excelente atuação de Tim Roth) palavras que soam incrivelmente similares à coisas que eu mesmo disse em relacionamentos em algum momento da minha vida, por mais doloroso que seja admitir isso. Horror puro e verdadeiro é se ver refletido em personagens nojentos. Certa vez li que amadurecer é olhar para si anos atrás e sentir vergonha e desgosto por si mesmo. Não sei o quanto isso é verdade, ou se serve de métrica para alguma coisa. De qualquer forma, o tempo passa e algumas coisas permanecem, aguardando calmamente o seu momento para se desenrolarem ou explodirem. Nesse meio tempo, muita coisa pode acontecer. Uma vida inteira pode se desenvolver. O difícil mesmo é escapar de si mesmo.

The Rehearsal, S01E01-05.

“I often feel envious of others. The way they can immerse themselves in a world with so little effort. The way they can just believe.” narra Nathan em um dos episódios de The Rehearsal. Há uma conexão direta dessa série com o series finale de Nathan For You, que foi um lance de mais de uma hora em que Nathan basicamente apresentou o método criativo que ele agora chama de Rehearsal. O fator cringe diminui, a curiosidade por sentimentos e emoções começou a tomar lugar das preocupações de um show de comédia. É como se não fosse mais pela sketch, mas sim pela fascinação com o que poderia acontecer se algumas situações da vida pudessem ser planejadas, avaliadas, repetidas, alteradas e roteirizadas à gosto. Um Synecdoche, New York bruto em tempo real. As linhas entre realidade e ficção começam a interseccionar, aparentemente de forma orgânica – ou talvez essa incerteza seja o coração de the Rehearsal. Seja como for, Nathan Fielder encontrou algo único pra si. Em algum momento deixa de ser sobre o que é real ou não, parece não importar muito, pois criar algo assim é como viajar no tempo. Não tem trampo muito melhor do que esse.

Prey, 2022.

Em algum momento de Prey me senti tipo esse gif do Jeff Goldbum. Não é complicado fazer um filme bom e divertido tipo esse, mesmo usando uma IP que permeia o imaginário popular por décadas. Corta pro básico: O Predador é um ser caçador que viaja o cosmos caçando troféus. Tempo é uma ilusão, então dá pra colocar ele na América do norte durante as primeiras décadas do genocídio colonial do continente. Coloca o predador caçando uns bichões tipo lobos, ursos brutos e tal, meio que se divertindo sozinho. E fatalmente ele cruza com uma das mais poderosas tribos nativas da região: os Comanche. Pronto, Predador versus Comanche. O resto é detalhe. Tu precisas de um cinegrafista que saiba usar a selva com esmero, atores confortáveis em seus papéis e claro, violência estética inclemente (com uma predileção por efeitos práticos, mesmo tendo que usar VFX em todos os animais – menos naquele cão muito parça da protagonista). Curti bastante que os Comanche quando falam inglês demonstram uma coolness quase impossível (que me fez lembrar de Scalped um pouco). Ótimo filme, que se junta à outros filmes diferentes que a franquia fez (Predators de 2010 é bem massa também). Essa fórmula de Prey serve pra qualquer IP de horror/ação que precise de um gás. Esperando com calma um Predador no Japão feudal, ou contra mercenários gregos de Alexandre.

God Country, 2018.

Tenho lido as publicações de Donny Cates de forma meio atordoada. Acho que a primeira coisa que li foi Buzzkill (diversão demente), seguido da ótima temporada de Venom que ele comandou, daí Crossover tem sido uma das melhores hqs dos últimos anos e eu decidi que porra, esse bróder tem uma manha que não sei direito dizer o que é, uma facilidade em trabalhar temas complexos em linguagem bruta e sensível que se assemelha à Jason Aaron (pra ficar num exemplo contemporâneo, ou Morrisson para comparar com um dos mestres). Fui lendo outras coisas dele, como a excelente The Ghost Fleet (uma HQ de ação deliciosamente pré-adolescente das ideia) e finalmente cheguei no debut na Image: God Country. Que pancada. A história se desenrola feito uma canção épica de metal atmosférico, ora abrindo espaço para respirar, ora descendo a porrada sem limites. A cadência com que Cates desenvolve a sua história é quase anime/mangá em sua essência: ele trabalha crescendos inevitáveis sem deixar-se perder em uma cascata infindável de momentos, como muitos autores que trabalham os mesmos temas fazem. Cates vai de A até B de forma direta e quase simplória, entregando o que o povo quer. São os três acordes do punk, o dedilhado do black metal, a bateria do death. Coisas que funcionam porque são simples e possuem uma intenção clara. A beleza está em ser o que se parece.

Pílulas Azuis AKA Pilules Bleues, 2001.

Não sei bem como essa HQ veio parar na minha coleção, tampouco sei dizer porque comecei a lê-la; o nome do autor não me desperta nada e se alguém me perguntasse sobre o que era, meu melhor palpite seria algo com “talvez seja sobre viagra ou prozac?”. O bom de ser ignorante é que entrei nessa leitura apenas querendo ver qual é, mas o estilo de traços grossos e expressivos do suiço Frederik Peeters prendeu a minha atenção (aqueles olhos imenso de Cati, que inicialmente parecem querer assustar) e a história de desenrolou sem cerimônias, sobre um casal que se apaixona mas ela tem HIV. A HQ possui um típico senso de humor europeu da virada do século, autoconsciente, singelo mas pedante ao mesmo tempo e autobiográfico sem querer ser (mas tornando a autobiografia um dos temas da obra mesmo assim). De vez em quando é bom remexer a própria coleção de mídia e descobrir coisas como essa.

Black Bird, S01E01-03.

Tem dias que viram um desastre completo e tu consegues notar cada mudança sutil, que em incrementos te levam à ruína. Black Bird começa com um dia desses para James Keene (Taron Egerton, que demora um pouco pra preencher o espaço do personagem, mas quando engata, vira uma daquelas atuações quase míticas), um dealer de Chicago esperto demais para o próprio bem, que acaba engolindo uns dez anos de prisão. Para comutar sua sentença, uns federais oferecem um acordo do capeta: se realocar para uma prisão infernal no Missouri, onde o serial killer Larry Hall (Paul Walter Hauser, bicho completamente solto, aí sim mítico demais, como se alguém tivesse dito calmamente pra ele “agora sim pai, vai lá e seja doentio como tu quiser, o gol é teu”) se encontra e está prestes a ser solto na real pois nunca acharam algum corpo para colocar na conta dele. Fica a cargo de James extrair a localização de algum dos crimes de Larry. Doidera. Se não tivesse sido verdade (a minissérie é baseada no livro autobiográfico de Keene). Parte o coração ver o Ray Liotta também, que faz o pai ex-policial de Keene (talvez sua última atuação? que triste constatar isso ao assistir essa série “é essa a última vez que verei algo novo do Ray Liotta?”). Aliás, a história toda te parte o coração. Cortesia da direção estoica do belga Michaël R. Roskam (do excelente The Drop – que aliás é um dos últimos trampos do James Gandolfini, que tendência macabra, Roskam), que consegue dar peso à cenas que nós já vimos dezenas de vezes, sem se tratando de dramas e thrillers em prisões. Que nós jamais tenhamos dias tão ruins quanto os de James Keene.

The Black Phone, 2021.

Um filme acima da média para a Blumhouse, e abaixo da média para Scott Derrickson, que repete aqui a colaboração com Ethan Hawke (excelente como The Grabber, criando com pouco – quase nada – um personagem que imediatamente ganha espaço no imaginário de filmes de horror). Entrei nesse achando que seria algum horror de verdade, mas ganhei um thriller setentista baseado em um conto do Joe Hill que usa alguns clichês do pai Stephen King (semi-paranormalidade, bullies, jovens se metendo em merda) para contar uma história competente, mas que se distrai consigo mesma, seja nas atuações dureza do cast juvenil, seja na progressão tão linear da história que o interesse meio que some (acho que algumas cenas eu nem registrei direito o que tava acontecendo). Um Stranger Things mais adulto, ou um thriller de serial killer Disney. Hawke tentou (e quase consegue), mas além da máscara, não tem muito mais.

North Sea Jazz 2022, 8/7 – Rotterdam.

Numa sexta de sol e vento, em um atípico dia perfeito de verão holandês, o North Sea Jazz teve o seu primeiro dia (de três). Cheguei no final da tarde, sob sol excelente (o cara aprende a gostar de sol novamente) e esperei Marcus King tomar o palco principal do festival (coberto). Banda de barbudos, tocando alto e com categoria de quem sabe demais. Um baita show, daqueles que te faz pensar que esse broder tem só 26 anos e comanda uma banda assim. Não chegou a emocionar, mas todo o poder estava na distorção e em momentos como a versão de uns quinze minutos de Hoochie Coochie Man que eles mandaram. E eu achando que tinha me aposentado de festivais e shows grandes, de repente me senti confortável com aquele mar de gente, indecisa entre a dezena de palcos do festival, perambulando constantemente.

Caminhando entre os corredores limpos, refrigerados e cheios de stands de comida do centro de convenções Ahoy, demorei pra achar o palco menor onde Theo Crocker estava para começar a comandar a vibe. Todo mundo sentadinho (um festival onde todos os palcos tinham assentos, todos) e eu acabei ficando no melhor lugar, atrás dos monitores do projetista. Condiz com a minha condição de Senhor não ir muito pra frente do palco em shows hoje em dia, ficar ali pelas arestas, perto do pessoal da graxa, que sabe onde o som bom está batendo. Ver shows mais pelo som do que pelo que estão fazendo ali no palco (envelhecer é massa). A banda de Theo é outra banda absurda, com um baterista que do nada engatava um drum’n’bass analógico de forma aveludada, dando potência ao som suave, límpido e viajante que Theo extrai do seu trompete. Trilha sonora para se caminhar em um planeta estranho (ou para se caminhar em um país estranho). O som do trompete do Theo certamente é top cinco experiências que vivi nos últimos tempos.

Comi um sanduíche indonésio de porco na panela, um hotdog chamado RATDOG (um hotdog normal mas daí enrolado em bacon e passado na chapa), fritas com maionese, tomei água e coca quente (ah, festivais), fiquei uma meia hora procurando o palco onde BADBADNOTGOOD e quando finalmente entrei, dei sorte de subir uma escada lateral e me vi em um mezanino confortável e com som potente batendo; quando a banda começou mermão, o lugar inteiro tremeu. De longe a banda mais barulhenta que vi no dia, o BADBADNOTGOOD sem perdão soltou seu punk jazz sobre todos os presentes (expulsando grande parte do público jovem vibe chill, claramente não preparado para aquele atordoamento todo) e entregou um show que recalibra a cabeça do cara na base do barulho e no solo perfurante de sax. Uma projeção em 16mm sobre a banda forçava o palco a ficar escuro, o que parecia agradar os canadenses. O baterista sentava a mão como se estivesse tocando hardcore (com um groove aqui e ali, só pra contrariar) e o baixista fez uns lances que me fez pensar se era de propósito ou o som do palco não tava sabendo processar o que ele queria fazer. Em algum momento, alguém da banda falou ao microfone (na escuridão não dava pra ver quem fazia o quê) que estavam muito felizes em estarem ali naquela noite, tocando em um dia cheio de artistas que eles admiram e que tudo que gostariam que a gente experimentasse fosse amor, compaixão e beleza atrás da música deles. Anos atrás eu mentalmente soltaria um “sae dae mano” e nem prestaria muito atenção. Mas envelhecer é massa, concordei, apreciei e me senti um sortudo também.