Um filme acima da média para a Blumhouse, e abaixo da média para Scott Derrickson, que repete aqui a colaboração com Ethan Hawke (excelente como The Grabber, criando com pouco – quase nada – um personagem que imediatamente ganha espaço no imaginário de filmes de horror). Entrei nesse achando que seria algum horror de verdade, mas ganhei um thriller setentista baseado em um conto do Joe Hill que usa alguns clichês do pai Stephen King (semi-paranormalidade, bullies, jovens se metendo em merda) para contar uma história competente, mas que se distrai consigo mesma, seja nas atuações dureza do cast juvenil, seja na progressão tão linear da história que o interesse meio que some (acho que algumas cenas eu nem registrei direito o que tava acontecendo). Um Stranger Things mais adulto, ou um thriller de serial killer Disney. Hawke tentou (e quase consegue), mas além da máscara, não tem muito mais.
Numa sexta de sol e vento, em um atípico dia perfeito de verão holandês, o North Sea Jazz teve o seu primeiro dia (de três). Cheguei no final da tarde, sob sol excelente (o cara aprende a gostar de sol novamente) e esperei Marcus King tomar o palco principal do festival (coberto). Banda de barbudos, tocando alto e com categoria de quem sabe demais. Um baita show, daqueles que te faz pensar que esse broder tem só 26 anos e comanda uma banda assim. Não chegou a emocionar, mas todo o poder estava na distorção e em momentos como a versão de uns quinze minutos de Hoochie Coochie Man que eles mandaram. E eu achando que tinha me aposentado de festivais e shows grandes, de repente me senti confortável com aquele mar de gente, indecisa entre a dezena de palcos do festival, perambulando constantemente.
Caminhando entre os corredores limpos, refrigerados e cheios de stands de comida do centro de convenções Ahoy, demorei pra achar o palco menor onde Theo Crocker estava para começar a comandar a vibe. Todo mundo sentadinho (um festival onde todos os palcos tinham assentos, todos) e eu acabei ficando no melhor lugar, atrás dos monitores do projetista. Condiz com a minha condição de Senhor não ir muito pra frente do palco em shows hoje em dia, ficar ali pelas arestas, perto do pessoal da graxa, que sabe onde o som bom está batendo. Ver shows mais pelo som do que pelo que estão fazendo ali no palco (envelhecer é massa). A banda de Theo é outra banda absurda, com um baterista que do nada engatava um drum’n’bass analógico de forma aveludada, dando potência ao som suave, límpido e viajante que Theo extrai do seu trompete. Trilha sonora para se caminhar em um planeta estranho (ou para se caminhar em um país estranho). O som do trompete do Theo certamente é top cinco experiências que vivi nos últimos tempos.
Comi um sanduíche indonésio de porco na panela, um hotdog chamado RATDOG (um hotdog normal mas daí enrolado em bacon e passado na chapa), fritas com maionese, tomei água e coca quente (ah, festivais), fiquei uma meia hora procurando o palco onde BADBADNOTGOOD e quando finalmente entrei, dei sorte de subir uma escada lateral e me vi em um mezanino confortável e com som potente batendo; quando a banda começou mermão, o lugar inteiro tremeu. De longe a banda mais barulhenta que vi no dia, o BADBADNOTGOOD sem perdão soltou seu punk jazz sobre todos os presentes (expulsando grande parte do público jovem vibe chill, claramente não preparado para aquele atordoamento todo) e entregou um show que recalibra a cabeça do cara na base do barulho e no solo perfurante de sax. Uma projeção em 16mm sobre a banda forçava o palco a ficar escuro, o que parecia agradar os canadenses. O baterista sentava a mão como se estivesse tocando hardcore (com um groove aqui e ali, só pra contrariar) e o baixista fez uns lances que me fez pensar se era de propósito ou o som do palco não tava sabendo processar o que ele queria fazer. Em algum momento, alguém da banda falou ao microfone (na escuridão não dava pra ver quem fazia o quê) que estavam muito felizes em estarem ali naquela noite, tocando em um dia cheio de artistas que eles admiram e que tudo que gostariam que a gente experimentasse fosse amor, compaixão e beleza atrás da música deles. Anos atrás eu mentalmente soltaria um “sae dae mano” e nem prestaria muito atenção. Mas envelhecer é massa, concordei, apreciei e me senti um sortudo também.
Tive um chefe em Frankfurt que dizia que Barbeiros de sucesso e renome geralmente contraiam uma condição que ele apenas chamava de A Doença. Quanto mais sucesso comercial acontecia e sua capacidade técnica evoluía, pior a pessoa se tornava como companheiro de trabalho ou como chefe. A Doença os tornava antipáticos, combativos, obcecados, narcisistas. Ele sempre fazia um adendo: é bem comum A Doença atacar chefs e cozinheiros também (talvez eles tenham sido os originários da condição toda, pensando aqui). The Bear é sobre A Doença e como ela contamina a vida inteira de quem a contrai, mesmo que intencionalmente. Usando um restaurante familiar em Chicago como centro do universo (curti que demora alguns episódios para se entender como o restaurante é por “fora”, pois tudo acontece na cozinha e nas portas dos fundos), a série se desenrola após o antigo dono cometer suicídio e deixar como herança o restaurante para o seu irmão mais novo, um cozinheiro prodígio que trabalhava como Chef de Cuisine no melhor restaurante do mundo em NYC (uma espécie de French Laundry futurista). Voltar para casa é sempre uma treta, ainda mais em condições como essas. Em uma temporada cheia de episódios engraçados (destaque para Oliver Platt roubando várias cenas), tristes e tensos, a série torna-se sobre luto, nerds de comida, tradições, laços familiares (de sangue ou de vida), sobre como encontrar espaço em comum entre pessoas que parecem não ter nada a ver uma com as outras – e sobre como muitos dos que acabam por adoecer sabem muito bem que estão adoecendo. Mas a cura é parar de fazer justamente a atividade que os define naquele momento. Ao falar sobre a sua experiência em NYC, o protagonista diz que vomitava todos os dias antes de começar um turno, dormia mal, teve o estômago completamente zoado e trabalhava para um sadista inclemente que lhe deixou com PTSD. Mas: era o melhor restaurante do mundo e era ele que comandava a cozinha, encontrando todo dia um novo plateau de excelência. O preço para fazer algo assim como profissão é alto, muitas vezes impossível de se pagar por completo e a conta chega de uma forma ou de outra: ou a mente quebra, ou o corpo. Ou os dois. É uma questão de tempo, apenas. E muita gente, quase todo mundo, não vai entender muito bem o que tu estás fazendo contigo mesmo. O alarme vai tocar mais uma vez e tu vais ter que levantar e começar um turno que sabes que irá consumir alguns porcentos importantes da tua existência. Mas tu não consegues parar. Trabalhar desse jeito é viciante e consome muito mais do que aquelas horas de trabalho. Emocionante, The Bear é uma série que pega o romantismo Bourdainiano sobre cozinhas e esculpe cenas que parecem ser sobre coisas simples, mas que importam muito mais do que parece ser possível.
Comecei esse filme sem saber muito sobre, imaginando que seria algum filme de máfia pós-guerra estiloso (“ah parece ser sobre um alfaite que trampa pra máfia, massa, vamo ae”). Quase acertei, mas não sabia que também se passa todo em um lugar só. O contraste constante de modos e jeito de falar de um britânico em Chicago acabou por sustentar o meu interesse durante o filme todo. Observar Mark Rylance trabalhando nesse filme é demais. Utiliza o pouco que tem com esmero e precisão, sustentando com cuidado o ritmo de cenas que quase (quase) perdem o gás quando o foco sai muito dele. A diferença que uma milhagem alta faz.
A doidera de existir. Não fiquei surpreso ao ver o nome dos irmão Russo nos créditos. É uma espécie de Avengers da A24: filtrando um conto meio Siddhartha acidental via comédias da década de 80, com maximalismo violento década de 00 e com questões de identidade típicas dos anos 10. Um filme que, fatalmente, só poderia existir nessa década pirada que estamos vivendo nesses anos 20. Na penúltima temporada de The Expanse, um dos personagens professa que a única escolha real que temos é ir ou ficar. No decorrer da vida, ir ou ficar é a decisão suprema, que se desmembra em infinitas decisões menores. Mas tudo começa ali, no segurar/soltar. O material de que a existência é feita está todo compreendido entre o ato de ficar ou ir. Surpreso, me vi soltando lágrimas com momentos de Everything Everywhere All at Once. Michelle Yeoh (eterna crush desde sei lá, Police Story 3, pelo menos), uma mestre em plena forma, encarna o filme de uma forma que a gravidade do seu trampo puxa todo o resto do elenco junto. Um filme esquisito, clichê e não muito inovador – mas mesmo assim forte pra caralho. Como a vida.
Um dos primeiros mangás que li foi Eden, do Hiroki Endo. Publicado pela JBC no Brasil, lembro que um amigo da escola comprou a primeira edição e ao folhear eu sabia que tinha que ler/acompanhar aquilo (sem contar que era a chance de entrar em uma publicação bem no começo, pois a maioria dos mangás na banca já estavam bem adiantados e ao tentar entrar em algum desses títulos eu ficava mais confuso do que empolgado). Por anos durante o ensino médio, Eden foi minha companhia mensal, até que meio que pararam de publicar (demorei anos a terminar a leitura, já depois da faculdade). Desde então, acho que já reli umas três vezes a obra toda. Virou um mangá essencial pra mim. Um daqueles lances que tu sabes que não é O Melhor De Todos Os Tempos, mas é importante pra ti. Muito dos meus gostos de sci-fi, mangá e anime, foi moldado por Eden. Quando comecei a ler All-Rounder Meguru confesso que nem notei o nome do Hiroki Endo ali, mas após alguns capítulos, o senso de humor, o estilo gráfico e o nerdismo detalhista pareceu muito familiar. Porra, é do Hiroki Endo! Li o mangá todo em uns dias, viciado no estilo “manual de como lutar MMA” que Endo aplica nos capítulos (aprendi fundamentos importantes de grappling durante a leitura, na moral). Os detalhes de como funciona uma carreira amadora de MMA no Japão são excelentes, explorando além disso temas como aspirações iniciais da vida adulta, amizades versus tempo, limitações pessoais e o significado de ser “forte” – que varia incrivelmente de pessoa pra pessoa, mesmo dentro de um microcosmo como lutas amadoras de MMA. As cenas de luta são cinéticas e bem calibradas, pontuando o mangá sem entrar numas de uma luta durar trezentas páginas. Conforme o final vai se anunciando, os personagens começam a encontrar definições próprias para os temas levantados. Feliz pela leitura, senti falta de tudo quando All-Rounder Meguru terminou. Assim como me senti quando terminei Eden pela primeira vez. Que privilégio, ter momentos distintos da minha vida pontuados pela arte de Hiroki Endo.
Quase doze anos após seu lançamento, terminei de ler Cachalote. Essa hq sempre esteve perto de mim. Acho que cheguei a comprá-la umas duas ou três vezes (não lembro mais se pra mim, ou pra alguém). O lançamento dela na Mercearia foi num dia em que passei ali na frente e reparei muvuca. Como um filme que se tem uma cópia física em casa que nunca terminei de assistir, Cachalote não me perseguia, mas estava sempre ali. Eu mesmo esquecia dela e o tempo passava, lia uns pedaços e largava por algum motivo (vida). Dia desses, conversando sobre artes marciais com um cliente, ele me contava sobre sua segunda luta amadora de kickboxe enquanto eu contava que estava me preparando para a minha primeira competição de jiu-jitsu, e ele me disse que a melhor parte de competir, pra ele, é que quando a luta começa, tudo torna-se brutalmente simples: apenas marrete o oponente. Um momento só teu. Cachalote é, de certa forma, centrada em vários momentos assim. Uma coleção de fragmentos que parecem não conversar entre si, mas que carregam tudo que importa nesse lance de estar vivo. Valeu Galera, valeu Coutinho.
Acho que foi ano passado (os anos da pandemia misturaram-se uns com os outros na minha cabeça) que reassisti The Wire pela terceira vez, ainda sentindo fortemente os efeitos do monumento em forma de série de TV que é a imortal, suprema, incansável e bela The Wire. Sempre pensei, se durante os anos em que ela passava semanalmente, as pessoas que a assistiam tinham noção do que estava acontecendo, que aquilo ali era provavelmente o apogeu do universo de série criminal dentro do formato. Assistindo We Own This City, tenho a resposta: sim, é óbvio que dá pra sacar que algo de especial está acontecendo. Em We Own This City, David Simon retorna à Baltimore, dessa vez usando um livro-reportagem sobre uma treta imensa de corrupção e crime dentro da polícia da cidade como base. Reinaldo Marcus Green dirige os episódios e o cast é uma mistura de amados atores que estiveram em The Wire (e Treme e The Deuce) e outros estreantes que claramente abraçam o material com afinco. Mágica e técnica, realismo e ficção em um equilíbrio possível somente dentro desse mundo que Simon é tão fluente. Não fica muito melhor do que isso.
Espião, via de regra, não chega a se aposentar. Ou desaparece, morre em ação ou vira burocrata dentro do governo. Jackson Lamb escolheu/tentou virar um burocrata falido, limitado, chefe de uma divisão horrível do MI5 após evitar morrer como um espião que presenciou os anos pré-muro e pós. Seu departamento não faz nada além de engrossar o caldo da “inteligência” britânica. Gary Oldman infalível deita como Lamb, controlando os episódios com experiência e cadência. A série desenrola-se como uma improvável mistura de The Office e Killing Eve, como se tivesse sido escrito por um Carré que curte George Carlin; entre momentos engraçados, trágicos e tensos, Slow Horses mostra-se como uma série que, assim como Jackson Lamb, talha um espaço próprio para si em um mundo lotado de séries e shows e toda sorte de narrativas. Feito admirável.
Danny McBride como o campeão atual do humor vindo dos EUA: escreve, dirige e atua de forma excelente em The Righteous Gemstones. Essa segunda temporada é um dos ápices de sua carreira, certamente. Tudo funciona, os personagens são deliciosamente complexos, engraçados até o talo (e um pouco menos insuportáveis), as cenas de ação são espetaculares e tem Walton Goggins entregando a performance de uma vida em cada frame. Demorei para dar play nessa temporada e quando vi já tinha atravessado todos os episódios. Os roteiros são metralhadoras de piadas e referências constantes, não deixando o ritmo afrouxar quase nunca. Diferente da primeira temporada, que consegue ter momentos antipáticos que estragam um pouco a diversão, essa segunda encontra um equilíbrio e esmerilha sem perdão. A cena em em que Danny fala “The whole church sucking my wife’s dick” requer reconhecimento como um patrimônio cultural global imediato. Cumpra-se.