The Bear, S02.

A ressonância emocional de The Bear na minha imensa cabeça é tremenda, me sinto como um moleque ouvindo no repeat Ride The Lightning, tentando memorizar cada detalhe e encontrando pedaços de mim que nem sabia que existiam. Talvez seja isso: de vez em quando tu encontras alguma obra de arte que te mostra que tu também és assim, que o jeito que tu vês o mundo não é solitário, por mais forte que seja essa sensação. Essas coisas importam, ou prefiro escolher que importam: o que ressoa contigo. E comigo é uma série sobre aspirar, ser, e fazer. Ênfase no fazer, que é algo que sinto que experimento na minha vida só nos últimos anos. Matei os episódios dessa temporada em dois dias, chorando, rindo, gargalhando. Me emocionei com o elenco, com o roteiro que, junto com a escrita do Jesse Armstrong pra Succession, é de um impacto emocional fodido. Como é bom ser nerd de roteiro. Que época para se viver. The Bear finca o pé num mundo crowdeado de shows e séries, tal qual banda que lança um segundo disco ainda mais poderoso que o primeiro. A mim, só resta agradecer, cantar as músicas da trilha sonora junto e ver os personagens repetindo coisas que falei ou pensei e me espantar que o abismo entre a minha vida e a vida deles é na verdade apenas uma brecha (bróder, aquela conversa sobre service me arrepiou, parece que foi extraída de algo que já conversei na barbearia). Que a gente consiga passar um tempo vivendo dessa forma.

Oppenheimer, 2023.

Acho que tava mais interessado em ver o elenco imenso em ação e também porque descolei ingressos para uma sessão em 70mm do filme. De resto, acho que esperava encontrar algo, mas nada demais. Sobre o projeto, Hickman já fez tudo que deveria ser feito. E sabia que o Nolan teria que ir fundo para conseguir superar o excelente Tenet, que considero o seu maior e melhor filme – aquele que equilibra características blockbuster com doideras e interesses que são particulares ao diretor. O filme tem cerca de dois terços muito bons, montando um Avengers da física, tentando achar algum modo de se contar a própria história. Tu até, por um pequeno momento, se esquece que tudo isso tá acontecendo com um intuito nefasto e injustificável. Mas fica mais Top Gun do que… hum, não sei o que ficaria na outra ponta (talvez um daqueles documentários da BBC pós-guerra?). Mas sem a diversão imensurável que Top Gun entrega. Sem também as trevas que seria cabíveis a um filme assim. Apenas superfície, por mais bonita que seja essa superfície. Quando a bomba explode, fica essa sensação de que algo ali não foi contado, que tem algo sobrando, algo óbvio. E claro que tem.

Godspeed You! Black Emperor, 09/04 – Paradiso, Amsterdam.

Domingo de Páscoa calmo no centro de Amsterdam. Deu pra sentar na beira de um canal e comer um broodje. Ver uns barcos passarem, aproveitar o sol e o tempo seco. Marisa Anderson, que abriu pro GY!BE, tocando solitária no palco do Paradiso uma guitarra que pesava uma tonelada e soava como uma montanha, disse, entre uma música e outra, como é bom estar nessa cidade em um dia tão bonito como esse. Vinda de uma outra cidade onde chove incessantemente, Portland, Marisa sabe reconhecer a importâncias de dias bonitos. Se bem que quando o GY!BE começou a tocar nem importou mais como o tempo tava lá fora. A máquina colossal que é essa banda. Maneja a calmaria e a destruição de forma magistral, mostrando com força que são os mestres supremos do crescendo do post-rock. Que são um outro tipo de banda naqueles minutos onde todos entram na mesma ascensão inescapável das suas músicas. Uma banda que soa com um animal ferido em seus momentos mais estridentes. O metal pesado do GY!BE é de uma potência que tu ficas várias vezes tentando entender quem tá fazendo esse som, ao olhar pro palco. Pensando aqui que devo ter ouvido essa banda quando tinha uns 15 ou 16 anos pela primeira vez. Que as coisas continuaram em um crescendo e vinte anos se passaram. Notei que em um aspecto o GY!BE e eu envelhecemos da mesma forma até: flertamos com uma espécie de resignação benevolente, que dá a entender que há como encontrar formas de se continuar, até mesmo porque, bem, hajamos de.

John Wick: Chapter 4, 2023.

O peso de ser tu mesmo, bróder. Tudo bem que John Wick é basicamente um personagem de Sin City criado para ser o veículo de uns dos mais durões stuntpersons do planeta (nesse capítulo 4 eles transformam a stunt de cair de uma escadaria em uma forma de arte, ALÉM DE: luta intensa com nunchaku, Donnie Yen estelar fazendo seu papel de mestre marcial cego – um delírio cinematográfico, plasticidade incomparável, BJJ de terno, neckshot afu e claro: uma sequência inteira onde João Wick usa uma porra dum fuzil com munição explosiva e explode um prédio inteiro em Paris) e ninguém espera muito mais dele do que um Yeah cansado e muitos, mas muitos movimentos milimetricamente coreografados que fazem inveja a qualquer filme da era Hong Kong clássica wuxia. Bem doidera, bem intenso, nada muito complexo ou além do que se vê. Uma belezinha, entretanto. Quando tu brincas de tentar adivinhar como eles fizeram essa porradaria toda tão bonita e crocante, dá uns bugs na mente do cara. Tem vezes que pra fazer uma cena convincente, alguém vai ter que levar uma mãozada na traqueia. Fazer coisas doloridas e filmar: sim. Vida longa à todos os envolvidos.

Luther: The Fallen Sun, 2023.

“The tragedy is that you are a better man than you ever allowed yourself to be”. O que aconteceu conosco, John Luther? Olhei aqui, a primeira temporada é de um longínquo 2010. O mercado de séries para TV era diferente (pra tu teres ideia, House Of Cards do Netflix começa em 2013). Eu era apenas mais um moleque baixando rips em 720p de shows britânicos em um tracker de bittorrent dedicado a esse tipo de conteúdo e assistindo em um monitor CRT. Já Luther, ainda vivia uma vida completa, naquela primeira temporada perfeita. Desde então, tudo mudou, pra ele, pra mim, pra todos nós. Semana passada estava no tram, passando pela Coolsingel em Rotterdam e não tive como não notar um enorme banner de uns cinco metros, tomando toda a lateral de um prédio. Apenas um retrato do torso de Idris Elba e as letras em vermelho na fonte de Luther. Wotcha. Olhando lá de cima pra mim, com aquela expressão de vida difícil, camarada. Tem sido uma aventura, né broder, quando comecei a te assistir, nem sabia o que era um inverno, um casamento, ou até mesmo uma carreira. Hoje em dia uso casacos pesados como os de Luther, caminhei pelas mesmas ruas e pontes que ele e Alice Morgan costumavam andar e vivo em uma cidade que também é castigada por um inverno infinito. Nas trincheiras do dia-a-dia, os anos se passaram e tudo que sobra é tudo que importa. Esse filme (que é produção do Netflix, ironia não necessária) é como uma visita a um amigo que envelhece junto contigo, mas de forma fatalmente diferente. Pra mim, Luther terminou ali naquela primeira temporada (todavia, aceitável incluir o bom livro-prequel que Neil Cross escreveu, The Calling, uma leitura muito dureza), mas tudo bem que de vez em quando a gente se encontra, pra ver que ainda usamos os mesmos tipos de roupas, temos o mesmo coração sofrido e que assim como o tempo me tratou como devia, tratou Luther também. Solitários, sorumbáticos e assombrados por nós mesmos, viramos um pro outro e perguntamos so, now what?

Knock at the Cabin, 2023.

Aqui estou mais um dia a escrever sobre um filme do Shyamalan. Desde que Hollywood desencanou dele, seus filmes ficaram diferentes, voltando a ser mais interessantes e sempre entregando diversão. E por todos os problemas de Knock At The Cabin, o cara meio que se diverte. Mais por um excelente Bautista, imponente e vulnerável como um vilão clássico. Dá pra ver o terceiro ato vindo de longe – e a história é boa, mas não tão boa assim. Pensando aqui que em tempos de saturação de todo tipo de mídia, te segurar por um filme inteiro (como aconteceu no último Knives Out, ou nos últimos Soderbergh), é coisa de quem manja. Algumas histórias não precisam de muito mais.

The Rig, S01.

Essa produção escocesa me apareceu meio que do nada, achei interessante porque não tenho muitas memórias de produções em plataformas de óleo e sempre me interessei pelo tema (lembrando aqui do gibi The Massive, que tem bons momentos em plataformas) e claro: escoceses. De vez em quando o cara tem que ouvir esse sotaque, que faz tudo parecer mais sério E engraçado do que se parece ao mesmo tempo. A série se desenrola como uma treta apocalíptica que, caso tomasse lugar em uma nave espacial, encaixaria perfeitamente sem tirar nem por. Curioso como sci-fi pode acontecer muito mais perto do que se imagina. Grande crédito ao ritmo dos episódios, que controla a narrativa de forma deliciosa, mantendo os personagens complexos e encantadores conforme a temporada vai avançando. Li em algum lugar que um dos problemas com produções hoje em dia é a necessidade imediata que personagens tem em se explicar a todo momento. Não é um dos problemas de The Rig. O ambiente isolado ajuda muito também, há um excelente trabalho de VFX acontecendo em várias cenas de forma sutil. Coisa linda de se ver. No final da temporada, fica a sensação de que em uma linha do tempo longa o suficiente, toda a experiência humana nesse planeta não dura quase nem um minuto. E tudo bem.

Tár, 2022.

A ilusão perfeita de controle. Há vários anos, comecei a nutrir um hábito ruim. Comecei a evitar filmes (e principalmente filmes) por sua temática, ou pela sua aparente narrativa, ou pelo que eu imaginava que o filme iria me fazer passar. Arrogância preemptiva, cultivada por milhares de horas consumindo essa forma de arte que tanto me deu e tanto me amparou. Entretanto, decidi por algum motivo que não queria passar perto de alguns sentimentos e sensações. Até desenvolvi um contra-hábito: me refugiei em sessões de filmes que já vi várias vezes, me convencendo que estava nessa buscando um refinamento – tentando ver algo que deixei passar na primeira vez. Mas no fundo, estava me escondendo de mim mesmo, claramente. Ainda possuo esse hábito ruim presente nas minhas decisões do que assistir, me privando por meses, ou anos, de assistir algo pois não quero caminhar por onde ele vai me levar. Talvez fosse proteção. Tár é um desses filmes, soube assim que vi a primeira imagem de Cate segurando uma batuta. Sempre fui apaixonado por Cate, desde quando muito moleque a vi de bochechas rosadas e cabelo vermelho no (otherwise) esquecível Bandits, de 2001. Renovei essa paixão por ela de novo há poucas horas, em uma cena de Tár em que ela chega em seu cavernoso apartamento de concreto queimado em Berlim, apaga as luzes, coloca Count Basie para tocar e abraça a sua parceira em um leve balanço, quase imperceptível. Amor supremo. A partir dali, eu estava vivendo com Lydia Tár, sendo levado pelo seu sotaque berlinense em alemão, pelas suas sobrancelhas que parecem ter vida própria, pelos seus pés descalços tocando piano. Parece que meu erro favorito é se apaixonar platonicamente por esse tipo de pessoa. Nos meus anos trabalhando em um ambiente corporativo, possuía raiva branca em relação à várias coisas praticadas naqueles ambientes. A maior das raivas era gramatical: com a forma como todos decidem escrever e falar em um escritório. Um constante jogo de palavras e termos e diálogos que não somavam nada, desviavam a atenção do trabalho em si e deixava claro para mim que na real, nunca foi sobre a qualidade do trabalho. Lydia joga esse mesmo jogo desprezível, mas não com a música que toca, e sim com tudo ao seu redor. Parece que ela faz isso há tanto tempo que a música decidiu invadir a sua vida, sem um objetivo definido, ou: apenas para mostrar a Lydia que nem tudo pode ser controlado, mesmo para alguém que mestrou o controle total do tempo. Para uma pessoa que vive uma vida cheia de superlativos, o que resta? Naquelas de que o se dá de presente para alguém que tem tudo. A resposta me interessa menos do que imaginei. O que me interessa mesmo é quando a ilusão de controle vai se dissolver, ou se é pra ser assim mesmo: perfeita.

2022: HOW TO DISAPPEAR COMPLETELY [OU] QUE ANO BRÓDER [OU] MELHORES DO ANO

Godspeed You! Black Emperor – All Lights Fucked on the Hairy Amp Drooling
– o tipo de coisa que parece que nunca ia acontecer: versões digitais de uma das 33 fitas que o GY!BE fez pro primeiro disco deles em 1994 e jamais tinham caído online. um acontecimento.

Lord Elephant – Cosmic Awakening
– stoner doom blues do ano.

Czarface – Czarmageddon!
– felicidade em forma de:
You can feed me to the sharks, I’ll come back in a shark-skin suit
Hotter than hibachi sauce, wiping out your zombie horde

Silvana Estrada – Marchita
– ter um coração partido embalado por Silvana: motivos para se ter o coração partido.

Sault – AIR
– o nosso coletivo anônimo de r&b favorito atinge novos patamares, sedimentando o poder do produtor e capitão Inflo sob todas coisas musicais vindas da Inglaterra. o groove dá espaço para orquestrações absurdas, entregando um disco imenso, como sempre deveria ser.

Tim Bernardes – Mil Coisas Invisíveis
– fora do tempo e espaço, Tim tá na dele. jovem mestre em pleno controle da sua vibe.

Vince Staples – RAMONA PARK BROKE MY HEART
– várias vezes durante o ano precisei de um disco assim.

Soichi Terada (寺田創一) – Asakusa Light
– “…feelgood music that’s the aural equivalent of a dopamine rush at sunrise.”

Kendrick Lamar – Mr. Morale & The Big Steppers
– kendrick has been going tru somethin’. deixa o cara. aprecia e acompanha. um privilégio.

Charley Crockett – The Man from Waco
i’ll tell you something true
every little thing i do
i stay lonely all the time.

Raum – Daughter
– hardcore: “There are fragments of beginnings and a deep sense of loss.”

Kenny Beats – LOUIE
– now I can hold my head up high. fazendo jazz com trackpad de macbook. um doutor especialista trabalhando.

Curren$y & The Alchemist – Continuance
– ta da da ta da da.

Joey Bada$$ – 2000
you fuckin’ with the realest cat since Larry David.

Shinichi Atobe – Love of Plastic
– “there’s a breeze of warm air that takes over whenever his music is played, a promise of better days, blue skies, tingling skin, sultry evenings – all that hammy stuff. “

Burial – Antidawn
– uma solidão interminável.

Denzel Curry – Melt My Eyez See Your Future
i’m killing all my demons cuz my soul is worth redeeming.

Black Thought & Danger Mouse – Cheat Codes
– já tava excelente e daí aparece um DOOM que deixa o cara tristão.

macaroom – Inter Ice Age 4
– o salvador de manhãs mais competente do ano.

Kali Malone – Living Torch
– obrigado, Kali.

Warmth – Pale Sun
– vou escolher esse EP do prolífico Warmth, mas qualquer coisa que ele soltar vale a audição algumas vezes. ambient que soa como tu gostarias que ambient soasse.

Boris – W
– bons tempos pra ser fã de Boris. nos últimos anos, soltaram muito material. W é pura doidera Borisiana, indo de vibes kawaii-esquisito pro crowbar-de-final-de-semana de uma faixa pra outra. excelente.

Freddie Gibbs – $oul $old $eparately
– sem pares né, poder sonoro que deve ser experimentado de vez em quando.

Codeine – Dessau
– mais um disco perdido. 30 anos engavetado, uma obra prima slowcore intacta, do jeito que a banda queria. pancada.

Pan•American – The Patience Fader
– um ano que até teve disco do Pan•American bicho.

Eiko Ishibashi (石橋英子) – Drive My Car Original Soundtrack
– ideias imaculadas: e se a gente chamasse a Eiko Ishibashi pra fazer a trilha do nosso filme?

Ron Trent – What do the stars say to you
– aulas. é dar play e aprender a viver.

Flora Purim – If You Will
– coisa de quem sabe demais, minha nossa senhora.

Charles Stepney – Step on Step
– um monumento: “The music that makes up Step on Step was created by Stepney alone, in the basement of his home on the Southside of Chicago, sometime in the late 1960s and early 1970s”

Conway the Machine – God Don’t Make Mistakes
– um ano em que rappers exploraram suas tretas consigo mesmo em público. bom pra gente.

Laurent Bardainne & Tigre d’Eau Douce – Hymne au soleil
– um dia de sol em forma de disco.

Natalia Lafourcade – De Todas las Flores
– dizem que a Natalia escreveu o que viria ser esse disco enquanto passava por um coração partido. uma banda inacreditável (Marc Ribot! ) e toda a dor & beleza que tu conseguires aguentar.

Klaus Schulze – Deus Arrakis
– o ponto final de uma carreira imensa. um presente de Klaus antes de partir: ‘Deus Arrakis‘ became another salute to Frank Herbert and to that great gift of life in general.”

Love Death + Robots, S01.

Teve uma época, ali depois da faculdade e antes do Youtube, em que garimpar e assistir os curtas de conclusão de curso da Supinfocom era um hobby entre eu e amigos. Dezenas e trampos lindos, complexos, que não só mostravam o estado atual da animação, como experimentavam sem limites. Era um bom hábito. Demorei pra entrar em Love Death + Robots, as temporadas foram de acumulando, alguns clientes jurando que eu estava perdendo algo massa. Por algum motivo, esteve fora dos meus interesses por um tempão. Recentemente, parece que o tema dos meus dias é descobrir que tudo que eu queria estava bem na minha frente todo esse tempo. O clichê de que the only way out is through em plena ação. Fui assistindo aos episódios da primeira temporada e rindo pra mim mesmo: “quanto tempo faz que não me sinto assim? quer não vejo algo tão bonito? e essas ideias, que sempre me agradaram, estavam ali todo esse tempo?”. O nível técnico é embasbacante, alguns episódios são um esculacho, me atualizando nas capacidades da animação hoje em dia (as fichas técnicas dos eps são uma lista de peso pesados da área). A temática: mortal. Tal como ler um livro e sentir que algumas passagens foram extraídas do teu cérebro e postas em páginas só pra ti, como um reflexo ao invés de uma projeção. O horror e beleza cósmica de se experimentar um espaço de tempo nesse universo doidera.