Grotesquerie, S01E05-10.

Os primeiros episódios me seguraram, mas a certo custo. Continuei, pela viagem. O truque me foi revelado, num arroubo que faria Shinji (ou Elliot) simpatizar. Muito bem feito, Grotesquerie. Me roubou a capacidade de dizer eu já sabia que isso ia acontecer. Porque fazer o que, mais da metade de uma temporada, e daí apertar o botão de foda-se e inverter tudo nos últimos episódios, só para apertar o botão de mais uma vez bem na reta final. Continue assim, queimando tudo e todos sem perdão (e fazendo episódios brutais como aquela bad trip no deserto, que maravilha de inferno). O estranhamento que vinha sentindo com a série começou a ser sentido pelo seu protagonista, e aí sabia que eu tinha sido engabelado – isso não é só mais uma temporada de American Horror Story, há algo diferente aqui. Fazendo um elo improvável entre True Detective e Twin Peaks, abriu-se uma(s) temporada(s) inteira a ser explorada, porque parece que estamos apenas começando.

Bad Monkey, S01.

Não era pra ser a minha, uma série policial de comédia, que se passa nos Keys da Flórida. Entrei mais pelo Vaughn, e talvez porque algum cliente me recomendou. Não me recordo. De qualquer forma, ainda bem que entrei nessa. Tem coisas que o cara não sabe que precisa, mesmo que seja meio óbvio. Terminar o meu verão assistindo semanalmente as estripulias do ex-detetive Yancy, era uma dessas coisas. O senso de humor e o toque de espiritualidade pós-hippie da série me pegou. Como os episódios demoravam, comecei a ler o livro do Hiaasen pra degustar a vibe mais um pouco. Terminalmente engraçado, mas sem o toque reflexivo de meia-idade da série. Sempre curioso ver que livros possuem vários personagens velhos e feios, que viram jovens bonitos na TV. Terminei o livro, a série, o verão. As coisas parecem não mudar, mas nada se mantém o mesmo, certamente. Da série, fica o exercício de desprendimento como lição (lição essa que me foi apresentada pelo velho Bourdain). E toda lição será repetida inúmeras vezes, até ser aprendida.

Godspeed You! Black Emperor, 15/10/24 – Paradiso, Amsterdam.

Se tu fechas os olhos em alguns momentos de um show do GY!BE, o transporte é imediato (para onde, depende mais de ti). A banda age como uma orquestra colossal, tecendo camadas incontáveis de barulhos, drones, cordas e dedilhados, que ocasionalmente são interrompidas ou guiadas por uma bateria que pesa toneladas. Há um arco, uma história a ser contada no palco. As projeções, vindas de quatro projetores analógicos de 16mm, são pouco sutis: começa-se com imagens bucólicas e calmas, passando por imagens de cidades infinitas vazias, daí para metrópoles guiadas por corporativismo, culminando em indústrias queimando e se engolindo. A banda recusa ser iluminada, tocam quase no escuro, deixando a tela imensa em cima deles ter toda a luz. Se estamos nas 23:59 dos nossos tempos, o GY!BE quer deixar claro que está bem ali conosco, como os produtores de um som que, em seus melhores momentos, parece ser o som de tudo colapsando em si mesmo. Testemunhamos e celebramos nossa própria queda, de uma forma irrepreensivelmente bela. Assim como no show anterior que vi, a sensação é de que temos que continuar caminhando. A única saída parece ser manter a ternura e alguma esperança no bolso. Por uma segunda vez pude experimentar essa banda e ter, por algumas horas, a certeza de que pelo menos não estou completamente sozinho.

Grotesquerie, S01E01-04.

Tava pensando, enquanto assistia, que acho que nunca terminei uma série do Ryan Murphy. Talvez alguns episódios ou até mesmo uma temporada toda, mas nunca um bagulho inteiro. E nem foi ele que me atraiu até Grotesquerie. Como órfão eterno da S01 de True Detective, ainda busco aquela chapação em quase todo show criminal que cruzo. Tem algo estranho nessa série, de qualquer maneira. Fico em dúvida se devo levar a sério tudo que me aparece, pois o sentimento de que essa ou aquela cena/sequência/personagem é um sonho, delírio, imaginação, é forte (ou: quase caricato). Talvez seja sempre isso que me afasta das séries do Murphy: não sei onde pôr a minha atenção pra valer: na série em si, do jeito que é, nos personagens e suas versões dos eventos, em mim e minha interpretação? De vez em quando o roteiro vai de pitch perfect ao mais novela das 8 possível, o que não ajuda. É um equilíbrio custoso – e não de uma forma empolgante, mas desgastada. Decidi encarar Grotesquerie como a caminhada ao inferno da detetive Lois Tryon, do jeito quer for. Não sei até onde vamos, ou se ela vai chegar lá. Mas por enquanto, estamos juntos.

Explosions In The Sky, 07/07 – Paradiso, Amsterdam.

Quando os sons iniciais de First Breath After Coma começaram a ecoar pelo Paradiso, entrei em um túnel mental, lembrando que um dia fui um moleque descobrindo os discos dessa banda – que sempre esteve presente na minha vida, ao que parece. Dos meus primeiros corações partidos, dores da adolescência, confusão da vida adulta de um cara latinoamericano. De tudo que EITS me ajudou, sendo trilha sonora (literalmente ou não). Lembrei da única parceira que tive que também ouvia a banda, da sua fender vermelha, dela sentada em um colchão em um apartamento no Ipiranga (talvez ela gostasse de saber que a banda inteira só toca fender também). O ressoar emocional dessa banda mudou, porque eu também mudei. As tretas de um jovem já passaram há muito. A conexão é diferente agora. Mas: chorando, realizei o sonho desse moleque de ver essa banda ao vivo, de estar presente, de estar no lugar certo para poder ouvir as melodias que tanto ecoaram nos meus falantes, fones de ouvido e em minha cabeça por décadas. No palco, caras velhos também, tocando com a maestria de quem está na estrada há 25 anos. Nada fora do lugar, nada estranho, só uma banda sendo o que é. Coisas que nunca achei que iria experimentar – e que sinto uma gratidão singular por ter conseguido. Quando The Only Moment We Were Alone começa a encerrar o show, sorriso toma conta da tristeza. Que longa vida, por mais breve que pareça. Que viagem.

Longlegs, 2024.

Nada como ver um filme de terror que curte ser filme de terror, numa sala de cinema. É sempre massa estar compartilhando aquela doidera com um grupo de anônimos, de frente para uma tela imensa. Longlegs é cinematograficamente uma delícia, tu ficas vários momentos apenas apreciando a vibe, até esquecendo dos horrores todos que são te apresentados em cascata. Não sabia muito sobre o filme, de propósito. Gostei do satanismo desenfreado e da vibe noventista que me lembra ser criança e me auto amedrontar assistindo Arquivo X. Como é bom levar uns sustos, ver umas coisas novas e ter aquele sentimento de estar fazendo algo muito da hora, escondido na última sala, quase no porão, de um cinema.

Dekmantel Ten: Alabaster DePlume + Oklou, 01/08 – Amsterdam.

Tu chegas pela Centraal, aluga uma OV fiets na garagem de trás da estação, pedala por uns cinco minutos ali por trás mesmo, seguindo o rio, até o Muziekgebouw aan ‘t IJ e tomas uma cerveja na pressão, pois descobres que não dá pra entrar na sala com bebidas. O dia é bonito, o pôr do sol é um dos mais bonitos da cidade e tu estás de bermuda – não é tarefa difícil, entornar uma mais rápido. A sala é ampla e confortável, o som limpo. Impressionante em sua pureza e potência. As paredes são cobertas em algum tipo de painel de luz e a sala toda acende e pulsa. Alabaster DePlume entende, controla tudo e te deixa confortável. É um dia bom. Mesmo que ele diga que chegou alguns minutos antes do soundcheck, dessa vez. Quando ele termina de tocar, agradece o espaço de tempo compartilhado. Tu também.

Pegas a bike, descendo até a estação de novo. Ainda tem sol, aquele baixo, crepuscular. Os últimos vinte minutos púrpuras de um dia de verão. Tu chegas na ferry, entra empurrando a bike e atravessa, indo em direção ao Parallel, um club que parece ser copiado de algum club de São Paulo. Cheio de plantas, com ainda algum aspecto de casa. Som pedrada, feito para altos bpm. Oklou, após um false start, confessa que é a segunda vez em três anos que toca ao vivo. E da outra vez deu false start também. Tudo bem, porque quando começa, é tudo que tu esperavas. De hoodie, shorts estilo de ficar em casa e botas pretas, ela te dá a impressão que estás no quarto dela, ouvindo alguém tocar os sons que gosta e cantar e dar uma dançadinha quando quiser. Excelente. Ainda indeciso, incompleto, como show. Mas muito bom justamente por causa disso. Depois, tu pensas em ir ver um Huerco S. e talvez Nosaj Thing, mas os trens tão todos zoados e chegar em casa vai te custar mais umas duas horas que o normal. Melhor mandar um wrap sentado na beira do rio, entrar na estação sem pressa e voltar pra casa, ainda sentindo o vento vindo do rio bater nas pernas.

The Bear, S03.

Tem aquela do Black Alien: o que eu quero e o que eu preciso nem se reconhecem quando se encontram na rua. Uma temporada que parece ser a metade de uma coisa toda. Levando tempo para fazer algumas coisas, curtir o processo, como se diz no linguajar dos nossos tempos. Apresentando lindas cenas a todo momento, a série não expande, ou: resiste expandir. Olhando para dentro cada vez mais, tentando responder questões que apareceram lá nos primeiros episódios. A rotina como um triturador de roteiros. Tudo acontece, menos o que tu precisas que aconteça. Talvez a única temporada até agora de The Bear em que a série que começa a se entender melhor. Progresso, não perfeição.

Otoboke Beaver, 04/06 – Paradiso, Amsterdam.

Uma banda perfeita. Por uns meses fui viciado no primeiro disco do quarteto punk de Kyoto, anos atrás. Foi um daqueles discos que te renovam a paixão por um estilo musical, ou, por música em geral. Uma banda perfeita, sempre achei. Ao vivo: potente e pesada. Te deixam com um sorriso estamapado na cara. Soam grande, como era de se esperar. Incrivelmente afiadas, tanto que a vocalista usa os sons de inspirar como deixa para a banda descambar em rolos compressores de punk da mais crocante qualidade. Que maravilha que é ver a baterista Kaho Kiss tocar: sentada com ótima postura e sorrindo gentilmente, esmerilha o kit com precisão e fúria, sem parecer nem borrar a maquiagem ou bagunçar o cabelo. Uma mestre. Felizes por tocar em um Paradiso cheio, não deixaram ninguém escapar. Uma banda punk japonesa abrindo um mosh pit em Amsterdam é uma doidera de se ver em uma quinta-feira, mas se tem uma banda que sabe que consegue fazer isso, é a Otoboke Beaver.

Smashing Pumpkins + Interpol, 29/06 – Ahoy, Rotterdam.

Antes de entrar em Mayonaise, Billy disse here’s a song that we wrote in ’92. E quase me fez chorar, porque poucas canções soam assim, ao vivo. Um presente, de uma banda antiga, que viveu várias vidas em suas décadas de atividade. Tocaram por algumas horas, mandando mais de 20 músicas (em algum momento James Iha deixou escapar no microfone “just 9 songs more” – pode ser o melhor trampo do mundo, mas ainda é um trampo), entre covers de U2, brincadeiras com riffs de Lenny Kravitz e versões secas, mas muito poderosas, de seus hits. Se o Interpol, que fez um set competente de abertura, soava como um Mustang antigo, o Smashing Pumpkins soou como um navio de guerra aposentado, sem ver tretas há muito tempo mas ainda capaz de assustar quem quer que seja (teve um momento ali que o Chamberlin conseguia fazer a bateria dele mais pesada que muita banda de metal carcomida, uma doidera). Uma banda de uma rara estirpe, que não se vê ou ouve mais, dando uma noite de puro som e alguma fúria aqui e ali. Que jeito de terminar uma semana: indo sentar lá no fundo da arena, cantar umas músicas que cresci ouvindo, ver Billy e Iha se entrelaçarem ao tocar os solos de Rhinoceros (outro presente) e depois pegar a bike e pedalar de volta pra casa, curtindo a cidade, em seu mais puro crepúsculo de verão. Um dia perfeito.