Loki, S02.

Tava no trampo falando de Loki e decidimos que é a melhor coisa que a Marvel, nessa encarnação, já fez. Tanto por qualidade técnica, quanto ambição, engenharia e claro, emoção. Coisa de mestre utilizar um vilão nato dessa forma, abrindo em um segundo um universo inteiro a ser explorado. Créditos a Hiddleston (campeão invicto em “fingir time slipping”), Sophia Di Martino e tantos outros do elenco. Que heavy metal, bicho. Pra um cara como eu, que sempre esperou que os filmes/séries me tratassem como o nerd que sou, Loki foi um calaboca eficiente e apaixonante. Como é bom estar errado, ficava pensando enquanto assistia. Fazia tempo que não me importava com Deuses dessa forma. E: a linha do tempo é longa o suficiente, mermão, sempre é.

Kubi, 2023.

Moral do caralho é escrever um livro (um romance histórico) e depois adaptar em filme tu mesmo (um épico de guerra). Em Kubi, cabeças rolam com a mesma facilidade e intensidade em que as piadas te atingem. Cinematografia irretocável, elenco imenso (que te confunde até) e totalmente na mesma frequência, aquele gore samurai nosso de cada dia – com direito a cenas tradicionais de lances NINJA, mas com aquele gore que nos acostumamos nos últimos tempos (obrigado Kitano, obrigado Miike) e claro, a seriedade que Kitano consegue dar às mais simples das cenas. Uma aula, um privilégio. É tipo um Succession Japão Feudal style, só que usando figuras históricas reais e maltratando todo mundo. Kitano velho é mestre de tudo e todos, bicho.

Talk To Me, 2022.

Fazia muito tempo que não via um filme de Terror com T maiúsculo no cinema, acompanhado de casais em encontros e de fileiras de adolescentes legitimamente se assustando. Ainda mais algo especial como esse Talk To Me, debut dos youtubers do RackaRacka, um projeto que emana doidera, simpatia e esforço. Tudo funciona, até mesmo a antipatia (natural) dos atores adolescentes. Aquela cena de abertura é puro suco de pesadelo, te puxando pro lado fundo da piscina logo de cara. Fiquei bastante tempo conversando sobre esse filme nas semanas seguintes, porque não só possui um conceito simples e eficiente, como tem stunts hardcore e até mesmo se liga com o Espiritismo de forma torta, provando que é uma baita religião/doutrina para ser explorado em horror e sci-fi (ver também: metal do Dead Times). Parece que o sucesso comercial também foi forte. Então, que venham outras sessões de cinema como essa. Obrigado irmãos Philippou.

Bodies, S01.

Spoilers à frente. Teje avisado. Tirando todos os problemas de viagem no tempo (até agora poucas séries souberam fazer isso, talvez a melhor tenha sido Devs – e meio que a regra é: se não te dói a cabeça, tem um paradoxo evidente que desmonta toda a narrativa), Bodies pega a HQ e refaz quase tudo, até porque se me lembro bem a HQ é um daqueles trampos que querem ser mais sérios do que são (a Vertigo publicou muito desses ali naquela época, o começo dos 2010), com bons resultados: tem um momento ali perto do final que me lembrou The Leftovers, que o drama deixou-se ser mais do que apenas fatalismo e redenção. O futuro é estranho, o passado, por mais que tentem, é uma ilusão e o presente é doloroso sem medida. Dia desses conversamos na barbearia como estamos na mesma idade em que nossos pais nos tiveram, e é quase inconcebível entender o que eles estavam pensando. Talvez nem precise conceber. Como diz Black Alien, imaginação, memória ou presente, passado e futuro, existe não, se é que ‘cê me entende.

Witching + Fange, 05/10 – Urban Spree, Berlin.

Podia jurar que já tinha ouvido Witching. Achei que lembrava, mas quando a banda começou a tocar, não registrou. Talvez ouvi outra banda de nome semelhante, tudo bem. Isso me aconteceu várias vezes durante essa visita à Berlin. Por algum motivo olhava para algo (um prédio, rua, loja, trem) e lembrava daquilo, mesmo sem nem saber o que é. Ou talvez eu sabia, mas só esqueci. Todavia, é bom conhecer uma banda nova pelo que tão tocando no palco, e o Witching é uma belezinha. Aquele metal clássico, que sabe ser sludge e deixa os vocais soltos (baitas vocais). Tudo que o cara precisa de vez em quando.

O Fange já é outro bicho. Outra história. Um ataque frontal. Um exercício em forma de barulho. Teve uma época que acho que no bandcamp deles tinha a frase “This is ignorant music for the Educated Man”, mas o tempo passou e acho que a gente tá mais ignorante do que esperava, ou talvez seja só a minha percepção. Aquele Fange do sludge dos infernos quase não apareceu nessa noite, o que veio foi um estridente, combativo, desgraçento e puro som industrial. Dois estrobos virados de frente pra plateia, aquela luz branca e prateada assaltando todo mundo. Fazia tempo que não passava por isso, um hard reset de algumas partes do teu cérebro. Com a banda te forçando até dar certo. Existindo apenas no momento, como canta a letra de Sang-Vinaigre.

V/H/S/85, 2023.

Doidera. Ano passado mesmo teve um desses V/H/S, né. Sem querer parecer que tou reclamando, até porque: esse 85 é o bicho demais. O formato geral da antologia tá no prumo nessa edição. Toca como uma mixtape infernal – uma liga torta (tortíssima) em forma de fita vhs, não muito diferente de uma fita caseira que estaria dentro de um videocassete (caso fosse o videocassete do capeta). Os segmentos são hardcore crossover puro, com poucos momentos fracos, entregando aquele gore retrô nosso de cada dia. Destaque para God Of Death (baitas cenas atordoadas de terremoto) e Dreamkill (Scott Derrickson deitando no formato e entregando um dos melhores momentos da série inteira). O resto do filme é cheio de bons momentos e acaba meio que elevando o todo a ser um dos melhores V/H/S. Quem diria. Doidera. Vida longa à V/H/S, mermão.

Sessa, 04/09 – Rotown, Rotterdam.

Me vi (sentado) ouvindo o Sessa numa noite de segunda. Só violão e vozes e nada mais. Me permiti uma certa nostalgia, lembrando alguns anos em SP em que ver shows assim pelos Sesc era algo que acontecia com até certa frequência (mesmo eu sendo cabeça dura e querendo MAIS GUITARRA MANO). Envelhecer é massa, todavia. Perceber na plateia um monte de brasileiros expatriados, cantando baixinho e balançando, é o mais perto de casa que posso me sentir aqui do outro lado do oceano. Sessa mandou Donato, Cartola e Eduardo Mateo (depois dessa, aliás, disse “tem tanta coisa ruim no mundo, mas tem também essa música”) em um interlúdio de covers que me agradou demais. E de repente o cara se vê cantando mentalmente Acontece como quem sabe finalmente o que o Angenor queria dizer.

Kumbia Boruka, 19/08 – LantarenVester, Rotterdam.

A cumbia sempre esteve presente na minha vida, eu prestando atenção ou não. Recentemente, fiz um esforço maior em começar a notá-la mais. Os caras que trabalham comigo gostam daquelas cumbias colombianas antigas, que me remetem um pouco ao carimbó e siriá da terra onde nasci. O salto da cumbia com c para a kumbia com k do méxico é natural, e tive em primeira mão uma aula mestre disso com esse show da Kumbia Boruka. Uma pancada atrás da outra, com metaleira fingindo ser ska, cozinha pesada como heavy metal e algumas homenagens ao próprio estilo que muito me educaram (um cover de Celso Piña e um momento kumbia rebajada excelente demais). Diversão demais e aquele sentimento intacto de que tem tanto pra se ouvir e experimentar que eu nem arranhei a superfície ainda. Talvez um dia eu até dance.

Barbie, 2023.

Nessa doidera de verão nos cinemas em que Oppenheimer e Barbie acabaram sendo lados da mesma moeda (apesar de: sentido nenhum) o vencedor pra mim acaba sendo Barbie – que pelo menos não é obtuso e medroso como o épico do Nolan. Barbie também evita “O problema”, mas acaba sendo muito eficaz em apontar o roteiro da Gerwig e do Baumbach para outros (inúmeros outros) problemas, utilizando verborragia nos momentos corretos e dando nomes e títulos a tudo. Divertido, mas ainda sofre de si mesmo: como um produto pós-capitalista, é inefetivo como o drama do Nolan. Claramente não se pode ter tudo, mas pelo menos há um coração aqui, por mais cínico que possa ser (até porque: tem que).

Sasquatch, 30/7 – Baroeg, Rotterdam.

Conheci o Sasquatch bem no começo das minhas incursões no que virou o Stoner Doom das tags cabulosas. Quando ainda era só chamado stoner e ainda dava pra chegar no Kyuss por graus de separação. Isso faz tempo, acho que talvez ali pelo fim da faculdade (o primeiro do Sasquatch é de 2004). Mas o que lembro é de estar fritando em uma brisa de cafeína em um escritório de vidro da Vila Olímpia, fazendo alguma coisa qualquer no keynote, ouvindo o segundo disco deles e pirando na minha dose diária de fuzz, ah tempos ruins e bons. O tempo passou brutalmente e aqui cheguei, num domingo típico do verão holandês (vento e chuva e úmido que nem Belém), indo assistir a um show que começou acho que 18:30. Como é bom ser velho. O trio (que eu nem sabia que era um trio, aliás quem me atendeu na banquinha de merch foi o baixista [não reconheci, claro]) se mostrou confortável, como quem já sabe o que quer depois de tanta estrada. Aquele som de les paul com fuzz no talo, de rickenbacker afinado lá em baixo, de bateria com caixa enorme. Como é bom curtir coisas simples e barulhentas. Os caras tocando visivelmente se divertem, eu me divirto e a gata ao meu lado se diverte – aliás ela que notou que quase ninguém tava com o celular pra cima, coisa rara em shows hoje em dia. Galera quer rajada e nada mais. Vida longa ao stoner fuzzed out doom nosso de cada dia.