Essa série começou em um ano em que muita coisa mudou pra mim. Inevitavelmente, virou uma das minhas constantes. Desde suas temporadas iniciais, que construíram um universo que sempre me encantou, passando seu triste cancelamento, terminando em suas temporadas finais renascidas da pilha de dinheiro da Amazon. As mudanças que passei nos últimos combinavam com o caos futurístico que a série me trazia. Me apeguei aos personagens e seus códigos de conduta, aprendi e observei. Acho que todo mundo que conversou comigo nos últimos seis anos sobre séries, ouviu um pouco sobre The Expanse. Me tornei um influenciador. A última temporada foi uma talagada após a outra, apenas seis episódios. Um adeus. Trazendo em primeiro plano algo que The Expanse sempre quis expor: as coisas podem ser diferentes dessa vez. Se há uma chance, é possível. Que anos bons. Até mais, The Expanse.
Desde os episódios iniciais, comecei a sentir algo diferente por essa série. Tecnicamente há vários pontos positivos. Bela cinematografia, elenco que parece expandir sem perder a qualidade. Apocalipse neo-feudal, timelines que de conectam, ou interseccionam ou parecem se sobrepor. O mais aconchegante fim do mundo. Mas acho que tem algo a mais, comecei a perceber que meu foco virou mais emocional. Quando um episódio contou o que aconteceu com um grupo de pessoas que passou pelo começo do fim do mundo ilhado em algum aeroporto em Michigan, comecei a ver que nem eram os personagens que me interessavam. O que eu sentia era uma conexão forte com um dos temas da série: recomeçar não é fazer tudo o que foi feito antes (ou não pode apenas ser isso). Recomeçar é não dever quase nada ao que veio antes. As escolhas que se abrem quando se passa por isso, meu velho, são intensas e definitivas. Station Eleven abre esse leque na tua frente, ora de forma direta, ora sendo deliciosamente obtusa. Acho que tenho que ler o livro em que a série se baseia. Bagulho bateu forte.
Me diverti bastante assistindo essa primeira temporada de Mythic Quest. Demorou uma eternidade para uma sitcom fazer justiça ao universo de produção de games (Silicon Valley tangenciou muito disso, mas não chegou lá). É uma boa temporada, boa série. Mas o que me cativou mesmo foi um episódio isolado, bem no meio da temporada (S01E05), que não possui muitas conexões com o resto da série. O episódio “A Dark Quiet Death” é uma espécie de one-shot, contando a história de um casal que se conhece em uma loja de games, começa a produzir o seu próprio jogo (aparentemente um fps de horror), atinge um sucesso imenso e começa a ter problemas entre visão artística e decisões comerciais. Sempre curti a estrutra rom-com da virada do século (comfort food mental pra mim, que fui adolescente nessa época) e Jake Johnson e Cristin Milioti estão excelentes como o casal que atravessa várias fases tentando se manter junto. Tem dias que tu só queres assistir uma sitcom e relaxar, mas aí um episódio como esse acontece. Inicialmente pensei que seria o “episódio triste” da temporada, mas em alguns minutos percebi que estava sendo fisgado por algo diferente. Muito por causa de Milioti, apaixonante como uma criadora dark e em conflito consigo mesma. Um bonito e singelo episódio, engraçado e escrito com esmero. Foi como ter um flashback de algo não vivido. Obrigado, Mythic Quest.
Esse lance de História Alternativa nunca foi muito a minha. Mas aí o cara envelhece e aprende umas coisas, começa a ver tudo como nós que se desenrolam sem limites. Hoje em dia, essa vibe até rola (dependendo do ponto de vista, toda a História é alternativa). Mas normalmente não me engaja muito além de um interesse inicial. Comecei a assistir For All Mankind meio que nessa, ah, e se os EUA tivessem perdido a corrida espacial, como seria né. Confesso que engatei algumas vezes ali no primeiro episódio (meu interesse pela corrida espacial é bem pequeno hoje em dia). Mas aí teve aquela cena em que os Soviéticos mandam uma mulher pra lua, ela abre o capacetão de cosmonauta e tá lá, mortal. Baita cena. Assim que deveria ser feito. Os episódios então começaram a me consumir: era isso que eu queria ver. Muito bom ver o Joel Kinnaman brilhando, encontrando bons pares em suas cenas – mesmo que a melhor parte do elenco sejam as mulheres, que vão de personagem estereótipo ao infinito em apenas alguns episódios. Dominam a série com maestria (Margo, excelente personagem, Molly idem). A série deixa de ser sobre esse lance de “os melhores de nós indo ao espaço” para ser sobre as mudanças que uma década cheia de transformações sociais causam nas pessoas. Os anos 60/70 dos EUA já foram retratados de forma competente por séries como Mad Men, deixando para For All Mankind uma linha de tempo alternativa que é cheia de problemas, mas também cheia de avanços e possibilidades. Difícil soltar de alguns personagens, mesmo que a série pule ferozmente por meses, anos até. Alguns episódios dessa temporada são muito melhores que outros, todavia boa temporada inicial.
Não sei o que estava procurando ou pensando quando decidi assistir uma série que inicialmente é sobre uma gripe que devasta o mundo. Talvez curiosidade em ver a minha atual realidade retratada em algum lugar (enquanto digito isso, estamos no segundo dia do terceiro Lockdown geral desta pandemia). Curiosidade essa quase mórbida, naquelas de será que os dias (meses, anos) estranhos que venho vivendo seriam massa em uma série? Ou: eu estou passando pelo mais entediante fim do mundo que existe, tomei todas as decisões erradas e não fiz nada digno de ser lembrado, mas como será que esses personagens vão lidar com o fim do mundo deles? Sei que queria ver a Mackenzie Davis. Paixão platônica desde Halt And Catch Fire, um dos meus prazeres prediletos é ver cenas em que Davis faz aquela expressão de confusão e tristeza. O que eu não tava preparado era pra me emocionar de verdade com ela fazendo Hamlet em Station Eleven. Na real eu não tava muito preparado pra Hamlet no geral (o cara envelhece e se enrola bem no Shakespeare, vai vendo). E assim Station Eleven me pegou. Começa pela curiosidade babaca, fisga por Davis encontrando um papel que encaixa bem em suas capacidades – e aniquila com os outros personagens, que desdobram-se na tela através de flashbacks e flashfowards que não cansam ou confundem. Tu podes até saber que o mundo tá acabando, mas tu não tens muita certeza de como ou quando vai rolar, feito os personagens. Há também algo que me agrada demais, que é a vida pós-apocalíptica de pessoas que vão tentar continuar atuando, escrevendo, cantando, tocando e tentando viver de Arte. Mesmo que sempre carreguem uma baita faca consigo a todo momento. Não sei como a temporada vai se desenrolar, mas não importa muito à essa altura. O elenco tá em chamas, vou continuar acompanhando de qualquer forma.
Tem um lance de ser fã de Humor (esse com agá maiúsculo, ou Comédia com cê maiúsculo) que, além de ser muito irritante para qualquer pessoa que não simpatize, acontece com uma raridade que chega a ser até frustrante: encontrar uma pessoa que tenha o mesmo senso de humor nerd que você. E não somente isso, alguém que consiga ver o potencial das tuas piadas ruins e sem ego algum, te ajudar a construir piadas melhores em cima delas. Trabalhar em cima de algo que precisa ser engraçado é terrivelmente dolorido. Requisita uma intimidade brutal, que mesmo nunca tendo trabalhado diretamente em Humor, tive o privilégio de experimentar pelo menos duas vezes em minha curta carreira de escritor. Hacks é, centralmente, sobre isso. Sobre pessoas que acima de tudo sentem-se mais à vontade quando ouvem ou dizem algo engraçado. Que constroem uma vida inteira em cima desse sentimento. Para o bem (e na maioria das vezes) para o mal. Uma série tão rara quanto o lance que descrevi. Tudo funciona: o roteiro é cativante, engraçado e repleto de cenas perfeitas. Jean Smart deita demais em todas as cenas, e a química com Hannah Einbinder é leve e verdadeira. Uma série difícil de se fazer acontecer.
Que baita temporada. Essa talvez seja a melhor novela que eu já assisti. Acho que se a série terminasse aqui, tudo ficaria bem. Game over, pegue uns Emmy e vamo pra casa. Nesse season finale, até mesmo a L word apareceu (haja autodisciplina pra não escrever uma cena como essa antes, broder Jesse Armstrong). Os pontos altos foram vários, seja nesse ep ou na temporada: Roman sendo o melhor bilionário do mundo, Greg sendo o garoto mais doce que já existiu e Tom do nada se transformando em um personagem mítico. Tom é dos nossos. Acho que se tirasse as camadas de dinheiro, corporativismo e doideras dos 1% no geral, acabaria sendo ainda uma boa série, mas confesso que o creme está em frases como “you could be heading away from the endless middle and towards the bottom of the top”. Coisas que só Succession faz por você.
Everybody had a hard year. Ringo apenas diz I would like to go on the roof. George muda de ideia, John concorda. Paul sorri. Um final se aproxima. Até.
No primeiro episódio há um desconforto bruto, que culmina na dissolução da banda. Mesmo que ainda consigam se divertir tocando, claramente há várias coisas erradas entre e ao redor dos quatro. Música não parecer ser mais o suficiente. A tristeza é evidente. Paul parece contemplar por alguns minutos que sua banda acabou, visivelmente atordoado. Aí o projeto se muda para o Apple Studios. Os quatro imediatamente se sentem melhor, tendo conversado sobre sua situação com George. Aparentemente eles se acertam (não há cenas que indicam isso). Aí tu vês que esses eternos cute boys gostam mesmo é de um estúdio. É obviamente a casa deles. No segundo dia, o equipamento de gravação ainda não está montado. Eles começam a perguntar, está pronto, está pronto. Querem gravar. Tocar é massa. O lance é gravar. Ficam progressivamente inquietos. Finalmente as fitas de rolo começam a rodar. Os quatro começam a fazer o que querem fazer todo esse tempo. Tocar e gravar. A primeira vez que vão para a cabine do estúdio pra se ouvir é reveladora: eles são apaixonados, apesar de todas as tretas, pela própria banda. A evolução das canções-rascunho é imediata e forte. Billy Preston chega e começa a tocar com maestria um piano elétrico. A banda sorri pra caralho. Os takes que acabariam no disco começam a brotar. Uma doideira. Em algum momento, acho que é John que diz algo como “vamos fazer isso direito porque é a última vez que vamos fazer”. Aí tu te tocas que eles estão conscientes da sua própria finitude. Aproveita, porque está acabando. Ri todas as vezes que John disse “and your host for this evening, The Rolling Stones”. Piada besta, mas do meu tipo. John ciente de que está perto do seu “peak” do dia, cantando com dor e beleza. Mais takes finais. Fica marcado o olhar gelado de Ringo, assim como as tentativas frustradas de conexão com John que Paul busca. O desconforto geral com as câmeras ali. George pede uma gravata borboleta, talvez para se lembrar que por mais que pareça apenas um dia no estúdio, aquilo tudo ainda é uma performance. A banda é um dead man walking.