We Own This City, S01E01-03.

Acho que foi ano passado (os anos da pandemia misturaram-se uns com os outros na minha cabeça) que reassisti The Wire pela terceira vez, ainda sentindo fortemente os efeitos do monumento em forma de série de TV que é a imortal, suprema, incansável e bela The Wire. Sempre pensei, se durante os anos em que ela passava semanalmente, as pessoas que a assistiam tinham noção do que estava acontecendo, que aquilo ali era provavelmente o apogeu do universo de série criminal dentro do formato. Assistindo We Own This City, tenho a resposta: sim, é óbvio que dá pra sacar que algo de especial está acontecendo. Em We Own This City, David Simon retorna à Baltimore, dessa vez usando um livro-reportagem sobre uma treta imensa de corrupção e crime dentro da polícia da cidade como base. Reinaldo Marcus Green dirige os episódios e o cast é uma mistura de amados atores que estiveram em The Wire (e Treme e The Deuce) e outros estreantes que claramente abraçam o material com afinco. Mágica e técnica, realismo e ficção em um equilíbrio possível somente dentro desse mundo que Simon é tão fluente. Não fica muito melhor do que isso.

Slow Horses, S01.

Espião, via de regra, não chega a se aposentar. Ou desaparece, morre em ação ou vira burocrata dentro do governo. Jackson Lamb escolheu/tentou virar um burocrata falido, limitado, chefe de uma divisão horrível do MI5 após evitar morrer como um espião que presenciou os anos pré-muro e pós. Seu departamento não faz nada além de engrossar o caldo da “inteligência” britânica. Gary Oldman infalível deita como Lamb, controlando os episódios com experiência e cadência. A série desenrola-se como uma improvável mistura de The Office e Killing Eve, como se tivesse sido escrito por um Carré que curte George Carlin; entre momentos engraçados, trágicos e tensos, Slow Horses mostra-se como uma série que, assim como Jackson Lamb, talha um espaço próprio para si em um mundo lotado de séries e shows e toda sorte de narrativas. Feito admirável.

The Righteous Gemstones, S02.

Danny McBride como o campeão atual do humor vindo dos EUA: escreve, dirige e atua de forma excelente em The Righteous Gemstones. Essa segunda temporada é um dos ápices de sua carreira, certamente. Tudo funciona, os personagens são deliciosamente complexos, engraçados até o talo (e um pouco menos insuportáveis), as cenas de ação são espetaculares e tem Walton Goggins entregando a performance de uma vida em cada frame. Demorei para dar play nessa temporada e quando vi já tinha atravessado todos os episódios. Os roteiros são metralhadoras de piadas e referências constantes, não deixando o ritmo afrouxar quase nunca. Diferente da primeira temporada, que consegue ter momentos antipáticos que estragam um pouco a diversão, essa segunda encontra um equilíbrio e esmerilha sem perdão. A cena em em que Danny fala “The whole church sucking my wife’s dick” requer reconhecimento como um patrimônio cultural global imediato. Cumpra-se.

Tokyo Vice, S01E01.

Usando as memórias do repórter Jake Adelstein, um broder do Missouri que se tornou o primeiro gaijin a trabalhar num dos maiores (senão o maior na época) jornais do Japão (senão do mundo) como base, Tokyo Vice é basicamente feito para patos como eu: Michael Mann dirige o primeiro episódio, a Tóquio é aquela em plena ressaca pós-bonança dos 80s e tem o Ken Watanabe. Porra, é meio covardia até. Tem uma cena do Jake andando pela imensa redação do jornal que é um pequeno delírio nerd. Tem a presença inescapável de uma Yakuza altamente organizada e ritualística. Jake passa os seus dias estudando japonês e recortando reportagens de jornais, levando uma surra em Aikido, mandando ver num rango de Izakaya e sendo no geral um gaijin em total imersão numa cidade infinita. Bagulho bom.

Winning Time: The Rise Of The Lakers Dynasty, S01E04.

Uma doidera. Tem John C. Reilly em completas chamas ostentando um comb over criminoso, narração em off, quebra de quarta parede, inserts documentais, animação, gráficos pipocando na tela, cenas que parecem filmadas em câmera 8mm, outras em um digital-analógico meio torto, uma tonelada de personagens e atores que parece não terminar (não sabia nada sobre essa série quando comecei a assistir, daí pá Adrien Brody, pá Jason Segel etc). Quando saquei que é produção do Adam McKay, ficou meio óbvio até. Tenho me divertido pra cacete com os episódios dessa série. É um pacote inesgotável de piadas, referências e personagens encantadores. Puro suco de EUA nos 80s. Talvez o efeito seja mais intenso pois não sei muito sobre essas pessoas e esse período do basquete, só meio por cima. Ser jogado no meio das engrenagens daquela época dessa forma é um prazer.

Atlanta, S03E02.

Quando Darius diz que “This city is my Jesus”, sentado na beira de um canal de Amsterdam com um clássico joint holandês aceso, basta balançar a cabeça e concordar. Sempre tive forte respeito por Atlanta, uma série que evolui de forma surpreendente desde a sua primeira temporada. Todavia, sempre senti um desconforto característico, como se o que fosse retratado ali não fosse realmente pra mim. Não pra eu entender e tal. Talvez alguma coisa no senso de humor dos personagens sempre me deixou meio desconfortável. É como estar na roda de amigos e não entender algumas piadas e referências não por ignorância, mas por não saber o que eles querem dizer com aquilo de fato. Talvez seja pra ser assim (tudo bem). Entender é um luxo.

Billions, S05E10.

Tinha deixado episódios de Billions acumular, meio que de propósito (essa série sempre foi divertida demais e ter que esperar entre um episódio e outro quebra o sentimento). Não estava preparado paras as mudanças que acontecem da quinta pra sexta temporada. Personagens vão e vem, alguns entram e ficam. Os episódios começam a ficar esquisitos, de uma forma interessante. Nesse S05E10 tem uma cena de uns cinco minutos sem diálogo em que o Paul Giamatti faz uns ovos mexidos. Uma espécie de homenagem à Big Night. Lá no S06E04 aparecem uns cards ao lado dos personagens, mostrando o quanto eles estão vestindo/usando em seus fits do dia (Wendy obliterando tudo e todos com seu corte de cabelo de 800 doláres). Tem um momento bem Miami Vice em que Axe e Wendy encenam um possível futuro (romantismo descarado fundamental). Pra uma série que já está há mais de meia década no ar, nada mau. Continue esquisita, Billions.

Black Summer, S02.

Certa vez, uma ex me disse algo como “Você não é um niilista intelectual, é um niilista instintivo e, portanto, irrefutável”, ela estava anos-luz de mim nessa afirmação (aliás sempre esteve em tudo). Demorei para entender o que ela queria dizer. Tava assistindo essa segunda temporada de Black Summer, que passou completamente batida pelo meu radar ano passado, mesmo que eu tenha curtido e recomendado demais a primeira temporada. Minha série minimalista de zumbi favorita. Ou: meu tipo de niilismo em forma de série de zumbi minimalista. O sentimento da primeira temporada ainda está aqui: a cena de abertura é um exercício em desgraceira, que te joga em um mundo onde o apocalipse aconteceu há uns seis meses e quem sobrou é tudo zoado da cabeça. Nos últimos dois anos brinquei que a Pandemia Global foi um dos mais entediantes fim do mundo. Mas queria passar longe (ou: não duraria muito) no fim do mundo que Black Summer apresenta. Tudo que funcionou na primeira temporada tá aqui: alguns personagens são os mesmos, algumas situações até parecidas. A série expande em outros pontos importantes (um deles sendo que mesmo com um fuzil automático, um zumbi furioso é um alvo quase impossível, outro sendo que conflitos armados entre pessoas em um mundo onde existem zumbis são um dos mais terríveis momentos do cosmos). O niilismo bruto, galopante e óbvio (irrefutável) de Black Summer é talvez o que me faz mais gostar dessa série. Decisões bad trip são tomadas em quase todos os episódios, numa roleta-russa intensa, triste e inescapável.

Archive 81, S01E03-08.

Salvo alguns momentos menores (culpa do elenco irregular), essa temporada foi muito boa. A progressão da narrativa acabou por me prender, mesmo que não tenha ficado esquisito de verdade. Bem massa esse lance de utilizar vídeo como código-chave para interseccionar dimensões. O tipo de coisa que curto demais. Sou fã da antologia de horror V/H/S, e Archive 81 encaixa bem nessa categoria. É como um spin-off mais sério e menos gore. Se o tempo é um círculo plano, como diria Rust Cohle, os acontecimentos dessa série fazem sentido e se tornam até óbvios. Tudo é uma questão de observação.

Archive 81, S01E01-02.

Posso estar enganado, mas acho que essa é a segunda série de medo que assisto que é baseada em um podcast (a boa Channel Zero sendo a primeira). Dan Turner, um bróder analógico em um mundo digital, trabalha como restaurador em um museu audiovisual. Um dia começa a restaurar uma fita 8mm que acaba por virar o começo de uma série de restaurações que vão aterrorizar seus dias. Acho que eu tenho em algum lugar um plot parecido, que tentei escrever uns anos atrás (algo como “chapeiro de uma casa noturna de uma cidade dos arredores de Belém aluga um dvd pirata contendo um assassinato real”) e fiquei pensando bastante na minha ideia, até desencanar e deixar Archive 81 tomar as rédeas, porque parece ter algo massa aqui. Dan é um isolado que curte os mesmos filmes que eu (ao encontrar uma fita de Solaris, murmura um hell yeah fundamental), parece ter saído de um break-up e caído em algo mais que apenas isolamento por um tempo. Mamoudou Athie faz Dan de forma ótima, retratando bem um Cara Que Não Está Realmente Aqui.