The Newsroom, S01.

Dia desses li um post, de uma dessas contas de instagram que fazem posts de texto explicando alguns conceitos psiquiátricos de forma cute, que um dos efeitos de estar operando além da própria capacidade mental é resistir experimentar coisas novas. Como se o cérebro estivesse carregado até o limite. Faz um tempo que comecei, quase instintivamente a assistir de novo algumas coisas. The Wire. True Detective. Filmes do Kar Wai. Não foi muito planejado, mas continuou acontecendo. E continua acontecendo.

Terminei a primeira temporada de The Newsroom esses dias. Virei um tio que reassiste infinitamente as mesmas obras, mesmo que elas não sejam tão boas assim. Comfort food mental on demand. Quando The Newsroom começou, eu imediatamente curti. Todos os Sorkismos do mundo em uma série só, usando um caminhão de dinheiro da HBO e finalmente um Sorkin livre pra fazer o que quiser, escrever como achava que deveria ser. Claro que não deu muito certo, pois ele decidiu reescrever a realidade como um todo, num arroubo de autoconfiança invejável. Mas fora o que não deu certo, ainda há uma série que é romântica até o osso. Seja em relação ao Jornalismo com J maíusculo, seja com relações interpessoais. Personagens, que apesar de aparentemente serem apenas versões de uma mesma pessoa, causam em mim um sentimento familiar de pertencimento. Mesmo que eu nunca tenha pertencido à algo como o ambiente da série. Nostalgia por um passado inventado. Por querer estar ali, mesmo sem nem saber o que ali realmente seja.

Mr Inbetween, S01.

Fazia tempo que eu não ria com um personagem lacônico desse jeito. Em algum lugar de New South Wales, Ray é um capanga faz-tudo para um criminoso não muito importante em alguma cidade não muito grande. Os episódios voam, misturando violência e humor quase na mesma dose. O mérito maior é mesmo para Scott Ryan, que faz o papel de Ray. Dono de um timing insuperável, episódio após episódio não tem como não simpatizar com as agruras que ele passa, mesmo que elas sejam causadas por ele mesmo. Ótima série, que passou batida pelo meu radar, mas graças à uma dica direta de down under (valeu D!), corrigi essa falha. Tu meio que devias fazer o mesmo, vai por mim.

Old, 2021.

Fico meio em dúvida sobre o quanto autoconsciente o Shyamalan é. Acho que vou decidir que ele sabe o que tá fazendo. Pois em alguns momentos, rola um lance com o áudio desse filme que só pode ser brincadeira ou uma escolha deliberada. Sem contar no diálogo, que causa uma sofrência meio gratuita. Mas fora isso, se eu tivesse uns doze anos de idade, ia curtir pra caralho ver esse filme e chegar e contar pra todo mundo ver na escola. Talvez seja isso, né. Um filme que não se se leva muito a sério, mas que mesmo assim é bem filmado e montado. É como um sonho, que tu não sabes muito bem se é um sonho engraçado ou triste.

Candyman, 2021.

Não lembro muita coisa do original, acho que a última vez que assisti foi em VHS ainda. Nunca entrei numas com o material do Clive Baker que foi adaptado para filmes. Ele é creditado como um dos roteiristas desse remake, que achei bem competente e funcionou muito bem. Chicago continua sendo uma baita cidade para ser filmada. A parte do horror mesmo, não sei se foi muito eficiente (algumas cenas parece que foram inseridas na pós-produção, após alguém dizer “gente tá faltando uma cena assim assado”), mas como drama sobre o ciclo infinito de demolição e construção que cidades muito grandes passam década após década, bom filme. Até mesmo a parte Velvet Buzzsaw foi interessante. Lendas urbanas eternas, fazendo o que sabem fazer melhor.

Charley Crockett – Music City USA, 2021.

Pardon me, mister I feel I’ve given up
So humor me and if you don’t mind
Could you fill my cup?
Somebody says you look under the weather
And I reply that I’ve been much better

Excuse me, please
The world just broke my heart

I don’t feel sorry for myself because
That would be too much

Sou um cara de sorte. Bem quando as coisas começaram a dar bem errado pra mim, me apareceu o Charley Crockett. No último ano, carrego os discos dele no celular como um precioso bem, capaz de mudar o curso do dia num apertar de botão. Um amigo que sabe exatamente o que te falar e como te falar. Sorte também é pegar Crockett em plena ascensão em sua carreira, com uma banda cada vez mais afinada e composições cristalinas que parecem brotar constantemente. Os últimos três discos do homem são 10/10, em uma discografia já pesada. Estamos todos cansados, mas parece que Charley está só começando. :: https://orcd.co/musiccityusa

Malignant, 2021.

Bagulho é doido. James Wan sempre foi um diretor que sabe o que está fazendo, mesmo que esse “o quê” seja ruim (Aquaman, Furious 7), bom (The Conjuring, Death Sentence) ou simplesmente filme-pra-adolescente-se-divertir (Saw, continuações de Conjuring e Insidious). Malignant é meio indeciso como filme, pois há uma produção massa, que constrói uma cinematografia até rebuscada às vezes (numas meio “ei, faz meu filme parecer Se7en pfv”) – mas daí tudo fica meio zoado com a atuação do cast em cima dos diálogos totalmente dureza de se testemunhar e com a notória predileção por gore grotesco de Wan (em boa forma, mas de novo, meio indeciso no que quer “ser”). No final das contas, divertido pra carai, mesmo que ali pelo começo dê uma canseira leve. Um filme feito por um cara que certamente passou horas em seções de horror de videolocadoras, assistia aquelas sessões de filmes B da BAND e que até hoje se lembra dos filmes que viraram lenda na escola ali pela sétima série.

Red Room, #01-03.

Ed Piskor é dos meus. Acho que ele é um dos poucos artistas que acompanho há anos no Instagram e ainda curto o que ele posta. Porque ele é nerdão. Daqueles que passa o tempo livre realmente jogando games 8-bit. E quando ele senta pra trampar, trampa mesmo. Escreve, ilustra, letra, diagrama, edita. Broder é um estúdio de arte inteiro sozinho. Red Room foi desenvolvida quase em tempo real, com páginas disponíveis no Patreon assim que Piskor as terminava (não paguei, mas valeu esperar pra ver Red Room no formato “final”). Misturando dark web, snuff, gore a galore e um doentio detalhismo gráfico, Piskor apresenta Red Room em histórias fechadas, mas que se conectam dentro do universo da HQ. É um trampo de nerd pra nerd, na sua forma mais brutal e intrincada. Coisa de quem cresceu assistindo Faces da Morte em VHS, que baixou um DIVX de Cannibal Holocaust, que lia revistas como Lôdo. Treta demais pra explicar, na real.

Nine Perfect Strangers, S01E01-05.

Sempre tive medo de hippies. Em Nine Perfect Strangers, meus medos meio que se justificam. A mistura de xamanismo oportuno, busca de autoconhecimento como a solução final para a tristeza e problemas da vida, yoga, bioenergia e mais um monte de coisas que custam caro em spas é bem assustadora. Porque beira um culto. E mesmo que seja em busca de algo maior/melhor, ainda há de se pagar a salgada conta. Tirando essa minha birra, boa série (não li o livro em que se baseia mas estou curioso agora). Kidman e boa parte do cast em chamas, mastigando o roteiro com fúria e os episódios se desenrolam sem muitos momentos menores. É uma espécie de House on The Haunted Hill da wellness. Diversão pura, às vezes.

Maniac of New York, #01-05.

Enquanto os detentores dos direitos de Friday The 13th não se resolvem, posso colocar essa boa Maniac Of New York direto na linhagem de Voorhees: e se o monstro como esse surgisse em uma cidade incapaz de resolver problemas óbvios? Por quanto tempo ele seguiria destruindo tudo ao seu redor? Um brutal exercício slasher em forma de HQ.

Fear Case, #01-04.

Matt Kindt em boa forma, econômico e esquisito no grau. Tyler Jenkins em seu modo mais noir-gore possível. Fear Case desenrola como um filme amaldiçoado, deixando pouco espaço para especulações ou conspirações, apesar de ser calcado em justamente coisas do tipo. Algumas perguntas merecem nem ser contempladas.