Já faz uma cota que vale acompanhar o que os franceses tem produzindo na categoria música extrema. À Nos Morts tem vinte e três minutos de excelente destruição em forma de tags como powerviolence, blackened crust e chaotic hardcore. Mas no fundo mesmo, é só um disco quase perfeito do metal nosso de cada dia. :: https://pilori.bandcamp.com/album/nos-morts
Devo ter assistido à essa primeira temporada pelo menos umas quatro vezes. Talvez mais. Consigo lembrar dos episódios com certa clareza, mas toda vez acabo rindo com alguma piada ou referência que deixei passar anteriormente. Livia Soprano continua me estressando demais, crédito total à perfeição que Nancy Marchand dá ao personagem. Acho que teve uma época que eu, de propósito, não prestava muito atenção às cenas dela porque me dava um troço no coração bicho, difícil demais. Muito estresse. Mas nada como envelhecer. Ainda me dá uma ansiedade do caralho, mas é de certa forma fascinante. Os episódios passam rápido, deixando aparente as intenções da série. Coisa de gente grande, fazer TV dessa forma, ainda mais em 1999. Quando moleque, achava massa o Tony ali, daquele jeito todo grosseiro e engraçado. Nos meus vinte e poucos anos, tinha ojeriza total à ele. Um personagem que significava e agia como tudo que eu não queria ser. Agora nos meus trinta e poucos, acho que entendo as coisas diferente de novo. A incompletude de Tony é a coisa mais aparente. E esse sentimento permeia meio que todos os outros personagens também. O tema central dessa primeira temporada parece ser justamente isso, o que nos falta.
I been complaining just a little too often I should be thankful for these limited options I got a full belly and something to cough on Somebody tell me what the fuck is my problem?
Como gosto do Slug véio. Desde 2018 ele parece ter removido alguns filtros de si mesmo (tarefa invejável para um cara que já tinha poucos filtros desde sempre) e despejando canções após canções com um candor que primeiro te abraça, para logo depois fazer espaço para que tu também tente acessar esse mesmo tipo de sentimento. Coisa de mestre :: https://atmosphere.bandcamp.com/album/word
Meio que do nada, resolvi começar a (re)ler Promethea, que tenho na minha coleção há uns anos. A primeira vez que li algumas edições de Promethea foi na finada revista Marvel Max, que era publicada pela Panini no Brasil. Naquela época, me interessava mais Alias, Supreme Power e um monte de coisa “adulta” que a revista trazia. Lia Promethea mais por protocolo.
Mas agora… broder que porra é essa. Esculacho atrás do outro. Páginas duplas infinitas, roteiro totalmente sem freio do Moore, como se ele tivesse guardando tudo aquilo justamente para uma série como essa. J.H. Williams III desenhando como se não houvesse amanhã. Um 1999 que nunca existiu, mas que ao mesmo tempo continua futurista e retrô.
Tenho indo dormir tarde só por causa do gás que ler Promethea me deu. A página acima é da #5, e é só uma das diversas páginas duplas onde Moore e Williams resolvem viajar pesado – ou: como utilizar HQs para escrever sobre os diversos planos existenciais assim, de leve. As edições são deliciosamente ambiciosas, mas nunca inacessíveis. Há um equilíbrio (editorial talvez, autoimposto talvez) que mantém o cabecismo verborrágico de Moore sob controle. É como se ele tivesse operando umas marchas a menos do que poderia, mas por escolha.
A terceira e última temporada de The Newsroom tem só seis episódios. Eu não lembrava de nenhum. Os primeiros cinco são bem fracos, quase protocolares. Isso tem que acontecer, para que aquilo possa acontecer. Sorkin em piloto automático total. Aí no último episódio, o series finale, ele empurra todas as fichas pro centro da mesa: em uma hora, mostra todas a suas cartas para o que seriam provavelmente umas seis temporadas ao menos. O episódio voa, finalmente trazendo o fan service que faltava nos episódios anteriores e mostrando Sorkin emocional e melancólico, todavia de forma benevolente. Quando toca That’s How I Got To Memphis (que eu tenho usado como pequeno hino pessoal desde que ouvi a versão de Charley Crockett), o coração do cara já não aguenta mais. Um bonito, apesar de incompleto, adeus à uma série que poderia ter sido tão diferente. Sorkin meio que abandonou a TV depois de The Newsroom e hoje em dia é um diretor de cinema. Algumas coisas tem que acontecer, para que outras coisas possam acontecer.
Dia desses no Instagram, o Rafael Grampá tava postando sobre como é muito mais fácil ficar criando obras em cima de algo que já foi um sucesso. Que a repetição de temas narrativos e visuais, forçada ou em forma de “homenagem”, é um dos grandes motores da indústria criativa hoje em dia. Talvez sempre foi. Os ciclos podem ser curtos ou longos (ver: westerns pós-guerra, filmes de super herói da última década), mas sempre acabam sendo muito parecidos. Pegam o que deu certo e montam em cima. Alguns criadores deram reply ao Grampá, incluindo frases como “sempre quis criar algo novo, mas acabei refazendo sucessos do início da minha carreira pois vende mais”. Squid Game não apresenta nada muito novo para quem comeu Battle Royale e Suicide Club quando moleque – e muito menos pra quem consumiu Hunger Games, quando a série de livros e filmes era a Maior Coisa Da Terra. O ponto mais interessante pra mim, é o uso de dívidas financeiras como denominador comum de gente ruim, incapaz, parasitas de uma sociedade onde todo mundo é endividado, mas os piores são os que não querem pagar suas dívidas. Nada pior do que um endividado que resolve fazer mais dívidas. Pelo meu conhecimento (superficial) das dinâmicas sociais da Coreia do Sul, faz sentido esse terror em ser visto como um dos falidos (apesar de uma cena bem interessante mostrar que todo mundo tá falido de uma forma ou de outra, mesmo quem tem as aparências que apontam em outra direção). De resto, o jogo de vidas humanas de sempre. Doideira ser lugar-comum obras criativas com jogos que envolvem vidas humanas. Esteticamente, um puta exercício de disciplina e montagem dos Coreanos. Todavia, um fraco argumento contra os 1% ou a favor dos 99%. Lembro daquele clichê-frase sobre xadrez, que no final do jogo o rei e os peões vão todos pra mesma caixa.
“The days move along with regularity, over and over, one day indistinguishable from the next”. A vida de mais um cara extremamente solitário e penitente, sob os olhos de Schrader, um mestre. Trilha sonora de metade do BRMC, cinematografia minimalista e crocante. Os dias infinitos de um broder que vive de uma forma deliberada, utilizando de forma discreta um talento que desenvolveu após ter ido longe demais com seus talentos anteriores. Oscar Isaac é um avatar perfeito para esse tipo de personagem que Schrader escreve e filma tão bem. Sua narração é quase monótona, apresentando fatos e observações em um tom reto de sem muita modulações. Talvez seja só eu, mas no momento em que me encontro, o misto de vida monasterial, meditação, disciplina, autoanálise e restrições sociais que Schrader trabalha em seus personagens é como uma sessão de terapia em forma de filme. Por um espaço de tempo, nossas solidões se encontram.
Uma bagunça. Diversas linhas narrativas iniciadas na primeira temporada simplesmente somem, alguns personagens também (pra mim, perder as cenas do Will no psiquiatra jovem foi vacilo). Até mesmo os créditos são diferentes. Lembro que Sorkin teve muitos problemas com a recepção mais ou menos da primeira temporada, e dá pra sentir que ele parou de pensar em arcos de várias temporadas. Começou a pensar somente no que tinha ali na frente dele. A parte mais interessante pra mim, a dinâmica absurda e feroz que se precisa para produzir uma hora de TV ao vivo por dia, é jogada pra segundo plano por grande parte da temporada. Talvez, na intenção de ter menos Sorkismos possíveis, o que restou foi o que virou a segunda temporada. Ainda gosto, apesar de ser bem menos romântica que a primeira.
Sempre tem uma treta acontecendo em algum lugar. Dessa vez é em algum lugar da Dinamarca. Um dia bem ruim na vida de de dois policiais em um subúrbio em chamas. A história é sempre a mesma, mas há um bom pulso forte nesse filme. No final das contas, os papéis sempre meio que são os mesmos, não importa muito a posição geográfica.
Fear is the little death. Um filme gigantesco. Que sem perdão, deposita toda a sua escala no espectador. Pesado, melancólico, estupidamente bonito. Pensei um pouco em The Green Knight, quando o filme terminou. Pensei também que tarefa absurda tentar contar uma história visualmente expansiva, com cenas que parecem que de cinco em cinco minuto querem te soterrar. A trilha sonora é um metal pesado, pressionando as imagens como uma bateria colossal. Acho que já vivi algo parecido, mas não tenho certeza se foi com um filme.