Jon Hopkins – Music for Psychedelic Therapy, 2021.

Faz algumas semanas, que sempre que tenho uma manhã particularmente difícil, ou coloco os discos do Andrei Machado ou esse do Jon Hopkins para tocar nos fones no caminho pro trampo. Terapia sonora. “Hopkins wanted to make something that faced the opposite direction, something egoless and introspective, made with total, raw honesty. It felt like time for a reset, to wait for music to appear from a different place, says Hopkins. That place ended up being Tayos Caves in Ecuador, where Hopkins went on a life-changing creative expedition in 2018.” :: https://jonhopkins.bandcamp.com/album/music-for-psychedelic-therapy

The Beatles: Get Back, S01E03.

Everybody had a hard year. Ringo apenas diz I would like to go on the roof. George muda de ideia, John concorda. Paul sorri. Um final se aproxima. Até.

The Beatles: Get Back, S01E02.

No primeiro episódio há um desconforto bruto, que culmina na dissolução da banda. Mesmo que ainda consigam se divertir tocando, claramente há várias coisas erradas entre e ao redor dos quatro. Música não parecer ser mais o suficiente. A tristeza é evidente. Paul parece contemplar por alguns minutos que sua banda acabou, visivelmente atordoado. Aí o projeto se muda para o Apple Studios. Os quatro imediatamente se sentem melhor, tendo conversado sobre sua situação com George. Aparentemente eles se acertam (não há cenas que indicam isso). Aí tu vês que esses eternos cute boys gostam mesmo é de um estúdio. É obviamente a casa deles. No segundo dia, o equipamento de gravação ainda não está montado. Eles começam a perguntar, está pronto, está pronto. Querem gravar. Tocar é massa. O lance é gravar. Ficam progressivamente inquietos. Finalmente as fitas de rolo começam a rodar. Os quatro começam a fazer o que querem fazer todo esse tempo. Tocar e gravar. A primeira vez que vão para a cabine do estúdio pra se ouvir é reveladora: eles são apaixonados, apesar de todas as tretas, pela própria banda. A evolução das canções-rascunho é imediata e forte. Billy Preston chega e começa a tocar com maestria um piano elétrico. A banda sorri pra caralho. Os takes que acabariam no disco começam a brotar. Uma doideira. Em algum momento, acho que é John que diz algo como “vamos fazer isso direito porque é a última vez que vamos fazer”. Aí tu te tocas que eles estão conscientes da sua própria finitude. Aproveita, porque está acabando. Ri todas as vezes que John disse “and your host for this evening, The Rolling Stones”. Piada besta, mas do meu tipo. John ciente de que está perto do seu “peak” do dia, cantando com dor e beleza. Mais takes finais. Fica marcado o olhar gelado de Ringo, assim como as tentativas frustradas de conexão com John que Paul busca. O desconforto geral com as câmeras ali. George pede uma gravata borboleta, talvez para se lembrar que por mais que pareça apenas um dia no estúdio, aquilo tudo ainda é uma performance. A banda é um dead man walking.

The Beatles: Get Back, S01E01.

Uma dessas coisas que eu não queria que terminasse. Meses atrás me diverti bastante vendo o Paul e o Rick Rubin apenas escutando fitas de rolo das composições do Paul em McCartney 3,2,1. Tive a mesma sensação em Get Back: quero apenas ficar aqui quieto vendo essas pessoas falarem/fazerem o que sabem melhor pelo máximo de tempo que eu puder. Nessa primeira parte, há um contexto pesado, uma tensão. Um deslocamento proposital. Aí eles começam a tocar juntos. Debulhando uma quantidade impressionante de covers e canções não-finalizadas. Tentando achar um terreno em comum. John é fascinante. Tem um momento que ele bota Across The Universe pra tocar (claramente uma baita canção imortal) e nem fala nada. Sabe que o lance é bom. Ou talvez não liga tanto para o que os outros vão achar. Ele é o primeiro a responder à alguma ideia nova ou proposição com um “that could be”. Um broder cativante e hipnotizante. Já Paul é o project leader que sofre por ter essa posição (que considera injusta). Seu momento é quando, por pura fúria, brota o que viria a ser a própria Get Back do nada. Murmurando sons ininteligíveis e um proto-riff de baixo. Arrepiante. Um momento raro de um cara muito talentoso tentando fortemente. Transpiração contra tudo. A paciência infinita de Ringo é muito admirável, também. Completamente estaria do lado dele se ele tivesse tomado a posição que George toma. George, aliás, visivelmente cansado e vazio. Mas tentando usar isso a seu favor. Um otimista, em seu estado puro. Em certo momento, John está de pé, na frente do Paul, tocando com aquele olhar desafiador. Finalmente uma felicidade tangível. Um espaço de tempo em que tudo funciona. E a maior banda de todos os tempos toca o cosmos.

The Sopranos, S05.

Uma ressaca infinita. A temporada anterior desmonta tudo, deixando para esta quinta os pedaços. Os episódios são cheios de momentos tristes, principalmente porque a esta altura tu já sabes como algumas coisas irão se resolver, afinal são cinco temporadas de convivência com esses personagens. É também a temporada Steve Buscemi (completamente em seu elemento, roubando todas as cenas). Tem o episódio dirigido pelo Bogdanovich, assim como o episódio com a minha “cena de sonho” favorita da série. Vários pontos altos. Mas o que fica é essa sensação de uma ressaca que não passa, de um tempo ruim que insiste em continuar. Dinheiro não resolveu os problemas, diálogo também não. Restou conflito. O problema é que depois de um conflito, tem sempre essa ressaca.

In the Earth, 2021.

Meu filme favorito do Ben Wheatley é Kill List. In the Earth é um excelente par pra ele, apesar de ser um filme diferente. Tecnicamente, os elementos parecem um pouco deslocados, talvez intencionalmente. Há contradições e conflitos óbvios. Mas no fim, acaba sendo um filme de terror singular. Produzido em um tempo singular. Talvez o único filme de terror da era covid que eu tenha assistido. Alguns atores (Reece Shearsmith, principalmente) apoderam-se do material e entregam ótimos momentos. E como não gostar de um filme que usar ambient drone composto por Clint Mansell para se comunicar com uma entidade do mato. Entre arte, ciência e folclore, não parece existir um caminho óbvio para se perguntar e responder algumas questões que o filme levanta. E tudo bem.

Depot Boijmans Van Beuningen, Rotterdam.

Meus dias de folga são escassos, caindo sempre no meio da semana. Algumas vantagens: os mercados estão mais vazios, cinemas virão sessão privada, bares meio abandonados. Não que eu tenha saído muito. Ainda mantenho a reclusão como primeira ordem. São tempos esquisitos. Todavia, entrando no ano três de uma pandemia global, comecei a aventurar mais e mais além dos meus limites autoimpostos. O Depot (apelido do depósito-museu que na pronúncia local vira “depóte”, numa brincadeira com parecer um pote e ser de fato um depósito) é um prédio esquisito, que parece uma enorme saladeira inox. Chama atenção, de longe e de perto. Por um tempo, morei perto dele e nunca me acostumei ao sair para correr e me ver refletido em sua superfície. Mas a cidade inteira é cheia de prédios e construções esquisitas. O que me interessava era o que estaria dentro dele: os arquivos do museu principal da cidade, o Boijmans Van Beuningen, uma expansiva coleção de uns oito bilhões de euros. Um depósito que te deixa dar uma olhada.

Infelizmente não dá pra se ter noção dessa coleção toda ao entrar no vertiginoso hall do Depot. A área central do prédio é recheada de displays de vidro, que separam as obras por material. Pode-se ver obras por diversos ângulos, flutuando em vidro. E após alguns minutos, é isso mesmo. Não que sejam obras ruins ou desinteressantes. Mas a sensação de que ao invés de ser uma experiência imersiva em um arquivo absurdo, tu só consegues ter uns relances aqui e ali do que seria a coleção em si. Fora as peças expostas na área central do prédio, não tem muito mais se ver. Tudo fica trancado em salas enormes, com uns janelões de vidro que te permitem olhar meio de lado o que tem lá dentro.

Caminhei por todos os corredores do prédio, em busca de mais. Num canto, um enorme Buda de pedra trancado em uma sala privada (os donos reais das obras do museu), mesas com dezenas de formas em pelúcia de Yayoi Kusama em cima de mesas e caixas de madeira. Uma enorme pintura barroca em outra sala, sendo restaurada por alguém. Momentos interessantes, que me deixaram querendo mais. Mas não tinha nada mais, não naquele dia. Nos últimos andares, o prédio começa a ficar cada vez mais vazio, apesar da sensação de que logo ali tem uma infinidade de coisas a serem observadas. Acho que na real eu só tenho essa fascinação por making-offs e pensei que estaria para entrar nos bastidores de um museu gigantesco. Essa visita foi uma lição em gerenciamento de expectativas. Nada de halls e halls de obras que consumiriam o meu dia inteiro. Mas sim uma coleção de janelas que te dão umas frestas. Aproveita, é melhor do que fresta nenhuma. Um sentimento familiar de gratidão (não-irônica), que me acompanha há anos morando nessa parte velha do mundo, apresenta-se. Agradece e aproveita o que te foi dado, meu velho.


Heat, 1995 / Kino.

O Kino é um cinema de rua em Rotterdam que no momento está com uma mostra interna chamada Art Of The Heist, com quinze filmes clássicos de assalto (roubo?) ocupando a sua programação. Heat foi exibido em 35mm, num print de qualidade absurda de vídeo e áudio, para uma sala de cinema lotada em uma noite de segunda-feira de garoa. Tem vezes que essa cidade é nerd pra cacete. Meu tipo de cidade. Um filme como Heat derrete a tela, a crocância dos contrastes, o som manipulado com maestria, o preto da tela derramando sobre a escuridão da sala. Os diálogos ecoando com clareza e sutileza pelos falantes. Aí começa o tiroteio. Nada mais importa. É ser moleque assistindo Tela Quente escondido dos pais novamente, mas dessa vez sem tentar abafar o som da TV. Quero mais, quero mais alto. E Heat entrega. As horas passam voando. Seja Pacino ou DeNiro, tem um pouco de tudo nesse filme. Impossível não lembrar que primeiro assisti Heat em algum VHS, depois DVD, Bluray e etc – mas nada chegou perto da urgência que os 35mm dão ao filme. Que caminho longo para chegar aqui. Que vida excelente. Mannzão ali na tela comandando tudo.