2021: EVERYBODY HAD A HARD YEAR
The Matrix Resurrections, 2021.

Envelhecer é uma doidera. Ou: é como assistir um filme comentando a si mesmo. Em tempos de consumo de mídia mediado por um, dois, três comentadores (dia desses assisti um show online que só dava pra ver com um streamer comentando ao mesmo tempo), franquias infinitas que se auto-referenciam insistentemente, análises (longas, curtas) e constantes (podcasts que só comentam um filme ou série), esse Matrix me fez eu me sentir velho (tudo bem). Ainda é um esculacho visual e uma ode à Carrie-Anne Moss (entendo). Talvez seja mais pra poder ver o Neo e Trinity novamente (entendo). Me diverti e acho que por mais um tempo vou continuar nessa.
Station Eleven, S01E01-03.

Não sei o que estava procurando ou pensando quando decidi assistir uma série que inicialmente é sobre uma gripe que devasta o mundo. Talvez curiosidade em ver a minha atual realidade retratada em algum lugar (enquanto digito isso, estamos no segundo dia do terceiro Lockdown geral desta pandemia). Curiosidade essa quase mórbida, naquelas de será que os dias (meses, anos) estranhos que venho vivendo seriam massa em uma série? Ou: eu estou passando pelo mais entediante fim do mundo que existe, tomei todas as decisões erradas e não fiz nada digno de ser lembrado, mas como será que esses personagens vão lidar com o fim do mundo deles? Sei que queria ver a Mackenzie Davis. Paixão platônica desde Halt And Catch Fire, um dos meus prazeres prediletos é ver cenas em que Davis faz aquela expressão de confusão e tristeza. O que eu não tava preparado era pra me emocionar de verdade com ela fazendo Hamlet em Station Eleven. Na real eu não tava muito preparado pra Hamlet no geral (o cara envelhece e se enrola bem no Shakespeare, vai vendo). E assim Station Eleven me pegou. Começa pela curiosidade babaca, fisga por Davis encontrando um papel que encaixa bem em suas capacidades – e aniquila com os outros personagens, que desdobram-se na tela através de flashbacks e flashfowards que não cansam ou confundem. Tu podes até saber que o mundo tá acabando, mas tu não tens muita certeza de como ou quando vai rolar, feito os personagens. Há também algo que me agrada demais, que é a vida pós-apocalíptica de pessoas que vão tentar continuar atuando, escrevendo, cantando, tocando e tentando viver de Arte. Mesmo que sempre carreguem uma baita faca consigo a todo momento. Não sei como a temporada vai se desenrolar, mas não importa muito à essa altura. O elenco tá em chamas, vou continuar acompanhando de qualquer forma.
Louis C.K.: Sorry, 2021.

*coçando a testa com a unha do polegar direito* Então… bom. Dá pra pegar esse especial do Louis e colocar como lado B do último especial do Dave Chapelle, The Closer. Ou melhor, esse seria o Lado A e o Chapelle fica com o Lado B. Os dois comediantes possuem formas distintas de falar sobre os mesmos temas. Chapelle opta por uma abordagem de força bruta, difícil de penetrar e que não deixa muito espaço para sequer rir, é uma palestra, basicamente. Louis mostra uma cadência mais clássica (acho que nesse especial foi a primeira vez que consegui “enxergar” como ele monta a maior parte do material dele, pois ele tá um pouco cansado e deixa aparentar os começos, meios e fins), uma escolha mais leve de palavras e termos, mesmo que ainda seja bruto na hora do punchline. Mas os dois falam sobre as mesmas coisas mesmo. Envelhecer é uma merda. Tu vês o mundo aparentemente acelerar cada vez mais e te deixando com mais dúvidas do que respostas. Mesmo que o teu trabalho seja exatamente discutir essas dúvidas, não fica mais fácil com o tempo. A treta é infinita. Dado uma linha do tempo longa o suficiente, todo mundo vai se provar um baita filho da puta. Incluindo dos dois comediantes, que fazem parte do Top 5 da sua geração. Se não valem por mais nada, esses dois especiais servem como o registro de dois homens bem-sucedidos, envelhecendo em tempo real e encontrando os limites de sua arte e suas formas de viver. Não chega a ser triste, nem muito engraçado. Apenas é.
Kaatayra – Inpariquipê, 2021.

Como ouvi Kaatayra nos últimos tempos. Fiquei bem feliz em ouvir nesse disco mais recente que o Caio Lemos decidiu afundar no black metal acústico atmosférico do mato, pois o negócio é bom pra cacete. Um dos mais fascinantes artistas brasileiros em atividade. “Tudo é Ritmo.” :: https://kaatayra.bandcamp.com/album/inpariquip
Antlers, 2021.

Tem vezes que querer gostar de um filme não é o suficiente. A cinematografia de Antlers é tão sombria, que não dá pra ver quase nada na maioria das cenas de medo. O drama funciona, tratando de temas comuns e recorrentes em cidades fantasma dos Estados Unidos hoje em dia. Todavia, fora alguns momentos realmente interessantes (a primeira cena no Necrotério e a da crime scene na casa dos guri), tudo parece ser incompleto. Keri Russel faz o que pode, mas mesmo assim não resolve muita coisa (Felicity faz uma cota já né). Curto demais um filme sombrio, mas falta aquele tutano massa, o nerdismo malemolente, o gore fundamental.
Hacks, S01.

Tem um lance de ser fã de Humor (esse com agá maiúsculo, ou Comédia com cê maiúsculo) que, além de ser muito irritante para qualquer pessoa que não simpatize, acontece com uma raridade que chega a ser até frustrante: encontrar uma pessoa que tenha o mesmo senso de humor nerd que você. E não somente isso, alguém que consiga ver o potencial das tuas piadas ruins e sem ego algum, te ajudar a construir piadas melhores em cima delas. Trabalhar em cima de algo que precisa ser engraçado é terrivelmente dolorido. Requisita uma intimidade brutal, que mesmo nunca tendo trabalhado diretamente em Humor, tive o privilégio de experimentar pelo menos duas vezes em minha curta carreira de escritor. Hacks é, centralmente, sobre isso. Sobre pessoas que acima de tudo sentem-se mais à vontade quando ouvem ou dizem algo engraçado. Que constroem uma vida inteira em cima desse sentimento. Para o bem (e na maioria das vezes) para o mal. Uma série tão rara quanto o lance que descrevi. Tudo funciona: o roteiro é cativante, engraçado e repleto de cenas perfeitas. Jean Smart deita demais em todas as cenas, e a química com Hannah Einbinder é leve e verdadeira. Uma série difícil de se fazer acontecer.
Succession, S03E09.

Que baita temporada. Essa talvez seja a melhor novela que eu já assisti. Acho que se a série terminasse aqui, tudo ficaria bem. Game over, pegue uns Emmy e vamo pra casa. Nesse season finale, até mesmo a L word apareceu (haja autodisciplina pra não escrever uma cena como essa antes, broder Jesse Armstrong). Os pontos altos foram vários, seja nesse ep ou na temporada: Roman sendo o melhor bilionário do mundo, Greg sendo o garoto mais doce que já existiu e Tom do nada se transformando em um personagem mítico. Tom é dos nossos. Acho que se tirasse as camadas de dinheiro, corporativismo e doideras dos 1% no geral, acabaria sendo ainda uma boa série, mas confesso que o creme está em frases como “you could be heading away from the endless middle and towards the bottom of the top”. Coisas que só Succession faz por você.
The Nice House on the Lake, #01-06.

Um Blockbuster com B maiúsculo, que quer ser um blockbuster e possui todos os elementos no lugar certo. Uma belezinha de leitura, com aquele visual de HQs indie da década 00, mas atualizado, certeiro, refinado. As cores de Jordie não parecem encontrar limites em cima da arte de Bueno. E o roteiro de Tynion é deliciosamente obtuso quando quer. Acho que a última vez que me senti assim lendo uma HQ foi com aquela época do Scott Snyder e o Greg Capullo fazendo o Batman. Tu sabes que tens em mãos algo grande, pretensioso e bonito. Como todo blockbuster deve ser.