The Sopranos, S04.

A temporada do descontentamento. Nos primeiros episódios, o tema parece ser dinheiro versus amor. Há uma urgência que permeia as cenas. Precisamos de mais dinheiro, precisamos saber onde está o dinheiro, quem tem mais dinheiro. Assim que resolvermos isso, tudo vai ficar bem. Algumas cenas ficam queimadas na memória, seja pela agressividade (Tony em modo berserker, atacando Carmela sem perdão, um dos grandes momentos da tal Golden Era da TV, dois atores em plena forma) ou pela sensibilidade (Tony conversando com Svetlana – que aliás nesse reassistida garante seu lugar como meu personagem favorito da série, mesmo com tão pouco tempo em tela). É nessa temporada que muitas coisas indicadas lá na primeira finalmente acontecem. O que levou três temporadas para se montar, desenrola-se sem muitas cerimônias. Uma bela temporada, quase sem episódios ruins. Pela primeira vez, consequências brutais alcançam os personagens.

Dexter, S09E01.

Isso foi uma viagem. Creio que parei de assistir Dexter ali na quarta ou quinta temporada. Digamos que foi na quinta, que é de 2010. Não assisti o final, não sei o que aconteceu. Larguei a série. Quando vi esse novo episódio, que teoricamente inicia uma nova “fase” na série, mas que tecnicamente continua em sua nona temporada, fiquei curioso. O que acontece quando tu pulas umas três temporadas de uma série, ignorando os finais, as resoluções. Acontece uma viagem. Há dez anos eu morava em um lugar tropical, assim como Dexter, trabalhava em outra profissão também. No guarda-roupa, quase nenhum casaco. O episódio abre com Dexter lidando com tarefas mundanas de quem mora em lugares gelados. Entendo. Onde viemos parar, velho. Não entendo algumas coisas (quem morreu, quem sumiu, quem é aquele personagem ali) mas acho que a confusão apenas alimenta mais esse sentimento doido de estar caminhando em um lugar novo, mas que te parece familiar. Que diferença que dez anos faz.

The Sopranos, S03.

Essa temporada é uma das minhas favoritas, não só porque marca o fim da Era Livia Soprano (boun ‘anima, pois finalmente não tenho ataques de ansiedade assistindo cenas dela) como solidifica definitivamente a série como Uma Das Maiores. Episódios clássicos (incluindo o dirigido por Steve Buscemi), Tony finalmente entendendo (e fingindo não entender) a origem dos seus problemas. Personagens que antes não possuíam muita dimensão, expostos com delicadeza e profundidade. Acho que quase todos os personagens passam por um momento de claridade/verdade nessa temporada. Um momento que se desdobra e mostra tá aqui ó, esses são seus problemas, essas são as causas, essa é uma das formas de lidar com isso. Te vira.

That Texas Blood, #01-10.

Logo na primeira edição de That Texas Blood tu sabes que algo interessante está para acontecer nessa HQ. A arte minimalista, os diálogos de cadência impossível, as dores de um canto do Texas esquecido pelo resto do país. Acho que em alguma das colunas no final das edições, o roteirista Chris Condon comenta que inicialmente That Texas Blood era para ser um roteiro de filme. Talvez tivesse funcionado. Mas prefiro assim em HQ, pois o espaço de tempo que se precisa para ler, observar e pensar é mais subjetivo. Edição após edição, algumas coisas fazem mais sentido que outras, alguns personagens completam-se sem muito esforço. Alguns quadros ficam presos na mente.

Heels, S01.

Assim que comecei a assistir Heels, me lembrei da (agora) lendária frase de Lester Bangs em Almost Famous: “Tell him it’s a think piece about a mid level band struggling with their own limitations in the harsh face of stardom”. No caso dessa série, o stardom na real nem está próximo, mas a frase ainda encaixa. Wrestling nunca foi muito a minha, joguei aqueles jogos de SNES e assisti um pouco na finada Manchete, mas nada que me fizesse ter um grande interesse. A parte técnica me é mais fascinante: narrativas que duram anos e anos, produções multimídia a todo vapor, violência profissional extremamente técnica. Puro suco de USA. Heels conta a história de uma promoção local de wrestling, sob os olhos da geração atual de atletas (performers?), divididos entre apenas ter um lugar pra fazer o que curtem e realmente atingirem algum alcance e fama com o seu trampo. Personagens que lidam com suas limitações de formas diferentes, criando um drama que consegue cativar sem forçar a mão. Penso em Sons Of Anarchy, mas menos cabeça-dura. Alguns diálogos tentam emular o sentimento que séries como Friday Night Lights talhavam com excelência. O resultado fica entre essas duas séries que citei, pendendo um pouco mais para a eterna Friday Night Lights. Nada mau. Boa série.

Reckless: Destroy All Monsters, 2021.

No final desse livro de Reckless, Brubaker escreve no Afterword sobre assistir Diner quando adolescente e sentir inveja dos personagens do filme, que se conhecem a vida toda, e como ele sabia que não teria o mesmo. Aí um cara como eu fica triste e quer abraçar o Brubaker, porque senti a mesma coisa. Não com Diner, mas com os livros de Reckless que ele, Sean e Jake vem soltando (resenhas aqui e aqui) de forma meio intensa no último ano. Dos três livros até agora, esse é o mais emocional. Explora a amizade e companheirismo dos dois personagens centrais, enquanto entrega uma clássica história de detetive do Brubaker. Uma lindeza de livro. Uma vida excelente.

Crossover, #01-08.

No universo de Promethea, que é capaz de ser o mesmo universo que o meu e o teu, histórias, mitos e lendas possuem sua própria dimensão, que pode ou não interseccionar com o nossa. O Imaterial, como é chamada, é um reino vasto, que vai além do que podemos vivenciar em carne e osso. E que vai além do que os mitos e lendas podem experimentar por si só. Talvez usando essa conexão, Danny Cates escreve Crossover como um enorme what if uma dessas dimensões, no caso a Imaterial, começasse a invadir a nossa dimensão. Para quem está lendo, é diversão pura. As edições passam voando, o universo da HQ é de uma nerdice contemporânea recheada até o talo de bons momentos, equilibrando meta com a boa e velha narrativa de herói. É meio que um trampo de um nerd para outros nerd, com tudo de bom e ruim que isso significa. No caso específico de Crossover, em uma era de super-exploração de IPs em todos os setores da indústria, há um romantismo inescapável, irresistível. Uma das melhores HQs do ano, certamente.

Regression, #01-15.

Continuando minhas andanças pela obras de Cullen Bunn, li Regression, uma treta reincarnatória que expande o universo de Bunn além do horror, com resultados esteticamente interessantes (mesmo que em alguns momentos meu cérebro não soubesse interpretar o movimento que Danny Luckert sugere em suas páginas – um baita artista em momentos não-dinâmicos, mas confuso em outros) e narrativa interessante até o seu “terceiro ato”. Não sei, talvez eu esteja mimado demais com os bons anos de Gideon Falls e minhas leituras recentes de Promethea, mas se tu vais montar um lance transcedental, monta um lance bem transcendental, broder. Boa leitura, mas somente para completistas da obra de Bunn.

The Sopranos, S02.

A primeira temporada te conquista, guiando-te com esmero pelas entranhas do universo desses personagens. A segunda temporada te trata mais de igual para igual. Tu já sabes o que vem por aí. Os diálogos ficam mais carregados, as tensões entrecortam-se em diversos momentos. É quando tu percebes que essa é uma das maiores séries de TV de todos os tempos, senão a maior. Quando Tony começa a se perguntar, angustiado, qual é o problema que ele tem, que não consegue resolver, tratar ou controlar, a série começa a ficar cada vez mais vertiginosa. Alguns problemas não possuem resolução.