Esse show é o mais próximo que bróders do roquenrol vão chegar daquele momento do primeiro Dune em que os Sardaukar tão curtindo um throat singing antes de embarcar pra uma guerrinha. A banda é uma locomotiva sincera, afiada e muito divertida. Solo da gaita logo na primeira música, uns três vocalistas diferentes, centenas de solinho speed metal de guitarra. Muita cantoria sobre seres espaciais, doideras dimensionais e segredos biológicos ancestrais. Alguém da banda comentou que é surpreendente pra eles tocarem um show sold out dessa turnê que eles tão fazendo há uns anos já. Na verdade nem é: banda boa tem mesmo que ser prestigiada. Pra minha sorte, peguei esse show de um dos discos de metal deles e o show teve um setlist mais pesado, mais familiar pra mim. Mas mesmo nos momentos em que eu não reconhecia nada, ainda me diverti. De vez em quando o cara só precisa disso, um monte de barulho massa.
Enquanto Tommy mexia em um pequeno projetor, conectado a um celular velho, que jogava sobre o amplificador e um pouco sobre suas pernas imagens semelhantes ao que tu vês quando olhas pela janela de uma viagem de carro longa, pensei, que fita: deve fazer uns quinze anos que vi ele tocar em uma casa na Vila Madalena. E faz mais de vinte anos que ouço a música dele. Nesse show, o seu irmão, Tony Guerrero, abriu pra ele e contava entre uma música e outra que eles tocam juntos desde criança, que aquela era a primeira vez que ele tava viajando com o irmão e abrindo os shows dele. Logo depois, Tommy também comentou no final do seu show que algumas daquelas músicas tinham mais de 30 anos e outras ele ainda tava compondo e experimentando. Envelhecemos, bróder. Ou: tempo versus prática, paciência e trampo. Parece ter sido essa a temática da noite. A timeline dos Guerrero é bem diferente da minha. Mas que bom foi termos nos encontrados pela segunda vez.
Por mais de duas horas, Nils arrancou sons e melodias que iam de minimal à puro noise de uma coleção de 12 (ou 13?) teclados, sintetizadores modulares e uma glass harmonica (e um rhodes, e juno 60s etc). Uma experiência que me atravessou de vários jeitos. Ver alguém conjurar música assim foi um privilégio. Andar pelo Concertgebouw, um lugar lindo, construído por pessoas que há muito se foram e agora acessível a gente como eu, também foi impactante. Nils comentou que foi como tocar em uma igreja. Talvez, mas nunca me senti assim em uma. O som batia forte, mesmo em seus momentos mais delicados. Nils demonstrou uma disciplina afiada, mesmo quando não parecia que ia acontecer, fazia a montanha emaranhada de instrumentos conversarem entre si. Percebi que ouço a música dele há muito tempo, minha coleção de discos que lançou é bem grande até. Caminhamos juntos por muito tempo, e naquela noite de quinta em que tudo deu certo pra mim, nos cruzamos pela primeira vez.
Podia jurar que já tinha ouvido Witching. Achei que lembrava, mas quando a banda começou a tocar, não registrou. Talvez ouvi outra banda de nome semelhante, tudo bem. Isso me aconteceu várias vezes durante essa visita à Berlin. Por algum motivo olhava para algo (um prédio, rua, loja, trem) e lembrava daquilo, mesmo sem nem saber o que é. Ou talvez eu sabia, mas só esqueci. Todavia, é bom conhecer uma banda nova pelo que tão tocando no palco, e o Witching é uma belezinha. Aquele metal clássico, que sabe ser sludge e deixa os vocais soltos (baitas vocais). Tudo que o cara precisa de vez em quando.
O Fange já é outro bicho. Outra história. Um ataque frontal. Um exercício em forma de barulho. Teve uma época que acho que no bandcamp deles tinha a frase “This is ignorant music for the Educated Man”, mas o tempo passou e acho que a gente tá mais ignorante do que esperava, ou talvez seja só a minha percepção. Aquele Fange do sludge dos infernos quase não apareceu nessa noite, o que veio foi um estridente, combativo, desgraçento e puro som industrial. Dois estrobos virados de frente pra plateia, aquela luz branca e prateada assaltando todo mundo. Fazia tempo que não passava por isso, um hard reset de algumas partes do teu cérebro. Com a banda te forçando até dar certo. Existindo apenas no momento, como canta a letra de Sang-Vinaigre.
Me vi (sentado) ouvindo o Sessa numa noite de segunda. Só violão e vozes e nada mais. Me permiti uma certa nostalgia, lembrando alguns anos em SP em que ver shows assim pelos Sesc era algo que acontecia com até certa frequência (mesmo eu sendo cabeça dura e querendo MAIS GUITARRA MANO). Envelhecer é massa, todavia. Perceber na plateia um monte de brasileiros expatriados, cantando baixinho e balançando, é o mais perto de casa que posso me sentir aqui do outro lado do oceano. Sessa mandou Donato, Cartola e Eduardo Mateo (depois dessa, aliás, disse “tem tanta coisa ruim no mundo, mas tem também essa música”) em um interlúdio de covers que me agradou demais. E de repente o cara se vê cantando mentalmente Acontece como quem sabe finalmente o que o Angenor queria dizer.
A cumbia sempre esteve presente na minha vida, eu prestando atenção ou não. Recentemente, fiz um esforço maior em começar a notá-la mais. Os caras que trabalham comigo gostam daquelas cumbias colombianas antigas, que me remetem um pouco ao carimbó e siriá da terra onde nasci. O salto da cumbia com c para a kumbia com k do méxico é natural, e tive em primeira mão uma aula mestre disso com esse show da Kumbia Boruka. Uma pancada atrás da outra, com metaleira fingindo ser ska, cozinha pesada como heavy metal e algumas homenagens ao próprio estilo que muito me educaram (um cover de Celso Piña e um momento kumbia rebajada excelente demais). Diversão demais e aquele sentimento intacto de que tem tanto pra se ouvir e experimentar que eu nem arranhei a superfície ainda. Talvez um dia eu até dance.
Conheci o Sasquatch bem no começo das minhas incursões no que virou o Stoner Doom das tags cabulosas. Quando ainda era só chamado stoner e ainda dava pra chegar no Kyuss por graus de separação. Isso faz tempo, acho que talvez ali pelo fim da faculdade (o primeiro do Sasquatch é de 2004). Mas o que lembro é de estar fritando em uma brisa de cafeína em um escritório de vidro da Vila Olímpia, fazendo alguma coisa qualquer no keynote, ouvindo o segundo disco deles e pirando na minha dose diária de fuzz, ah tempos ruins e bons. O tempo passou brutalmente e aqui cheguei, num domingo típico do verão holandês (vento e chuva e úmido que nem Belém), indo assistir a um show que começou acho que 18:30. Como é bom ser velho. O trio (que eu nem sabia que era um trio, aliás quem me atendeu na banquinha de merch foi o baixista [não reconheci, claro]) se mostrou confortável, como quem já sabe o que quer depois de tanta estrada. Aquele som de les paul com fuzz no talo, de rickenbacker afinado lá em baixo, de bateria com caixa enorme. Como é bom curtir coisas simples e barulhentas. Os caras tocando visivelmente se divertem, eu me divirto e a gata ao meu lado se diverte – aliás ela que notou que quase ninguém tava com o celular pra cima, coisa rara em shows hoje em dia. Galera quer rajada e nada mais. Vida longa ao stoner fuzzed out doom nosso de cada dia.
Domingo de Páscoa calmo no centro de Amsterdam. Deu pra sentar na beira de um canal e comer um broodje. Ver uns barcos passarem, aproveitar o sol e o tempo seco. Marisa Anderson, que abriu pro GY!BE, tocando solitária no palco do Paradiso uma guitarra que pesava uma tonelada e soava como uma montanha, disse, entre uma música e outra, como é bom estar nessa cidade em um dia tão bonito como esse. Vinda de uma outra cidade onde chove incessantemente, Portland, Marisa sabe reconhecer a importâncias de dias bonitos. Se bem que quando o GY!BE começou a tocar nem importou mais como o tempo tava lá fora. A máquina colossal que é essa banda. Maneja a calmaria e a destruição de forma magistral, mostrando com força que são os mestres supremos do crescendo do post-rock. Que são um outro tipo de banda naqueles minutos onde todos entram na mesma ascensão inescapável das suas músicas. Uma banda que soa com um animal ferido em seus momentos mais estridentes. O metal pesado do GY!BE é de uma potência que tu ficas várias vezes tentando entender quem tá fazendo esse som, ao olhar pro palco. Pensando aqui que devo ter ouvido essa banda quando tinha uns 15 ou 16 anos pela primeira vez. Que as coisas continuaram em um crescendo e vinte anos se passaram. Notei que em um aspecto o GY!BE e eu envelhecemos da mesma forma até: flertamos com uma espécie de resignação benevolente, que dá a entender que há como encontrar formas de se continuar, até mesmo porque, bem, hajamos de.
Numa sexta de sol e vento, em um atípico dia perfeito de verão holandês, o North Sea Jazz teve o seu primeiro dia (de três). Cheguei no final da tarde, sob sol excelente (o cara aprende a gostar de sol novamente) e esperei Marcus King tomar o palco principal do festival (coberto). Banda de barbudos, tocando alto e com categoria de quem sabe demais. Um baita show, daqueles que te faz pensar que esse broder tem só 26 anos e comanda uma banda assim. Não chegou a emocionar, mas todo o poder estava na distorção e em momentos como a versão de uns quinze minutos de Hoochie Coochie Man que eles mandaram. E eu achando que tinha me aposentado de festivais e shows grandes, de repente me senti confortável com aquele mar de gente, indecisa entre a dezena de palcos do festival, perambulando constantemente.
Caminhando entre os corredores limpos, refrigerados e cheios de stands de comida do centro de convenções Ahoy, demorei pra achar o palco menor onde Theo Crocker estava para começar a comandar a vibe. Todo mundo sentadinho (um festival onde todos os palcos tinham assentos, todos) e eu acabei ficando no melhor lugar, atrás dos monitores do projetista. Condiz com a minha condição de Senhor não ir muito pra frente do palco em shows hoje em dia, ficar ali pelas arestas, perto do pessoal da graxa, que sabe onde o som bom está batendo. Ver shows mais pelo som do que pelo que estão fazendo ali no palco (envelhecer é massa). A banda de Theo é outra banda absurda, com um baterista que do nada engatava um drum’n’bass analógico de forma aveludada, dando potência ao som suave, límpido e viajante que Theo extrai do seu trompete. Trilha sonora para se caminhar em um planeta estranho (ou para se caminhar em um país estranho). O som do trompete do Theo certamente é top cinco experiências que vivi nos últimos tempos.
Comi um sanduíche indonésio de porco na panela, um hotdog chamado RATDOG (um hotdog normal mas daí enrolado em bacon e passado na chapa), fritas com maionese, tomei água e coca quente (ah, festivais), fiquei uma meia hora procurando o palco onde BADBADNOTGOOD e quando finalmente entrei, dei sorte de subir uma escada lateral e me vi em um mezanino confortável e com som potente batendo; quando a banda começou mermão, o lugar inteiro tremeu. De longe a banda mais barulhenta que vi no dia, o BADBADNOTGOOD sem perdão soltou seu punk jazz sobre todos os presentes (expulsando grande parte do público jovem vibe chill, claramente não preparado para aquele atordoamento todo) e entregou um show que recalibra a cabeça do cara na base do barulho e no solo perfurante de sax. Uma projeção em 16mm sobre a banda forçava o palco a ficar escuro, o que parecia agradar os canadenses. O baterista sentava a mão como se estivesse tocando hardcore (com um groove aqui e ali, só pra contrariar) e o baixista fez uns lances que me fez pensar se era de propósito ou o som do palco não tava sabendo processar o que ele queria fazer. Em algum momento, alguém da banda falou ao microfone (na escuridão não dava pra ver quem fazia o quê) que estavam muito felizes em estarem ali naquela noite, tocando em um dia cheio de artistas que eles admiram e que tudo que gostariam que a gente experimentasse fosse amor, compaixão e beleza atrás da música deles. Anos atrás eu mentalmente soltaria um “sae dae mano” e nem prestaria muito atenção. Mas envelhecer é massa, concordei, apreciei e me senti um sortudo também.
Isso aconteceu. Mais um show da longa Lista de Show Que Pensei Que Nunca Assistiria. Até porque o Mouse on The Keys tem um só disco e um par de EPs. Em 2009 eu ouvia o An Anxious Object e lia resenhas no finado The Silent Ballet sem nem cogitar assistir o trio ao vivo. E bem, aconteceu. Que tremendo show, uma saraivada incansável de pianera nervosa, de bateria frenética e empolgante, que fazia tu querer aprender a tocar bateria imediatamente. Foi um show de jazz que no sentimento era punk (tanto que o baterista cometeu stage dive algumas vezes e tudo). Os japoneses estavam completamente no controle do ambiente. Que show. Como é bom estar vivo.