Boiling Point, S01.

Vi que saiu essa temporada, uma continuação direta do filme que curti bastante, baixei e deixei maturar no hd. Sabia que era exatamente o que precisava, pois quase todo o cast volta e na produção vários nomes se repetem. Inevitável pensar nessa primeira temporada com um The Bear em Londres, mas não dá pra comparar, quando se começa a assistir, as duas séries são diferentes, apesar de compartilharem o mesmo tipo de universo. Boiling Point tem menos tempo para se desenvolver, cada episódio é uma cascata de tretas e tensão e talvez (somente talvez) alguma glória. Fora do mundo Michelin de The Bear, Boiling Point é mais sobre sobreviver do que ser excelente. Ninguém liga se um restaurante abre ou fecha as portas – ainda mais numa cidade como essa. A intensidade que a série consegue ter se dá em parte pelo ritmo inclemente (semelhante ao filme), pela atmosfera de cozinha em chamas (retratada com excelente humor) e pelas limitações particulares da sua produção (claustrofobia como ferramenta narrativa). Uma baita série.

Loki, S02.

Tava no trampo falando de Loki e decidimos que é a melhor coisa que a Marvel, nessa encarnação, já fez. Tanto por qualidade técnica, quanto ambição, engenharia e claro, emoção. Coisa de mestre utilizar um vilão nato dessa forma, abrindo em um segundo um universo inteiro a ser explorado. Créditos a Hiddleston (campeão invicto em “fingir time slipping”), Sophia Di Martino e tantos outros do elenco. Que heavy metal, bicho. Pra um cara como eu, que sempre esperou que os filmes/séries me tratassem como o nerd que sou, Loki foi um calaboca eficiente e apaixonante. Como é bom estar errado, ficava pensando enquanto assistia. Fazia tempo que não me importava com Deuses dessa forma. E: a linha do tempo é longa o suficiente, mermão, sempre é.

Bodies, S01.

Spoilers à frente. Teje avisado. Tirando todos os problemas de viagem no tempo (até agora poucas séries souberam fazer isso, talvez a melhor tenha sido Devs – e meio que a regra é: se não te dói a cabeça, tem um paradoxo evidente que desmonta toda a narrativa), Bodies pega a HQ e refaz quase tudo, até porque se me lembro bem a HQ é um daqueles trampos que querem ser mais sérios do que são (a Vertigo publicou muito desses ali naquela época, o começo dos 2010), com bons resultados: tem um momento ali perto do final que me lembrou The Leftovers, que o drama deixou-se ser mais do que apenas fatalismo e redenção. O futuro é estranho, o passado, por mais que tentem, é uma ilusão e o presente é doloroso sem medida. Dia desses conversamos na barbearia como estamos na mesma idade em que nossos pais nos tiveram, e é quase inconcebível entender o que eles estavam pensando. Talvez nem precise conceber. Como diz Black Alien, imaginação, memória ou presente, passado e futuro, existe não, se é que ‘cê me entende.

The Bear, S02.

A ressonância emocional de The Bear na minha imensa cabeça é tremenda, me sinto como um moleque ouvindo no repeat Ride The Lightning, tentando memorizar cada detalhe e encontrando pedaços de mim que nem sabia que existiam. Talvez seja isso: de vez em quando tu encontras alguma obra de arte que te mostra que tu também és assim, que o jeito que tu vês o mundo não é solitário, por mais forte que seja essa sensação. Essas coisas importam, ou prefiro escolher que importam: o que ressoa contigo. E comigo é uma série sobre aspirar, ser, e fazer. Ênfase no fazer, que é algo que sinto que experimento na minha vida só nos últimos anos. Matei os episódios dessa temporada em dois dias, chorando, rindo, gargalhando. Me emocionei com o elenco, com o roteiro que, junto com a escrita do Jesse Armstrong pra Succession, é de um impacto emocional fodido. Como é bom ser nerd de roteiro. Que época para se viver. The Bear finca o pé num mundo crowdeado de shows e séries, tal qual banda que lança um segundo disco ainda mais poderoso que o primeiro. A mim, só resta agradecer, cantar as músicas da trilha sonora junto e ver os personagens repetindo coisas que falei ou pensei e me espantar que o abismo entre a minha vida e a vida deles é na verdade apenas uma brecha (bróder, aquela conversa sobre service me arrepiou, parece que foi extraída de algo que já conversei na barbearia). Que a gente consiga passar um tempo vivendo dessa forma.

Luther: The Fallen Sun, 2023.

“The tragedy is that you are a better man than you ever allowed yourself to be”. O que aconteceu conosco, John Luther? Olhei aqui, a primeira temporada é de um longínquo 2010. O mercado de séries para TV era diferente (pra tu teres ideia, House Of Cards do Netflix começa em 2013). Eu era apenas mais um moleque baixando rips em 720p de shows britânicos em um tracker de bittorrent dedicado a esse tipo de conteúdo e assistindo em um monitor CRT. Já Luther, ainda vivia uma vida completa, naquela primeira temporada perfeita. Desde então, tudo mudou, pra ele, pra mim, pra todos nós. Semana passada estava no tram, passando pela Coolsingel em Rotterdam e não tive como não notar um enorme banner de uns cinco metros, tomando toda a lateral de um prédio. Apenas um retrato do torso de Idris Elba e as letras em vermelho na fonte de Luther. Wotcha. Olhando lá de cima pra mim, com aquela expressão de vida difícil, camarada. Tem sido uma aventura, né broder, quando comecei a te assistir, nem sabia o que era um inverno, um casamento, ou até mesmo uma carreira. Hoje em dia uso casacos pesados como os de Luther, caminhei pelas mesmas ruas e pontes que ele e Alice Morgan costumavam andar e vivo em uma cidade que também é castigada por um inverno infinito. Nas trincheiras do dia-a-dia, os anos se passaram e tudo que sobra é tudo que importa. Esse filme (que é produção do Netflix, ironia não necessária) é como uma visita a um amigo que envelhece junto contigo, mas de forma fatalmente diferente. Pra mim, Luther terminou ali naquela primeira temporada (todavia, aceitável incluir o bom livro-prequel que Neil Cross escreveu, The Calling, uma leitura muito dureza), mas tudo bem que de vez em quando a gente se encontra, pra ver que ainda usamos os mesmos tipos de roupas, temos o mesmo coração sofrido e que assim como o tempo me tratou como devia, tratou Luther também. Solitários, sorumbáticos e assombrados por nós mesmos, viramos um pro outro e perguntamos so, now what?

The Rig, S01.

Essa produção escocesa me apareceu meio que do nada, achei interessante porque não tenho muitas memórias de produções em plataformas de óleo e sempre me interessei pelo tema (lembrando aqui do gibi The Massive, que tem bons momentos em plataformas) e claro: escoceses. De vez em quando o cara tem que ouvir esse sotaque, que faz tudo parecer mais sério E engraçado do que se parece ao mesmo tempo. A série se desenrola como uma treta apocalíptica que, caso tomasse lugar em uma nave espacial, encaixaria perfeitamente sem tirar nem por. Curioso como sci-fi pode acontecer muito mais perto do que se imagina. Grande crédito ao ritmo dos episódios, que controla a narrativa de forma deliciosa, mantendo os personagens complexos e encantadores conforme a temporada vai avançando. Li em algum lugar que um dos problemas com produções hoje em dia é a necessidade imediata que personagens tem em se explicar a todo momento. Não é um dos problemas de The Rig. O ambiente isolado ajuda muito também, há um excelente trabalho de VFX acontecendo em várias cenas de forma sutil. Coisa linda de se ver. No final da temporada, fica a sensação de que em uma linha do tempo longa o suficiente, toda a experiência humana nesse planeta não dura quase nem um minuto. E tudo bem.

Love Death + Robots, S01.

Teve uma época, ali depois da faculdade e antes do Youtube, em que garimpar e assistir os curtas de conclusão de curso da Supinfocom era um hobby entre eu e amigos. Dezenas e trampos lindos, complexos, que não só mostravam o estado atual da animação, como experimentavam sem limites. Era um bom hábito. Demorei pra entrar em Love Death + Robots, as temporadas foram de acumulando, alguns clientes jurando que eu estava perdendo algo massa. Por algum motivo, esteve fora dos meus interesses por um tempão. Recentemente, parece que o tema dos meus dias é descobrir que tudo que eu queria estava bem na minha frente todo esse tempo. O clichê de que the only way out is through em plena ação. Fui assistindo aos episódios da primeira temporada e rindo pra mim mesmo: “quanto tempo faz que não me sinto assim? quer não vejo algo tão bonito? e essas ideias, que sempre me agradaram, estavam ali todo esse tempo?”. O nível técnico é embasbacante, alguns episódios são um esculacho, me atualizando nas capacidades da animação hoje em dia (as fichas técnicas dos eps são uma lista de peso pesados da área). A temática: mortal. Tal como ler um livro e sentir que algumas passagens foram extraídas do teu cérebro e postas em páginas só pra ti, como um reflexo ao invés de uma projeção. O horror e beleza cósmica de se experimentar um espaço de tempo nesse universo doidera.

The Rehearsal, S01E01-05.

“I often feel envious of others. The way they can immerse themselves in a world with so little effort. The way they can just believe.” narra Nathan em um dos episódios de The Rehearsal. Há uma conexão direta dessa série com o series finale de Nathan For You, que foi um lance de mais de uma hora em que Nathan basicamente apresentou o método criativo que ele agora chama de Rehearsal. O fator cringe diminui, a curiosidade por sentimentos e emoções começou a tomar lugar das preocupações de um show de comédia. É como se não fosse mais pela sketch, mas sim pela fascinação com o que poderia acontecer se algumas situações da vida pudessem ser planejadas, avaliadas, repetidas, alteradas e roteirizadas à gosto. Um Synecdoche, New York bruto em tempo real. As linhas entre realidade e ficção começam a interseccionar, aparentemente de forma orgânica – ou talvez essa incerteza seja o coração de the Rehearsal. Seja como for, Nathan Fielder encontrou algo único pra si. Em algum momento deixa de ser sobre o que é real ou não, parece não importar muito, pois criar algo assim é como viajar no tempo. Não tem trampo muito melhor do que esse.

Black Bird, S01E01-03.

Tem dias que viram um desastre completo e tu consegues notar cada mudança sutil, que em incrementos te levam à ruína. Black Bird começa com um dia desses para James Keene (Taron Egerton, que demora um pouco pra preencher o espaço do personagem, mas quando engata, vira uma daquelas atuações quase míticas), um dealer de Chicago esperto demais para o próprio bem, que acaba engolindo uns dez anos de prisão. Para comutar sua sentença, uns federais oferecem um acordo do capeta: se realocar para uma prisão infernal no Missouri, onde o serial killer Larry Hall (Paul Walter Hauser, bicho completamente solto, aí sim mítico demais, como se alguém tivesse dito calmamente pra ele “agora sim pai, vai lá e seja doentio como tu quiser, o gol é teu”) se encontra e está prestes a ser solto na real pois nunca acharam algum corpo para colocar na conta dele. Fica a cargo de James extrair a localização de algum dos crimes de Larry. Doidera. Se não tivesse sido verdade (a minissérie é baseada no livro autobiográfico de Keene). Parte o coração ver o Ray Liotta também, que faz o pai ex-policial de Keene (talvez sua última atuação? que triste constatar isso ao assistir essa série “é essa a última vez que verei algo novo do Ray Liotta?”). Aliás, a história toda te parte o coração. Cortesia da direção estoica do belga Michaël R. Roskam (do excelente The Drop – que aliás é um dos últimos trampos do James Gandolfini, que tendência macabra, Roskam), que consegue dar peso à cenas que nós já vimos dezenas de vezes, sem se tratando de dramas e thrillers em prisões. Que nós jamais tenhamos dias tão ruins quanto os de James Keene.

The Bear, S01.

Tive um chefe em Frankfurt que dizia que Barbeiros de sucesso e renome geralmente contraiam uma condição que ele apenas chamava de A Doença. Quanto mais sucesso comercial acontecia e sua capacidade técnica evoluía, pior a pessoa se tornava como companheiro de trabalho ou como chefe. A Doença os tornava antipáticos, combativos, obcecados, narcisistas. Ele sempre fazia um adendo: é bem comum A Doença atacar chefs e cozinheiros também (talvez eles tenham sido os originários da condição toda, pensando aqui). The Bear é sobre A Doença e como ela contamina a vida inteira de quem a contrai, mesmo que intencionalmente. Usando um restaurante familiar em Chicago como centro do universo (curti que demora alguns episódios para se entender como o restaurante é por “fora”, pois tudo acontece na cozinha e nas portas dos fundos), a série se desenrola após o antigo dono cometer suicídio e deixar como herança o restaurante para o seu irmão mais novo, um cozinheiro prodígio que trabalhava como Chef de Cuisine no melhor restaurante do mundo em NYC (uma espécie de French Laundry futurista). Voltar para casa é sempre uma treta, ainda mais em condições como essas. Em uma temporada cheia de episódios engraçados (destaque para Oliver Platt roubando várias cenas), tristes e tensos, a série torna-se sobre luto, nerds de comida, tradições, laços familiares (de sangue ou de vida), sobre como encontrar espaço em comum entre pessoas que parecem não ter nada a ver uma com as outras – e sobre como muitos dos que acabam por adoecer sabem muito bem que estão adoecendo. Mas a cura é parar de fazer justamente a atividade que os define naquele momento. Ao falar sobre a sua experiência em NYC, o protagonista diz que vomitava todos os dias antes de começar um turno, dormia mal, teve o estômago completamente zoado e trabalhava para um sadista inclemente que lhe deixou com PTSD. Mas: era o melhor restaurante do mundo e era ele que comandava a cozinha, encontrando todo dia um novo plateau de excelência. O preço para fazer algo assim como profissão é alto, muitas vezes impossível de se pagar por completo e a conta chega de uma forma ou de outra: ou a mente quebra, ou o corpo. Ou os dois. É uma questão de tempo, apenas. E muita gente, quase todo mundo, não vai entender muito bem o que tu estás fazendo contigo mesmo. O alarme vai tocar mais uma vez e tu vais ter que levantar e começar um turno que sabes que irá consumir alguns porcentos importantes da tua existência. Mas tu não consegues parar. Trabalhar desse jeito é viciante e consome muito mais do que aquelas horas de trabalho. Emocionante, The Bear é uma série que pega o romantismo Bourdainiano sobre cozinhas e esculpe cenas que parecem ser sobre coisas simples, mas que importam muito mais do que parece ser possível.