Da categoria: dureza de vida. Mais uma pedrada do Brad Ingeslby (Mare of Easttown). Sete episódios que brilham incandescente, fazendo Coen Brothers encontrarem The Wire enquanto Ruffalo comanda tudo como sempre faz quando faz TV. As semanas foram passando e todo mundo que trabalha comigo começou a assistir. É uma baita série pra se ficar falando sobre. Um clássico shit show de treta, tristeza e um pouco de redenção atravessada. Filmada com aquele mesmo esmero que encontramos em Mare, os episódios são cheios de cenas e takes muito bonitos, personagens terrivelmente humanos e situações quase impossíveis – se não acontecessem todos os dias em todo lugar.
O espaço criado na temporada anterior cumpriu a sua função. Os diálogos caminham até algum lugar, as conversas difícieis nem sempre terminam em gritaria. Há um progresso notável nos personagens. O que não há é tempo. Algumas decisões terão que ser tomadas, feliz ou triste. Se bem que o saldo aqui parece ser mais feliz. Ou contente. Ou positivo. Continua sendo uma série linda, que consegue arrancar novas belas cenas das locações que já conhecemos bem (e vários momentos bons recheiam os episódios, como logo no primeiro da temporada – e aquele episódio no final, bicho, que lindeza). Mas principalmente: o roteiro. Mesmo que o elenco esteja muito à vontade, é o roteiro que brilha em vários momentos. Deixa na tua cabeça frases que poderiam até me servir, se eu, assim como os personagens, pudesse sair da minha própria frente. Essa temporada me deu um sentimento de Tudo Bem. Tudo bem mudar de ideia, tudo bem não querer mais fazer algo, tudo bem não sentir amor. Tudo bem sentir apenas amor. Nesses anos assistindo The Bear, resistindo, aprendendo, observando e espelhando a minha própria experiência em show de televisão, saquei que é sempre um turno por vez, um dia, um episódio. Olhar pra frente, mas não muito. E no final, fica tudo bem.
Uma metralhadora de cinismo e ódio virada aos estúdios, produções, público, a coisa toda. Todavia, contudo, entretanto: tem um monte de piadas do caralho ali, junto com oners que fazem a tua cabeça rodopiar. Não tem como ser um nerd de filmes e não cair nessa. Tem um elenco em chamas, tem candura por uma ideia de Hollywood que talvez nunca existiu. Alguns diálogos que parecem apenas encher linguiça ficaram na minha cabeça dias, semanas depois. Depois de todos os shows que Rogen e Goldberg fizeram juntos, parece que esse foi o que escolheram para cobrar todos os favores que podiam. Os episódios são recheados até o talo de histórias reais, cameos e fatalmente, coisas erradas. Do jeito que deveria ser.
Os primeiros episódios me seguraram, mas a certo custo. Continuei, pela viagem. O truque me foi revelado, num arroubo que faria Shinji (ou Elliot) simpatizar. Muito bem feito, Grotesquerie. Me roubou a capacidade de dizer eu já sabia que isso ia acontecer. Porque fazer o que, mais da metade de uma temporada, e daí apertar o botão de foda-se e inverter tudo nos últimos episódios, só para apertar o botão de mais uma vez bem na reta final. Continue assim, queimando tudo e todos sem perdão (e fazendo episódios brutais como aquela bad trip no deserto, que maravilha de inferno). O estranhamento que vinha sentindo com a série começou a ser sentido pelo seu protagonista, e aí sabia que eu tinha sido engabelado – isso não é só mais uma temporada de American Horror Story, há algo diferente aqui. Fazendo um elo improvável entre True Detective e Twin Peaks, abriu-se uma(s) temporada(s) inteira a ser explorada, porque parece que estamos apenas começando.
Não era pra ser a minha, uma série policial de comédia, que se passa nos Keys da Flórida. Entrei mais pelo Vaughn, e talvez porque algum cliente me recomendou. Não me recordo. De qualquer forma, ainda bem que entrei nessa. Tem coisas que o cara não sabe que precisa, mesmo que seja meio óbvio. Terminar o meu verão assistindo semanalmente as estripulias do ex-detetive Yancy, era uma dessas coisas. O senso de humor e o toque de espiritualidade pós-hippie da série me pegou. Como os episódios demoravam, comecei a ler o livro do Hiaasen pra degustar a vibe mais um pouco. Terminalmente engraçado, mas sem o toque reflexivo de meia-idade da série. Sempre curioso ver que livros possuem vários personagens velhos e feios, que viram jovens bonitos na TV. Terminei o livro, a série, o verão. As coisas parecem não mudar, mas nada se mantém o mesmo, certamente. Da série, fica o exercício de desprendimento como lição (lição essa que me foi apresentada pelo velho Bourdain). E toda lição será repetida inúmeras vezes, até ser aprendida.
Tava pensando, enquanto assistia, que acho que nunca terminei uma série do Ryan Murphy. Talvez alguns episódios ou até mesmo uma temporada toda, mas nunca um bagulho inteiro. E nem foi ele que me atraiu até Grotesquerie. Como órfão eterno da S01 de True Detective, ainda busco aquela chapação em quase todo show criminal que cruzo. Tem algo estranho nessa série, de qualquer maneira. Fico em dúvida se devo levar a sério tudo que me aparece, pois o sentimento de que essa ou aquela cena/sequência/personagem é um sonho, delírio, imaginação, é forte (ou: quase caricato). Talvez seja sempre isso que me afasta das séries do Murphy: não sei onde pôr a minha atenção pra valer: na série em si, do jeito que é, nos personagens e suas versões dos eventos, em mim e minha interpretação? De vez em quando o roteiro vai de pitch perfect ao mais novela das 8 possível, o que não ajuda. É um equilíbrio custoso – e não de uma forma empolgante, mas desgastada. Decidi encarar Grotesquerie como a caminhada ao inferno da detetive Lois Tryon, do jeito quer for. Não sei até onde vamos, ou se ela vai chegar lá. Mas por enquanto, estamos juntos.
Tem aquela do Black Alien: o que eu quero e o que eu preciso nem se reconhecem quando se encontram na rua. Uma temporada que parece ser a metade de uma coisa toda. Levando tempo para fazer algumas coisas, curtir o processo, como se diz no linguajar dos nossos tempos. Apresentando lindas cenas a todo momento, a série não expande, ou: resiste expandir. Olhando para dentro cada vez mais, tentando responder questões que apareceram lá nos primeiros episódios. A rotina como um triturador de roteiros. Tudo acontece, menos o que tu precisas que aconteça. Talvez a única temporada até agora de The Bear em que a série que começa a se entender melhor. Progresso, não perfeição.
Apareceu no meu feed e tinha pego, pois Farrell em vibe neo-noir né. Não assisti logo de cara, mas um cliente me recomendou e decidi ver qual é. Não sabia do envolvimento do Fernando Meirelles e nem dos caras do Jazz is Dead. Boas surpresas. Que série estranha. Quase arthouse em alguns momentos – ou quase Lumetiana. Cheia de momentos komorebi, muito bem representados por Farrell e bem montados por Meirelles. Demorou pra eu entrar na vibe, o piloto foi meio dureza mas ali pelo segundo episódio, eu tava all in. Um detetive gentil, viciado em filmes, que anda pelo mundo com a estranheza peculiar de um eterno estrangeiro. Sentimentos familiares, aconchegantes até, pra mim. Uma série feita sob medida para eu poder pensar em tudo que vivo na última década. Assim como Sugar se refugia em filmes, eu me refugiei nessa série. Deixando as tretas do mundo dele ofuscarem as minhas, só por um momento.
Todo o dinheiro do mundo não ajuda às vezes, mas faz umas cenas intensas como a fatiada do navio e o desligamento do céu uma doidera de se assisttir. O elenco é irregular, mas faz o possível com o que tem à mão (há uma vibe meio Westworld aqui, de que não vão conseguir manter esse ritmo por muito tempo). Um show que acerta e erra em proporções quase iguais, mas que se sustenta no material de origem – que demonstra ainda ser um baita material, mesmo quando adaptado fortemente. Sempre vou curtir uma distopia generalizada, que acontece em tempo real e não deixa ninguém incólume, e por isso, sem me ligar muito nos problemas da série, 3 Body Problem me conquistou um pouco. O coração quer o que quer.
A linha de tempo sempre é longa. Nessa temporada, a nova showrunner Issa Lopéz aumenta o possível horror cósmico, a tristeza, a escuridão e tenta levantar um espelho trincado para a mítica S01 (uma treta infinita), que, tal qual um disco debut de uma banda que nunca foi superado, parecia intocável/inalcançável pelo seu próprio criador. Talvez a nova perspectiva fosse necessária, pois nesses dois episódios a série volta a sofrer menos de si mesma. Mesmo que eu goste da S02 (uma dureza infinita) e S03 (uma tristeza infinita). Todavia, até agora, não é tão perfurante quanto a S01 foi. Aumentaram o teal & orange, colocaram Jodie Foster destruindo tudo e todos e trouxeram ciência assustadora para a narrativa. Coisas que funcionam, veja bem. Pode ser que role. Tenho grande apreço pela S01, na época ela me apareceu logo depois que vivi meus mais tristes Anos De Coração Partido (como foi bom ter sido jovem). Eu estava singularmente pronto para aquilo, compartilhava as mesmas leituras que o Pizzolatto, tinha passado anos mal lendo Ligotti e Brassier, descoberto algumas coisas que o cara descobre sobre si mesmo nesses tipos de anos. De certa forma até, por um tempo emulei Rust por ter me surpreendido com a conexão que desenvolvi com essa série. Escrevi para alguns sites de graça sobre a S01, contava pra todo mundo. Que felicidade que foi. Que importante que foi pra mim. Meio que estou vivendo os meus anos de Rust no Alaska neste exato momento, 8 anos de frio (a treta é infinita). Mas passou, não se repetiu e foi seriamente distorcida por muita gente que assistiu. É para sempre um lance que vai amaldiçoar a série inteira, tal qual Illmatic deve assombrar o Nas. Ainda temos quatro episódios restantes nessa S04. Espero que seja divertido e fatal como deve ser, porque até agora: tá indo bem. Uma noite interminável.