Enemy, 2013.

Denis Villeneuve como mestre da desolação. Em 2013 entregou dois filmes prontos para desestruturar tua tranquilidade. Prisoners foi o mais direto, mais brutal. Apresentou um Jake Gylenhaal dirigido perfeitamente. Enemy é um pouco diferente, adaptando o romance de Saramago, conduzido com esmero e sem muitos erros clássicos de adaptações. Jake esmerilha muito. Detalhista e minimalista ao mesmo tempo. Talvez seja o destino de adaptações literárias sempre falharem, mas que pelo menos falhem mais como Enemy.

Joe, 2013.

Em 2013 o David Gordon Green entregou dois filmes em um tom bem diferente das suas comédias anteriores: Prince Avalanche, um remake de um filme Islandês, com trilha jovial do Explosions In The Sky e Paul Rudd de bigode – que foi bem massa, grandes cenas intercaladas por momentos de excruciante minimalismo e lentidão. O outro foi esse Joe. A cenografia é fatal, com muita coisa pra se explorar na tela, o roteiro é nos moldes estou-assistindo-um-acidente-de-carro-forma-de-filme e nada muito além do esperado acontece, mas assim como Prince Avalanche, tem seus momentos. Lembra um pouco o excelente Mud.

Zulu AKA City of Violence, 2013.

Dia desses assisti o Anthony Zimmer, o bacanoso primeiro filme do frânces Jerôme Salle (nem me liguei na hora que tinha assistido muito antes o remake dele, o bobo The Tourist, com o Depp e a Jolie). Fiquei curioso com o diretor e peguei o Zulu, do ano passado. Lembra um pouco Tropa de Elite na forma como a brutalidade escala rapidamente, deixando poucos reféns e muitas vítimas. África do sul em modo trata pura. Até o Orlando Bloom consegue ir além da sua casca hollywoodiana e entrega uma bela performance. As cenas finais são muito bonitas, fechando o filme em um tom totalmente desolador. Um dos roteiristas é o Julien Rappeneau, que também foi roteirista em 36, que considero um dos melhores filmes policiais de todos os tempos.

Night of the Demon AKA Curse of the Demon, 1957.

em 1957, um filme sobre demônios devia ser algo bem sinistro. Esse do Jacques Tourneur provavelmente devia ser um dos mais, até porque se leva bastante a sério. O roteiro ainda segura as pontas até hoje (massa ver um filme em que os cientistas ainda tratam hipnose como algo seriamente científico?) e apresenta uma estrutura abusada até hoje em filmes de horror, provando que não há nada de novo desde aquela época: verborragia científica para mascarar argumentos de “não acredito em demônios”, referências ocultas rebuscadas e intraduzíveis para rechear argumentos “o demônio é real mermão” – e claro, cenas dúbias para assustar. O demônio em si é um espetáculo brega e gloriosamente datado.

The Haunting, 1963.

Esse é um dos filmes que deixei no hd mofando por tempo demais. Essa belezinha do Robert Wise sempre aparece em listas e recomendações de filmes de horror. Vacilei por tempo demais: é puro delírio em preto e branco implacável. Doidera como o roteiro ainda funciona. A cinematografia talvez seja eterna: nunca uma casa pareceu tão assustadora, sem praticamente nenhum efeito especial – e esse lance de não ter CANTOS é um troço simples e que dá um senhor efeito final. Rola um estranhamento com a protagonista Eleanor, mas talvez seja proposital – e mesmo que não seja, tudo ajuda a construir o clima sombrio atemporal.

Cry-Baby, 1990.

Não estava nem um pouco preparado para esse delírio rockabilly, em forma de musical. É o tipo de filme que conheci através de referências, mas nunca tinha parado para assistir. Meio que sabia o que esperar. Só não estava preparado para esse ataque direto à minha memória afetiva e musical. Foi divertido do começo ao fim, e terminou tão rápido que me deixou meio desnorteado. É como um Scott Pilgrim sem videogame, cheio de música redneck no meio. Que filme, que destruição.

V/H/S 2, 2013.

O primeiro V/H/S foi interessante, uma coletânea de horror capaz de criar uma nova mitologia. O segundo filme segue a mesma estrutura, e expande ainda mais a premissa inicial. Gosto do uso do vídeo como artifício sobrenatural – Desde Blair Witch venho acompanhando o “gênero”: tivemos bons exemplares como Sinister, The Ring/Ringu, Shutter e Pulse. E com a série V/H/S, dá pra dizer que o gênero tá indo bem.

Only God Forgives, 2013.

Não que seja um filme bom. Muito menos o melhor do Refn. Mas ele tem aquela maldita atmosfera. Fico hipnotizado. Assisto somente para ficar encarando a tela, ouvindo os sons e aos poucos me sentir totalmente cooptado. É como um sonho recorrente. Há um conforto bem específico, incomum. Only God Forgives não é um filme, é apenas um espaço de tempo que eu gosto de visitar.

Page Eight, 2011.

Bill Nighy é um analista de inteligência do MI5, mora sozinho, teve quatro esposas, vive uma rotina minimalista – e então conhece a sua vizinha, Rachel Weisz. Daí tem alguma coisa envolvendo escândalos internacionais, mas tem também a Rachel Weisz. Grande filme para uma noite de domingo.

New World, 2013.

Dirigido pelo roteirista de I Saw The Devil. A história tem ecos de Infernal Affairs e outras tramas de crimes asiáticas. Os ternos são todos bem cortados e os carros, pretos e luxuosos. As cidades são letais de noite e pouco confortantes durante o dia. Os personagens acabam te conquistando de uma forma ou de outra – não adianta especular até assistir o filme inteiro. É um filme triste, mas não melancólico. Dificilmente filmes coreanos são melancólicos, aliás. A tristeza que eles carregam é bem específica, não se arrasta. Ela pontua. Vale ressaltar a cena da briga no estacionamento e elevador.