Her Smell, 2018.

Tava pensando aqui quando foi que assisti um filme do Alex Ross Perry, porque o nome não me é estranho.

Foi um pouco antes de me mudar de São Paulo. Entrei em uma seção de Listen Up Philip naquele cinema Itaú da Augusta, em 2014. Parece umas duas vidas atrás. Entrar em uma sala de cinema espontaneamente. Cinema com saída pra rua. Essas coisas que vão se perdendo.

Her Smell é o mais recente dele, e assim como Listen Up Philip, é um filme que demanda bastante do espectador. Neste caso não só é difícil acompanhar os diálogos frenéticos (com um quê caótico-irritante de Safdie Brothers) como a trilha sonora/sound design totalmente paranoico e semi-nauseante (com um quê sádico de Gaspar Noé) que te degasta minuto após minuto.

Teve um momento em que tive que parar o filme só pra poder respirar normalmente. Colocar a cabeça fora da água.

Elizabeth Moss, eterna favorita deste humilde canal, comanda todo esse teatro com maestria. Por mais difícil que seja assistir essa bad trip em forma de filme, há muito a ser aproveitado aqui. seja o retrato importante de um período musical ainda pouco explorado no cinema, seja no elenco de suporte que brilha demais (quando consegue).

Não há muita redenção, ou até mesmo satisfação. Mas há pureza. O que mais pode se querer de um filme.

The Battery, 2012.

Seria mais um filme indie sobre broders que andam por aí fumando beques, bebendo cerveja, jogando baseball – se não fosse pelo fato de que existem zumbis andando pela terra. E meio que isso acaba com o rolê todo, na real. Mas ao mesmo tempo é para um deles a oportunidade para não tomar banho, matar uns monstrengos e viver selvagem por aí – enquanto para outro faz falta dormir em uma cama de verdade. Com orçamento claramente baixo, Jeremy Gardner escreve, dirige, produz e atua em The Battery, que consegue ter momentos massa aqui e ali. Um bom filme para tardes de sábado.

Calvary, 2014.

O primeiro filme do John Michael McDonagh foi The Guard, que é basicamente um dos filmes mais engraçados que assisti. Foi um belo primeiro filme do diretor-roteirista. Calvary é o segundo dele, de novo com o Brendan Gleeson (que parece estar em tudo que é filme recentemente e meio que TUDO BEM). Não é tão engraçado quanto The Guard e talvez nem seja essa a intenção, pois acaba sendo um pouco mais exploratório, por assim dizer. É um filme autoconsciente, de passada lenta, mas não arrastada. Não chega a ser triste. É pragmático demais para se deixar entristecer. Gosta demais de brincar com seus personagens e suas situações para isso. Tem até o Dylan Moran. E todo filme com o Dylan Moran merece uma assistida. Bem que podia ser uma série.

Afflicted, 2013.

Tempos atrás fiz um top 5 de filmes found footage e caso tivesse assistido esse Afflicted, pelo menos colocaria nas menções honrosas. A primeira parte do filme é no estilo clássico de diário de pessoas normais que filmam tudo, já a segunda é um FPS de terror totalmente em chamas. Não dá pra falar muito do filme sem estragar muito as coisas, mas é um bom exemplo de que como subgênero, o found footage ainda tem algum espaço a ser explorado.

Only Lovers Left Alive, 2013.

Me sinto totalmente pretensioso e meio pau no cu ao afirmar que adorei cada segundo desse filme. Only Lovers Left Alive pode até ser sobre vampiros seculares que conversam sobre Tesla, astrofísica, botânica e viveram durante praticamente todos os movimentos culturais da humanidade. Mas creio que é sobre uma linha de tempo longa o suficiente para mostrar que poucas coisas são realmente imortais. Difícil não se apaixonar pelo casal, principalmente pelo romântico e suicida Adam (Hiddleston em brasa), que toca post-rock fúnebre, gravado em pornográficos aparelhos analógicos. Um filme delicioso para quem é nerd consigo mesmo (o jogo de Doutores que Adam faz com seu traficante de sangue) e que não costuma entender toda a humanidade (o desdém de Adam pela tecnologia que usamos). Filmes como esse são prêmios secretos para quem vive tempo demais consumindo tudo ao seu redor, decorando todos os detalhes e todas as nuances de tudo que lhe apetece. De nerd para nerd, com amor.

The Raid 2: Berandal, 2014.

No primeiro The Raid, o diretor Gareth Evans tinha a vontade e a visão para fazer um grande filme de artes marciais, apresentando o pencak silat ao mundo da forma brutal (jamais esquecer o primeiro filme sobre o estilo, que é do Evans também: o eterno Merantau). Mas longe de ser um filme refinado. Havia apenas intenção, que esbarrava em uma ou outra limitação técnica e um roteiro que ansiava por cenas e mais cenas de lutas (o que não pode ser interpretado diretamente como algo ruim, sempre). Em sua continuação, há mais orçamento, refinamento, uma capacidade técnica mais robusta. The Raid 2 é um filme que nasceu diretamente da visão do primeiro – e por causa do seu sucesso. É um filme de artes marciais para apaixonados por filmes artes marciais, que cresceram grudados em TVs de tubo assistindo fitas VHS toscas e mal dubladas de filmes asiáticos. Nas duas horas e meia de filme, fica a impressão que que o diretor resolveu realizar todos os sonhos de um moleque que cresceu assistindo filmes de artes marciais, imaginando cada vez mais cenas de luta imediatamente após assistir um filme impressionante. Dá pra listar a Cena do Banheiro Na Prisão, a Cena da Briga Na Lama, a Cena da Luta Dentro do Carro, a Cena do Metrô, a Cena da Boate e a brutalmente linda Cena da Cozinha como realizações extraídas da mente de um viciado de filmes de artes marciais. Sem contar os personagens, que também são saídos desse mesmo imaginário: A Mina Que Luta Com Dois Martelos, o Assassino Do Terçado, o Cara Do Taco e Bola de Baseball e o Capanga Das Lâminas Dentadas. Um filme cadenciado, que se dá tempo para criar suas cenas, não se atropela e consegue evitar a intenção mortal e falida de elevar filmes de artes marciais ao status de arte. Aqui o negócio é MUITA CABEÇADA EM QUINA e COTOVELADA NA CLAVÍCULA. Um filme gore que vai vender milhões de DVDs piratas pelo mundo pra sempre, que vai ser obrigatório para todo moleque de onze anos que curte ver umas cenas pegadas de luta. Um filme que de certa forma realiza alguns sonhos de muito maluco que nem eu.

Enemy, 2013.

Denis Villeneuve como mestre da desolação. Em 2013 entregou dois filmes prontos para desestruturar tua tranquilidade. Prisoners foi o mais direto, mais brutal. Apresentou um Jake Gylenhaal dirigido perfeitamente. Enemy é um pouco diferente, adaptando o romance de Saramago, conduzido com esmero e sem muitos erros clássicos de adaptações. Jake esmerilha muito. Detalhista e minimalista ao mesmo tempo. Talvez seja o destino de adaptações literárias sempre falharem, mas que pelo menos falhem mais como Enemy.

Joe, 2013.

Em 2013 o David Gordon Green entregou dois filmes em um tom bem diferente das suas comédias anteriores: Prince Avalanche, um remake de um filme Islandês, com trilha jovial do Explosions In The Sky e Paul Rudd de bigode – que foi bem massa, grandes cenas intercaladas por momentos de excruciante minimalismo e lentidão. O outro foi esse Joe. A cenografia é fatal, com muita coisa pra se explorar na tela, o roteiro é nos moldes estou-assistindo-um-acidente-de-carro-forma-de-filme e nada muito além do esperado acontece, mas assim como Prince Avalanche, tem seus momentos. Lembra um pouco o excelente Mud.

Zulu AKA City of Violence, 2013.

Dia desses assisti o Anthony Zimmer, o bacanoso primeiro filme do frânces Jerôme Salle (nem me liguei na hora que tinha assistido muito antes o remake dele, o bobo The Tourist, com o Depp e a Jolie). Fiquei curioso com o diretor e peguei o Zulu, do ano passado. Lembra um pouco Tropa de Elite na forma como a brutalidade escala rapidamente, deixando poucos reféns e muitas vítimas. África do sul em modo trata pura. Até o Orlando Bloom consegue ir além da sua casca hollywoodiana e entrega uma bela performance. As cenas finais são muito bonitas, fechando o filme em um tom totalmente desolador. Um dos roteiristas é o Julien Rappeneau, que também foi roteirista em 36, que considero um dos melhores filmes policiais de todos os tempos.

Night of the Demon AKA Curse of the Demon, 1957.

em 1957, um filme sobre demônios devia ser algo bem sinistro. Esse do Jacques Tourneur provavelmente devia ser um dos mais, até porque se leva bastante a sério. O roteiro ainda segura as pontas até hoje (massa ver um filme em que os cientistas ainda tratam hipnose como algo seriamente científico?) e apresenta uma estrutura abusada até hoje em filmes de horror, provando que não há nada de novo desde aquela época: verborragia científica para mascarar argumentos de “não acredito em demônios”, referências ocultas rebuscadas e intraduzíveis para rechear argumentos “o demônio é real mermão” – e claro, cenas dúbias para assustar. O demônio em si é um espetáculo brega e gloriosamente datado.