Kubi, 2023.

Moral do caralho é escrever um livro (um romance histórico) e depois adaptar em filme tu mesmo (um épico de guerra). Em Kubi, cabeças rolam com a mesma facilidade e intensidade em que as piadas te atingem. Cinematografia irretocável, elenco imenso (que te confunde até) e totalmente na mesma frequência, aquele gore samurai nosso de cada dia – com direito a cenas tradicionais de lances NINJA, mas com aquele gore que nos acostumamos nos últimos tempos (obrigado Kitano, obrigado Miike) e claro, a seriedade que Kitano consegue dar às mais simples das cenas. Uma aula, um privilégio. É tipo um Succession Japão Feudal style, só que usando figuras históricas reais e maltratando todo mundo. Kitano velho é mestre de tudo e todos, bicho.

Talk To Me, 2022.

Fazia muito tempo que não via um filme de Terror com T maiúsculo no cinema, acompanhado de casais em encontros e de fileiras de adolescentes legitimamente se assustando. Ainda mais algo especial como esse Talk To Me, debut dos youtubers do RackaRacka, um projeto que emana doidera, simpatia e esforço. Tudo funciona, até mesmo a antipatia (natural) dos atores adolescentes. Aquela cena de abertura é puro suco de pesadelo, te puxando pro lado fundo da piscina logo de cara. Fiquei bastante tempo conversando sobre esse filme nas semanas seguintes, porque não só possui um conceito simples e eficiente, como tem stunts hardcore e até mesmo se liga com o Espiritismo de forma torta, provando que é uma baita religião/doutrina para ser explorado em horror e sci-fi (ver também: metal do Dead Times). Parece que o sucesso comercial também foi forte. Então, que venham outras sessões de cinema como essa. Obrigado irmãos Philippou.

V/H/S/85, 2023.

Doidera. Ano passado mesmo teve um desses V/H/S, né. Sem querer parecer que tou reclamando, até porque: esse 85 é o bicho demais. O formato geral da antologia tá no prumo nessa edição. Toca como uma mixtape infernal – uma liga torta (tortíssima) em forma de fita vhs, não muito diferente de uma fita caseira que estaria dentro de um videocassete (caso fosse o videocassete do capeta). Os segmentos são hardcore crossover puro, com poucos momentos fracos, entregando aquele gore retrô nosso de cada dia. Destaque para God Of Death (baitas cenas atordoadas de terremoto) e Dreamkill (Scott Derrickson deitando no formato e entregando um dos melhores momentos da série inteira). O resto do filme é cheio de bons momentos e acaba meio que elevando o todo a ser um dos melhores V/H/S. Quem diria. Doidera. Vida longa à V/H/S, mermão.

Barbie, 2023.

Nessa doidera de verão nos cinemas em que Oppenheimer e Barbie acabaram sendo lados da mesma moeda (apesar de: sentido nenhum) o vencedor pra mim acaba sendo Barbie – que pelo menos não é obtuso e medroso como o épico do Nolan. Barbie também evita “O problema”, mas acaba sendo muito eficaz em apontar o roteiro da Gerwig e do Baumbach para outros (inúmeros outros) problemas, utilizando verborragia nos momentos corretos e dando nomes e títulos a tudo. Divertido, mas ainda sofre de si mesmo: como um produto pós-capitalista, é inefetivo como o drama do Nolan. Claramente não se pode ter tudo, mas pelo menos há um coração aqui, por mais cínico que possa ser (até porque: tem que).

Oppenheimer, 2023.

Acho que tava mais interessado em ver o elenco imenso em ação e também porque descolei ingressos para uma sessão em 70mm do filme. De resto, acho que esperava encontrar algo, mas nada demais. Sobre o projeto, Hickman já fez tudo que deveria ser feito. E sabia que o Nolan teria que ir fundo para conseguir superar o excelente Tenet, que considero o seu maior e melhor filme – aquele que equilibra características blockbuster com doideras e interesses que são particulares ao diretor. O filme tem cerca de dois terços muito bons, montando um Avengers da física, tentando achar algum modo de se contar a própria história. Tu até, por um pequeno momento, se esquece que tudo isso tá acontecendo com um intuito nefasto e injustificável. Mas fica mais Top Gun do que… hum, não sei o que ficaria na outra ponta (talvez um daqueles documentários da BBC pós-guerra?). Mas sem a diversão imensurável que Top Gun entrega. Sem também as trevas que seria cabíveis a um filme assim. Apenas superfície, por mais bonita que seja essa superfície. Quando a bomba explode, fica essa sensação de que algo ali não foi contado, que tem algo sobrando, algo óbvio. E claro que tem.

John Wick: Chapter 4, 2023.

O peso de ser tu mesmo, bróder. Tudo bem que John Wick é basicamente um personagem de Sin City criado para ser o veículo de uns dos mais durões stuntpersons do planeta (nesse capítulo 4 eles transformam a stunt de cair de uma escadaria em uma forma de arte, ALÉM DE: luta intensa com nunchaku, Donnie Yen estelar fazendo seu papel de mestre marcial cego – um delírio cinematográfico, plasticidade incomparável, BJJ de terno, neckshot afu e claro: uma sequência inteira onde João Wick usa uma porra dum fuzil com munição explosiva e explode um prédio inteiro em Paris) e ninguém espera muito mais dele do que um Yeah cansado e muitos, mas muitos movimentos milimetricamente coreografados que fazem inveja a qualquer filme da era Hong Kong clássica wuxia. Bem doidera, bem intenso, nada muito complexo ou além do que se vê. Uma belezinha, entretanto. Quando tu brincas de tentar adivinhar como eles fizeram essa porradaria toda tão bonita e crocante, dá uns bugs na mente do cara. Tem vezes que pra fazer uma cena convincente, alguém vai ter que levar uma mãozada na traqueia. Fazer coisas doloridas e filmar: sim. Vida longa à todos os envolvidos.

Luther: The Fallen Sun, 2023.

“The tragedy is that you are a better man than you ever allowed yourself to be”. O que aconteceu conosco, John Luther? Olhei aqui, a primeira temporada é de um longínquo 2010. O mercado de séries para TV era diferente (pra tu teres ideia, House Of Cards do Netflix começa em 2013). Eu era apenas mais um moleque baixando rips em 720p de shows britânicos em um tracker de bittorrent dedicado a esse tipo de conteúdo e assistindo em um monitor CRT. Já Luther, ainda vivia uma vida completa, naquela primeira temporada perfeita. Desde então, tudo mudou, pra ele, pra mim, pra todos nós. Semana passada estava no tram, passando pela Coolsingel em Rotterdam e não tive como não notar um enorme banner de uns cinco metros, tomando toda a lateral de um prédio. Apenas um retrato do torso de Idris Elba e as letras em vermelho na fonte de Luther. Wotcha. Olhando lá de cima pra mim, com aquela expressão de vida difícil, camarada. Tem sido uma aventura, né broder, quando comecei a te assistir, nem sabia o que era um inverno, um casamento, ou até mesmo uma carreira. Hoje em dia uso casacos pesados como os de Luther, caminhei pelas mesmas ruas e pontes que ele e Alice Morgan costumavam andar e vivo em uma cidade que também é castigada por um inverno infinito. Nas trincheiras do dia-a-dia, os anos se passaram e tudo que sobra é tudo que importa. Esse filme (que é produção do Netflix, ironia não necessária) é como uma visita a um amigo que envelhece junto contigo, mas de forma fatalmente diferente. Pra mim, Luther terminou ali naquela primeira temporada (todavia, aceitável incluir o bom livro-prequel que Neil Cross escreveu, The Calling, uma leitura muito dureza), mas tudo bem que de vez em quando a gente se encontra, pra ver que ainda usamos os mesmos tipos de roupas, temos o mesmo coração sofrido e que assim como o tempo me tratou como devia, tratou Luther também. Solitários, sorumbáticos e assombrados por nós mesmos, viramos um pro outro e perguntamos so, now what?

Knock at the Cabin, 2023.

Aqui estou mais um dia a escrever sobre um filme do Shyamalan. Desde que Hollywood desencanou dele, seus filmes ficaram diferentes, voltando a ser mais interessantes e sempre entregando diversão. E por todos os problemas de Knock At The Cabin, o cara meio que se diverte. Mais por um excelente Bautista, imponente e vulnerável como um vilão clássico. Dá pra ver o terceiro ato vindo de longe – e a história é boa, mas não tão boa assim. Pensando aqui que em tempos de saturação de todo tipo de mídia, te segurar por um filme inteiro (como aconteceu no último Knives Out, ou nos últimos Soderbergh), é coisa de quem manja. Algumas histórias não precisam de muito mais.

Tár, 2022.

A ilusão perfeita de controle. Há vários anos, comecei a nutrir um hábito ruim. Comecei a evitar filmes (e principalmente filmes) por sua temática, ou pela sua aparente narrativa, ou pelo que eu imaginava que o filme iria me fazer passar. Arrogância preemptiva, cultivada por milhares de horas consumindo essa forma de arte que tanto me deu e tanto me amparou. Entretanto, decidi por algum motivo que não queria passar perto de alguns sentimentos e sensações. Até desenvolvi um contra-hábito: me refugiei em sessões de filmes que já vi várias vezes, me convencendo que estava nessa buscando um refinamento – tentando ver algo que deixei passar na primeira vez. Mas no fundo, estava me escondendo de mim mesmo, claramente. Ainda possuo esse hábito ruim presente nas minhas decisões do que assistir, me privando por meses, ou anos, de assistir algo pois não quero caminhar por onde ele vai me levar. Talvez fosse proteção. Tár é um desses filmes, soube assim que vi a primeira imagem de Cate segurando uma batuta. Sempre fui apaixonado por Cate, desde quando muito moleque a vi de bochechas rosadas e cabelo vermelho no (otherwise) esquecível Bandits, de 2001. Renovei essa paixão por ela de novo há poucas horas, em uma cena de Tár em que ela chega em seu cavernoso apartamento de concreto queimado em Berlim, apaga as luzes, coloca Count Basie para tocar e abraça a sua parceira em um leve balanço, quase imperceptível. Amor supremo. A partir dali, eu estava vivendo com Lydia Tár, sendo levado pelo seu sotaque berlinense em alemão, pelas suas sobrancelhas que parecem ter vida própria, pelos seus pés descalços tocando piano. Parece que meu erro favorito é se apaixonar platonicamente por esse tipo de pessoa. Nos meus anos trabalhando em um ambiente corporativo, possuía raiva branca em relação à várias coisas praticadas naqueles ambientes. A maior das raivas era gramatical: com a forma como todos decidem escrever e falar em um escritório. Um constante jogo de palavras e termos e diálogos que não somavam nada, desviavam a atenção do trabalho em si e deixava claro para mim que na real, nunca foi sobre a qualidade do trabalho. Lydia joga esse mesmo jogo desprezível, mas não com a música que toca, e sim com tudo ao seu redor. Parece que ela faz isso há tanto tempo que a música decidiu invadir a sua vida, sem um objetivo definido, ou: apenas para mostrar a Lydia que nem tudo pode ser controlado, mesmo para alguém que mestrou o controle total do tempo. Para uma pessoa que vive uma vida cheia de superlativos, o que resta? Naquelas de que o se dá de presente para alguém que tem tudo. A resposta me interessa menos do que imaginei. O que me interessa mesmo é quando a ilusão de controle vai se dissolver, ou se é pra ser assim mesmo: perfeita.

Avatar: The Way of Water, 2022.

Voltei a jogar video games depois de muitos anos sem um console ou PC decente. Tenho um buraco de uns oito anos na minha trajetória como jogador, precisamente a era em que os jogos pularam para além do full hd e os fps chegam a bater mais de 200. Acabou que, mesmo quando jogo um Red Dead Redemption II (um jogo “velho”), fico embasbacado com a beleza e detalhismo do cenário todo. Passo longos períodos de tempo buscando mirantes, entrando em áreas verdes e sei lá, pescando. Esqueço que é um jogo violento. Que em algum momento alguém me fará usar alguma das meia dúzia de armas que carrego por default. Chega a ser uma surpresa, ter que atirar am alguém depois de passar uma hora subindo uma montanha. Mas: sem conflito, não tem jogo. Assistindo Avatar, senti o mesmo que sinto quando jogo games lindos: uma pena que toda essa beleza seja temporária porque, inevitavelmente, o pau vai comer. E é aí que Cameron mostra um pouco de descompasso. O filme inteiro é lindo, mas a ação quase sempre cai numa vibe Disney. Num mundo pós-John Wick/The Raid, a violência estética virou uma outra forma de arte. O conflito físico é um balé grotesco (e talvez até profundo). Dentro de toda a beleza estética, as capacidades técnicas e a pura força bruta de fazer um filme com centenas de simulações hiper-realistas de água do mar (“se liga em quanto render eu consigo bancar”), o filme brilha e empurra vários setores da indústria cinematográfica a um novo patamar (o trailer de um Ant Man que passou antes do filme parece um trabalho de YouTuber perto de Avatar). Algo que não acompanha essa evolução toda, é a sensibilidade da história em si, que chega a ser rasa – mesmo que os personagens não sejam (doidera que esses seres em 3D sejam tão familiares). Não se pode ter tudo, claramente. Mas que tu possas passar meia hora em Pandora antes do diabo saber que estás morto.