Final Destination: Bloodlines, 2025.

Numa tarde de domingo perfeita pra curar uma ressaca: um vape com sabor de sorvete, pipoca, uma garrafa de cerveja e uma dúzia de mortes em CGI que explodem em glorioso gore na tela e te fazem lembrar de: DVDs alugados, filmes assistidos uns 25 anos atrás, solitário na tela de 29 polegadas que sobrou e acabou ficando no teu quarto. Ainda estamos aqui, assistindo uma baboseira bem feita e engraçada (porque tem que ser, pra ser massa), rindo na hora errada e fatalmente se divertindo.

Havoc, 2025.

O meu ator jiu jitero favorito passa o filme todo andando como quem decidiu rolar uns rounds a mais com o campeão mundial de 19 anos que toda academia de bjj responsa tem. Vida dolorida. Tem também Timothy Oliphant como vilão, o que é só excelência pura. Mas o que tem mais mesmo é pancadaria dos infernos (todo mundo sabe brigar nesse filme), tiro pra caralho (ninguém parece pegar numa arma sem conseguir esvaziar o clip inteiro – num arroubo de hong kongismo tardio, Gareth faz de todas a cenas de tiroteio um interminável carnaval sangrento) e carros de CGI que se movem como um cavaleiro do zodíaco. É uma desgraceira que fica entre o exploitation e o quase-sério. Não é um filme muito bom fora do festival de stunts doidera, mas como foi divertida aquela cena do nightclub, ver Tom Hardy mandando um single leg é massa demais.

Sinners, 2025.

Um filme desses num sábado à noite, bicho. Tava neio desconfiado, mas tinha uma promessa de que haveria blues da perdição e pancadaria. Decidi encarar de boa. Meio dureza encarar dois Michael B. Jordan, mas quando o blues do capeta começa, tudo bem. Bagulho fica bom e às vezes até bonito pra carai. Um filme improvável, até, mas divertido até o osso. O tipo de blockbuster raro hoje em dia.

Black Bag, 2025.

Se tu olhares os, digamos, dez ou doze últimos filmes do Soderbergh, tu vais perceber que o cara mestrou o formato de filme de 90 minutos. Atualmente, talvez não tenha ninguém que consiga entregar quase todo o ano um (no mínimo) assitível e interessante filme que nem chega perto de cruzar a barreira das duas horas. Um mestre que sabe o que quer. Dessa vez, filme de espião (antes teve filme de terror, de hacker, de gangster velho, de escritor velho, de esporte, de treta financeira, de prisão, biografia etc – e uns Magic Mike aqui e ali) com Cate Blanchett e Fassbender em boa forma (ela muito mais, aliás) e uma vibe de filme que se leva a sério, mas não muito. Boa assistida, com direiro à arquitetura excelente aparecendo em várias cenas. Mais uma pedra do mestre.

Longlegs, 2024.

Nada como ver um filme de terror que curte ser filme de terror, numa sala de cinema. É sempre massa estar compartilhando aquela doidera com um grupo de anônimos, de frente para uma tela imensa. Longlegs é cinematograficamente uma delícia, tu ficas vários momentos apenas apreciando a vibe, até esquecendo dos horrores todos que são te apresentados em cascata. Não sabia muito sobre o filme, de propósito. Gostei do satanismo desenfreado e da vibe noventista que me lembra ser criança e me auto amedrontar assistindo Arquivo X. Como é bom levar uns sustos, ver umas coisas novas e ter aquele sentimento de estar fazendo algo muito da hora, escondido na última sala, quase no porão, de um cinema.

Perfect Days, 2023.

Sempre quis uma vida simples. O que não necessariamente significa ter uma vida fácil. Mas às vezes, por um certo número de dias, talvez semanas e (se o universo sorrir) meses, as duas coisas se sobrepõem e eu tenho o privilégio de viver dias perfeitos que parecem sem fim, onde o simples e o fácil se entrelaçam e eu me vejo cantando Racionais na bicicleta ou cortando o cabelo do baixista de uma banda que admiro- ou tendo tempo o suficiente em uma sexta para assistir esse filme todo antes de ir dormir. Reconhecer o próprio privilégio é fundamental. Hirayama pratica a arte de notar, inspirar e deixar passar. Ele parece entender o privilégio do seu trabalho, rotina, cidade, casa e, finalmente, a vida inteira que leva. Tento fazer o mesmo. A solidão também é um privilégio, um benefício, um presente, como diz aquele poema. Há um custo, claro, pessoal e intransferível para cada um. Mas: que vida. Ele lá indo de bike por Tóquio pegar um livrinho, eu aqui de bike aqui em Rotterdam indo assistir um filme depois do trampo. A gente chora e sorri ao mesmo tempo, porque no final, é a mesma coisa. Ser testemunha da própria existência, e por consequência de todo mundo, é talvez a única coisa que realmente importa pra mim. Perfeição é o que tu quiseres que seja.

Furiosa: A Mad Max Saga, 2024.

Perdi o Fury Road nos cinemas, mas se tornou um dos meus filmes prediletos desse século bem normal que estamos vivendo. É um blockbuster perfeito, que na sua versão black and chrome torna-se um disco perfeito do Bolt Thrower (…for Victory, se tu queres). Difícil não pensar em Fury Road ao assistir esse Furiosa: é o mesmo cenário, vários personagens se repetem e alguma cenas são set-pieces catastróficas, com escala e ambição de quem conseguiu um bom financiamento. É tudo muito massa, mas aquela alucinação e doiderismo de Fury Road tão diferentes aqui, ou até mesmo ausentes. A batida é outra, alguns personagens novos são intrigantes, mas não ganham espaço, Dr Dementus é chato bagarai, nem faz sombra pro eterno Immortan Joe. Taylor-Joy é competente, mas nada mais. Fui com sede ao pote e bebi meio que o necessário, não rolou aquele chapamento contínuo e quase perfeito do filme anterior. Tudo bem, porque cada minuto passado na Wasteland hoje em dia, é um bom treinamento pro que há de vir.

Late Night with the Devil, 2023.

Infelizmente esse filme apareceu pra mim por conta da controvérsia sobre o uso de IA na produção de alguns lances (nem sei o quê) no filme, apesar de que eu teria dado uma assistida de qualquer forma, por conta do formato (o filme toca como a fita da gravação de um talk show que manda uma possessão ao vivo, claramente vou ver qual é). Sem entrar numas no uso dessas ferramentas, tou aqui pro terror, bróder. E o filme funciona como um bom segmento da série V/H/S – um pouco longo demais aqui e ali, mas competente em trazer a desgraceira e ritualismo para o primeiro plano. Entretanto, se nada funcionar muito, pelo menos aprendemos que Abraxas é negócio sério.

Civil War, 2024.

Um road movie apocalíptico que parece mais documental do pensei que seria. Me lembrou o Too Old To Die Young um pouco, aquela série inclemente do Refn. Me lembrou os melhores momentos da série The Purge, mas fatalmente me lembrou imagens que todos nós assistimos nos últimos anos: instituições sendo adornadas com pessoas portando rifles. O espelho que Civil War levante diante da plateia é distorcido, pouco claro de propósito. O desconforto desse filme é tremendo, que acaba por ser ineficaz. Não consegue ser distópico, ficcional ou fantasioso. Um filme resignado, que dá ao elenco (Wagner Moura finalmente em chamas, Jesse Plemons vazio) espaço. Mas para a audiência, te vira. Excelente.

Samsara, 2023.

Ser envelopado por esse filme foi um tremendo presente de aniversário. Lembro que quando era criança, não entendia por quê falavam tanto sobre o nome do diretor de um filme, porque pra mim, o ator era o mais importante né, não tem filme sem ele. E ele só precisa ir ali pra frente da câmera e falar umas coisas, atirar nuns caras, correr daqui pra lá. De certa forma isso era cinema pra mim, só pessoas fazendo algo que iriam fazer de qualquer forma, se a câmera tivesse aqui ou ali, não importava muito. Assistir filmes como Samsara me dá a mesma sensação que tinha quando não sabia como se fazia cinema. É algo que aparece na tela, sem direção, sem roteiro, estaria acontecendo de qualquer forma. Quando esse filme decide virar a luz e o som em tua direção e te guiar, não tem muito o que ser feito. Tudo que tinha para acontecer para tu chegares nesse ponto, aconteceu já.