GANGSTA DE BRANCO JOVEM que assiste filmes de terror demais. Mantendo o ritmo que dificilmente passa dos três minutos por faixa, BONES vai lançando uma mixtape atrás da outra, de graça. Até os interlúdios propositalmente bregas, no clima de trilha sonora de churrascaria, meio que funcionam. As numerosas faixas vão passando e entre uma piada e outra, tu vais ficando com medo – ou se empolgando. BONES sabe o que está fazendo e parece que vai continuar por um bom tempo. Enquanto os blunts durarem e ele tiver um quintal para sentar e fazer sessões infinitas. Essas mixtapes talvez sejam a minha trilha sonora que eu nem sabia que existia.
Parece capa de banda de post-metal berrado mas na real é um EP eletrônico totalmente esmerilhante do Baths, que consegue ser pop e ambient ao mesmo tempo, depressivo e benevolente, leve e cheio de camadas (e dá pra ficar nessa por mais uma carrada de adjetivos paradoxais). É a primeira coisa que escuto dele e fui ler um pouco sobre e: parece que ele tem essa capacidade meio mítica de fazer música que te enterra ou te salva, dependendo do dia. Se a faixa de abertura já não te vencer completamente, tente outro dia. Vai rolar.
Me sinto totalmente pretensioso e meio pau no cu ao afirmar que adorei cada segundo desse filme. Only Lovers Left Alive pode até ser sobre vampiros seculares que conversam sobre Tesla, astrofísica, botânica e viveram durante praticamente todos os movimentos culturais da humanidade. Mas creio que é sobre uma linha de tempo longa o suficiente para mostrar que poucas coisas são realmente imortais. Difícil não se apaixonar pelo casal, principalmente pelo romântico e suicida Adam (Hiddleston em brasa), que toca post-rock fúnebre, gravado em pornográficos aparelhos analógicos. Um filme delicioso para quem é nerd consigo mesmo (o jogo de Doutores que Adam faz com seu traficante de sangue) e que não costuma entender toda a humanidade (o desdém de Adam pela tecnologia que usamos). Filmes como esse são prêmios secretos para quem vive tempo demais consumindo tudo ao seu redor, decorando todos os detalhes e todas as nuances de tudo que lhe apetece. De nerd para nerd, com amor.
O Regarde Les Hommes Tomber encontra-se em uma intersecção espetacular para mim: há o peso do black metal na bateria e vocais, o arrastar do post-metal sludgiano nas guitarras e o esmero do post-rock nas melodias. Ao mesmo tempo a banda que faz parte dos três estilos – mas acaba não sendo verdadeiramente de nenhum deles. Não que isso importe muito quando os fones são tomados pelo tornado sonoro deles. Um disco de sete faixas que, talvez por conta do meu baixo repertório musical, não encontra par em minha coleção. Desde aquele momento em que o baterista resolve soltar a caixa meio que do nada em Prelude, permitindo que as guitarras descasquem a melodia entre si enquanto a pedaleira come solta por trás – até o apocalipse distorcido de The Fall, que tem aquele baixo cavalar e andamento no estilo saltando-de-um-prédio-de-42-andares, é um disco imersivo, sufocante e benevolente ao mesmo tempo. Tenho ouvido incessantemente há uns dias, como é um encontrar uma nova banda favorita.
Bongripper fazendo o que faz melhor: doom lamaçento, tétrico, longo pra caralho, com aquela pegada de ir destruindo baquetas a cada batida. Miserable é mais um exercício em baixa rotação dos mestres, te puxando pra dentro do monstrengo da capa – aliás se liga na doença que é ela inteira – em três faixas que são divididas mais por comodidade técnica do que por tema, pois como sempre elas acabam sendo uma enorme sessão de doom monolítico só. Sempre preferi os momentos de LAVA CROCANTE do que os de drone da banda e esse disco fica mais a meu favor. Depois de dois bons splits (um com o Hate e outro com o Conan), esse é o primeiro disco inteiro deles desde o já mítico Satan Worshipping Doom (que é de 2010, pra tu veres como o tempo passa mesmo na terra do doom). Doom eterno.
O show da Bugio é muito parecido com o primeiro disco deles. Uma banda de baixo-bateria que ainda está na sua primeira fase, explorando diversos tons e territórios entre um acerto e outro. Nem tudo é bom, nem tudo é ruim. Nos momentos em que a riffzera começa a pegar a coisa fica interessante – todavia é uma banda anti-esporro. Por não explodir completamente, fica brigando contra a destruição o tempo todo. Também não abraça o drone incandescente (uma pena, pois um dos melhores momentos do show é quando o baixista resolve imitar um elefante com o baixo).
O Hurtmold entra sabendo exatamente que som quer tirar e esmerilha em cada e todo segundo. A improvisação é calculada e curtida, coisa de quem já meio que zerou o jogo e agora o joga para achar fases secretas. É provavelmente a maior e melhor banda de São Paulo de todos os tempos. Ouvia Hurtmold quando ainda nem morava aqui, imaginando que a cidade soava assim. Uma banda que pelo menos três discos perfeitos – e aquele split supremo com o Eternals, meu favorito quando penso em Hurtmold. O show demonstra tudo isso, há casca e há timbres perfeitos. Não há mais uma aura de novidade e talvez isso não seja necessariamente ruim. Baita show. Baita banda. Grande sentimento.
Sou um emo de coração mole e dez vez em quando volto ao estilo (ou ao sentimento) com gosto. Esse The Pursuit tem sido meu porto-seguro neste belo ano de 2014 (apesar de ir mais para o lado post-metal). Lembra um pouco o Circa Survive, que já rodou muito em meus players durante caminhadas sentimentais por Pinheiros (ou seja: ficar caminhando de moletom com fone de ouvido fazendo biquinho). Todavia, Echoes é uma banda um pouco mais incisiva. Possui aquela característica que gostam de chamar de atmospheric (que na real é meio redundante já que TODA MÚSICA é atmosférica por natureza), com canções longas, cheias de momentos silêncio-barulho e vocal gritado que de vez em quando funciona pra caralho – e em outros momentos é meio constrangedor (tudo bem). Aliás, todos os clipes do Echoes são meio constrangedores e as canções soltas parecem não funcionar muito bem. Não é uma banda pra se compartilhar link avulso. É pra botar nos fones e curtir a fossa emo infinita, ficar de boa sofrendo em silêncio, essas coisas. BAITA CHORADEIRA BOA.
No primeiro The Raid, o diretor Gareth Evans tinha a vontade e a visão para fazer um grande filme de artes marciais, apresentando o pencak silat ao mundo da forma brutal (jamais esquecer o primeiro filme sobre o estilo, que é do Evans também: o eterno Merantau). Mas longe de ser um filme refinado. Havia apenas intenção, que esbarrava em uma ou outra limitação técnica e um roteiro que ansiava por cenas e mais cenas de lutas (o que não pode ser interpretado diretamente como algo ruim, sempre). Em sua continuação, há mais orçamento, refinamento, uma capacidade técnica mais robusta. The Raid 2 é um filme que nasceu diretamente da visão do primeiro – e por causa do seu sucesso. É um filme de artes marciais para apaixonados por filmes artes marciais, que cresceram grudados em TVs de tubo assistindo fitas VHS toscas e mal dubladas de filmes asiáticos. Nas duas horas e meia de filme, fica a impressão que que o diretor resolveu realizar todos os sonhos de um moleque que cresceu assistindo filmes de artes marciais, imaginando cada vez mais cenas de luta imediatamente após assistir um filme impressionante. Dá pra listar a Cena do Banheiro Na Prisão, a Cena da Briga Na Lama, a Cena da Luta Dentro do Carro, a Cena do Metrô, a Cena da Boate e a brutalmente linda Cena da Cozinha como realizações extraídas da mente de um viciado de filmes de artes marciais. Sem contar os personagens, que também são saídos desse mesmo imaginário: A Mina Que Luta Com Dois Martelos, o Assassino Do Terçado, o Cara Do Taco e Bola de Baseball e o Capanga Das Lâminas Dentadas. Um filme cadenciado, que se dá tempo para criar suas cenas, não se atropela e consegue evitar a intenção mortal e falida de elevar filmes de artes marciais ao status de arte. Aqui o negócio é MUITA CABEÇADA EM QUINA e COTOVELADA NA CLAVÍCULA. Um filme gore que vai vender milhões de DVDs piratas pelo mundo pra sempre, que vai ser obrigatório para todo moleque de onze anos que curte ver umas cenas pegadas de luta. Um filme que de certa forma realiza alguns sonhos de muito maluco que nem eu.
Esse EP do Slime Girls foi a minha diversão crocante do final de semana. Entre uma GARFADA e outra de episódios de Top Of The Lake, dei play nessa belezinha. Fiquei viciado desde a primeira audição. Estou passando por uma fase meio intensa de surf music, desculpa, e nas minhas explorações dentro do gênero bati nesse EP. O que me chamou atenção mesmo foram as tags: electronic, ska, instrumental, surf, chip. Bela combinação. Não que eu seja um grande fã de chip como entretenimento pueo (como todo mundo da minha geração, cresci jogando videogame e tenho grande quilometragem nas audições de trilhas infinitas e repetitivas de oito, dezesseis e trinta e dois bits). Mas esse baita EP arrematou. Começa com uma guitarrinha massa, daí é uma sequência de músicas assoviáveis e irresistíveis. Emocionante às vezes. Excelente.
Ah bicho, que série. Que série (repetir por mais uma dúzia de vezes: que série). Ignorei por tempo demais as diversas recomendações que pipocaram sobre Top Of The Lake. Total e completa obliteração em cada episódio, seja pelatrama conduzida sem perdão, seja pelo cenário totalmente psicodélico que é região da Nova Zelândia onde a série se passa (fica gravado na cabeça: as cenas em Paradise, no lago, na subida para Laketop). Tem umas séries que buscam ser duronas a qualquer custo, mas no final todas vão acabar devendo para Top Of The Lake, que nem tem essa intenção, aliás. É apenas o jeito que saiu, ao que parece. Brutal.