Hawkeye, #01-11.

Antes do Maior Filme De Super-Heróis De Todos Os Tempos que foi o primeiro Avengers, não tinha muita gente que ligava para Clint Barton. Muito menos sabiam que ele é o Hawkeye (ou Gavião Arqueiro). Um eterno personagem secundário, dentro de um universo lotado de personagens estelares. Talvez justamente essa indiferença tenha dado liberdade para Matt Fraction e David Aja iniciarem uma série em quadrinhos que não precisava responder nada.

Não vou fingir que sei muito sobre o personagem dentro dos quadrinhos porque realmente não sei, acho que ele sempre meio que esteve lá, entre os Vingadores, entre alguns arcos maiores e tudo mais. Sempre existiu Hawkeye, nunca liguei muito. Ele tinha (e ainda tem) uma função secundária no universo spandex da Marvel e parece que sempre a cumpriu bem. Só que nessa versão do seu título próprio, Hawkeye não parece sequer habitar o mesmo universo que os X-Men.

Ele é Clint, um cara de vida pessoal azarada, que usa jeans e converse e passa horas demais trocando curativos. Faz parte dos vingadores, é milionário por conta disso – mas não é superpoderoso. Tem problemas demais com ex-mulheres, ex-namoradas e sua parceira de profissão, Kate Bishop (que nos quadrinhos já foi Hawkeye e meio que ainda é – quadrinhos são confusos, cara). Clint tenta levar os seus dias da melhor forma que dá. Só acontece que ele é um super-herói. E por isso, às vezes é difícil ter um dia de descanso decente. Ou saber como fazer coisas mundanas como desfazer uma mudança.

Há um efeito parecido com o que Alias (do Bendis e Gaydos) proporcionava, uma imersão fundamental que só o meio é capaz. Há uma empatia que se constrói entre os painéis, a risada que surge naquele meio segundo após ler o balão. Quando se acha que ela vai ser um tipo de história em quadrinho, ela vira outro tipo – mas sem experimentar a esmo. Ou talvez seja um experimento constante. Difícil acompanhar às vezes.

Matt Fraction e David Aja estão criando uma das histórias mais crocantes de se ler de todos os tempos. A arte de Aja é nada menos do que incrível em alguns momentos, dando vida ao roteiro de Fraction em painéis econômicos e certeiros. A edição que é narrada pelo um cachorro do Clint é praticamente um manual de como se fazer uma história em quadrinhos, é material para se usar como referência para a vida toda. Tem dias que tudo que tu precisas é de uma hq como essa.

Calvary, 2014.

O primeiro filme do John Michael McDonagh foi The Guard, que é basicamente um dos filmes mais engraçados que assisti. Foi um belo primeiro filme do diretor-roteirista. Calvary é o segundo dele, de novo com o Brendan Gleeson (que parece estar em tudo que é filme recentemente e meio que TUDO BEM). Não é tão engraçado quanto The Guard e talvez nem seja essa a intenção, pois acaba sendo um pouco mais exploratório, por assim dizer. É um filme autoconsciente, de passada lenta, mas não arrastada. Não chega a ser triste. É pragmático demais para se deixar entristecer. Gosta demais de brincar com seus personagens e suas situações para isso. Tem até o Dylan Moran. E todo filme com o Dylan Moran merece uma assistida. Bem que podia ser uma série.

Afflicted, 2013.

Tempos atrás fiz um top 5 de filmes found footage e caso tivesse assistido esse Afflicted, pelo menos colocaria nas menções honrosas. A primeira parte do filme é no estilo clássico de diário de pessoas normais que filmam tudo, já a segunda é um FPS de terror totalmente em chamas. Não dá pra falar muito do filme sem estragar muito as coisas, mas é um bom exemplo de que como subgênero, o found footage ainda tem algum espaço a ser explorado.

BONES – DeadBoy, 2014.

GANGSTA DE BRANCO JOVEM que assiste filmes de terror demais. Mantendo o ritmo que dificilmente passa dos três minutos por faixa, BONES vai lançando uma mixtape atrás da outra, de graça. Até os interlúdios propositalmente bregas, no clima de trilha sonora de churrascaria, meio que funcionam. As numerosas faixas vão passando e entre uma piada e outra, tu vais ficando com medo – ou se empolgando. BONES sabe o que está fazendo e parece que vai continuar por um bom tempo. Enquanto os blunts durarem e ele tiver um quintal para sentar e fazer sessões infinitas. Essas mixtapes talvez sejam a minha trilha sonora que eu nem sabia que existia.

Baths – Ocean Death EP, 2014.

Parece capa de banda de post-metal berrado mas na real é um EP eletrônico totalmente esmerilhante do Baths, que consegue ser pop e ambient ao mesmo tempo, depressivo e benevolente, leve e cheio de camadas (e dá pra ficar nessa por mais uma carrada de adjetivos paradoxais). É a primeira coisa que escuto dele e fui ler um pouco sobre e: parece que ele tem essa capacidade meio mítica de fazer música que te enterra ou te salva, dependendo do dia. Se a faixa de abertura já não te vencer completamente, tente outro dia. Vai rolar.

Only Lovers Left Alive, 2013.

Me sinto totalmente pretensioso e meio pau no cu ao afirmar que adorei cada segundo desse filme. Only Lovers Left Alive pode até ser sobre vampiros seculares que conversam sobre Tesla, astrofísica, botânica e viveram durante praticamente todos os movimentos culturais da humanidade. Mas creio que é sobre uma linha de tempo longa o suficiente para mostrar que poucas coisas são realmente imortais. Difícil não se apaixonar pelo casal, principalmente pelo romântico e suicida Adam (Hiddleston em brasa), que toca post-rock fúnebre, gravado em pornográficos aparelhos analógicos. Um filme delicioso para quem é nerd consigo mesmo (o jogo de Doutores que Adam faz com seu traficante de sangue) e que não costuma entender toda a humanidade (o desdém de Adam pela tecnologia que usamos). Filmes como esse são prêmios secretos para quem vive tempo demais consumindo tudo ao seu redor, decorando todos os detalhes e todas as nuances de tudo que lhe apetece. De nerd para nerd, com amor.

Regarde Les Hommes Tomber – ST, 2013.

O Regarde Les Hommes Tomber encontra-se em uma intersecção espetacular para mim: há o peso do black metal na bateria e vocais, o arrastar do post-metal sludgiano nas guitarras e o esmero do post-rock nas melodias. Ao mesmo tempo a banda que faz parte dos três estilos – mas acaba não sendo verdadeiramente de nenhum deles. Não que isso importe muito quando os fones são tomados pelo tornado sonoro deles. Um disco de sete faixas que, talvez por conta do meu baixo repertório musical, não encontra par em minha coleção. Desde aquele momento em que o baterista resolve soltar a caixa meio que do nada em Prelude, permitindo que as guitarras descasquem a melodia entre si enquanto a pedaleira come solta por trás – até o apocalipse distorcido de The Fall, que tem aquele baixo cavalar e andamento no estilo saltando-de-um-prédio-de-42-andares, é um disco imersivo, sufocante e benevolente ao mesmo tempo. Tenho ouvido incessantemente há uns dias, como é um encontrar uma nova banda favorita.

Bongripper – Miserable, 2014.

Bongripper fazendo o que faz melhor: doom lamaçento, tétrico, longo pra caralho, com aquela pegada de ir destruindo baquetas a cada batida. Miserable é mais um exercício em baixa rotação dos mestres, te puxando pra dentro do monstrengo da capa – aliás se liga na doença que é ela inteira – em três faixas que são divididas mais por comodidade técnica do que por tema, pois como sempre elas acabam sendo uma enorme sessão de doom monolítico só. Sempre preferi os momentos de LAVA CROCANTE do que os de drone da banda e esse disco fica mais a meu favor. Depois de dois bons splits (um com o Hate e outro com o Conan), esse é o primeiro disco inteiro deles desde o já mítico Satan Worshipping Doom (que é de 2010, pra tu veres como o tempo passa mesmo na terra do doom). Doom eterno.

Bugio + Hurtmold, CCSP.

O show da Bugio é muito parecido com o primeiro disco deles. Uma banda de baixo-bateria que ainda está na sua primeira fase, explorando diversos tons e territórios entre um acerto e outro. Nem tudo é bom, nem tudo é ruim. Nos momentos em que a riffzera começa a pegar a coisa fica interessante – todavia é uma banda anti-esporro. Por não explodir completamente, fica brigando contra a destruição o tempo todo. Também não abraça o drone incandescente (uma pena, pois um dos melhores momentos do show é quando o baixista resolve imitar um elefante com o baixo).

O Hurtmold entra sabendo exatamente que som quer tirar e esmerilha em cada e todo segundo. A improvisação é calculada e curtida, coisa de quem já meio que zerou o jogo e agora o joga para achar fases secretas. É provavelmente a maior e melhor banda de São Paulo de todos os tempos. Ouvia Hurtmold quando ainda nem morava aqui, imaginando que a cidade soava assim. Uma banda que pelo menos três discos perfeitos – e aquele split supremo com o Eternals, meu favorito quando penso em Hurtmold. O show demonstra tudo isso, há casca e há timbres perfeitos. Não há mais uma aura de novidade e talvez isso não seja necessariamente ruim. Baita show. Baita banda. Grande sentimento.

Echoes – The Pursuit, 2014.

Sou um emo de coração mole e dez vez em quando volto ao estilo (ou ao sentimento) com gosto. Esse The Pursuit tem sido meu porto-seguro neste belo ano de 2014 (apesar de ir mais para o lado post-metal). Lembra um pouco o Circa Survive, que já rodou muito em meus players durante caminhadas sentimentais por Pinheiros (ou seja: ficar caminhando de moletom com fone de ouvido fazendo biquinho). Todavia, Echoes é uma banda um pouco mais incisiva. Possui aquela característica que gostam de chamar de atmospheric (que na real é meio redundante já que TODA MÚSICA é atmosférica por natureza), com canções longas, cheias de momentos silêncio-barulho e vocal gritado que de vez em quando funciona pra caralho – e em outros momentos é meio constrangedor (tudo bem). Aliás, todos os clipes do Echoes são meio constrangedores e as canções soltas parecem não funcionar muito bem. Não é uma banda pra se compartilhar link avulso. É pra botar nos fones e curtir a fossa emo infinita, ficar de boa sofrendo em silêncio, essas coisas. BAITA CHORADEIRA BOA.