The Battery, 2012.

Seria mais um filme indie sobre broders que andam por aí fumando beques, bebendo cerveja, jogando baseball – se não fosse pelo fato de que existem zumbis andando pela terra. E meio que isso acaba com o rolê todo, na real. Mas ao mesmo tempo é para um deles a oportunidade para não tomar banho, matar uns monstrengos e viver selvagem por aí – enquanto para outro faz falta dormir em uma cama de verdade. Com orçamento claramente baixo, Jeremy Gardner escreve, dirige, produz e atua em The Battery, que consegue ter momentos massa aqui e ali. Um bom filme para tardes de sábado.

Yob – Clearing the Path to Ascend, 2014.

O Yob tem uma meia dúzia de discos que não ouvi antes de Clearing the Path to Ascend. Mas acho que de certa forma isso não importa. Porque quando esse disco começou a tocar, nem parecia que era uma banda feita por pessoas de verdade. Assim como Novit Enim Dominus Qui Sunt Eius do Abyssal, que parece ser o fruto de uma gravação de uma luta entre kaijus no fundo do mar, esse disco do Yob parece ser a gravação de um terremoto enorme rachando um continente ao meio. Não é um som que sequer parece ter sido concebido dentro de um estúdio. É doom no seu modo mais doom possível.

Moon Knight, #01-06.

Marc Spector é um cara com sérios problemas. Na real mesmo, ele é pirado. A história conta que ele morreu uma vez e o deus egípicio Khonshu o ressuscitou. Desde então, ele assume de vez em quando a identidade de Moon Knight – ao mesmo tempo que ainda tem mais outras duas personalidades. Moon Knight protege os viajantes noturnos de NY. Se veste todo de branco, ora num terno three-piece, ora numa armadura e capa, sempre auxiliado por um drone no formato de meia lua e uma limousine auto-dirigível.

Com Warren Ellis no roteiro, a Marvel relançou o Moon Knight (mais um personagem que não tinha lido nada antes de pegar essas edições). Foram seis edições com roteiro do Ellis, arte de Declan Shalvey e cores de Jordie Bellaire (a partir da #7, Brian Wood e Greg Smallwood assumem o título). Edições com arte cristalina, roteiro elegante e cores que vão do sóbrio ao explosivo com maestria.

Fica evidente que são três artistas calejados e talentosos pra caralho, aplicando um conjunto de habilidades muito específicas em uma história em quadrinhos. Estas seis edições de Moon Knight são como o primeiro disco do Interpol: auto-consciente, soturno e perfeito. Seja na edição com o sniper, ou na edição em que Moon Knight entra em um sonho psicodélico, os três mantém um auto-controle e foco nervoso.

Cada edição possui um tom e uma direção firme, um ritmo que nunca se excede – mas também não cai na armadilha monótona do pseudo-minimalismo. O efeito que a leitura proporciona é algo que certamente só poderia existir em formato de história em quadrinhos (por mais babaca que seja dizer isso justamente sobre uma hq); Em tempos onde tudo vira filme, disco, livro ou série de TV, é quase inusitado encontrar uma obra que explora sem limites o potencial do meio para qual foi criada.

The Strain, S01E01-07.

Tem vezes que a ignorância é uma benção. Não sabia que existia uma trilogia de livros do Del Toro, não sabia que tinha HQs. Apenas baixei o primeiro episódio da série e imediatamente vi que ia curtir. De certa forma desde quando bem moleque jogava Resident Evil e assistia remakes de Invasion of The Body Snatchers, eu comecei a fantasiar com apocalipses, infestações e qualquer coisa que me tirasse da escola e me colocasse na rua para viver ou morrer brigando com monstrengos. The Strain acessa exatamente essas minhas fantasias de moleque, pois é em NY, tem os personagens durões, as escolhas fatais e um mal tão grande que o mundo não vai ser o mesmo depois dele. É uma série totalmente exploitation e isso é bom, bom pra caralho. É preciso bem pouco pra me divertir, na real. Só precisa acabar o mundo.

Jodorowsky’s Dune, 2013.

Talvez o momento mais forte desse documentário seja quando o próprio Jodorowsky, relembrando quando deu tudo errado no projeto do seu filme (depois de anos em que tudo deu certo pra caramba), decide que o seu Dune é/foi nada mais do que um sonho. E como um sonho, não precisa ser realidade para ter um efeito duradouro. Sonhos são tão importantes quanto obras reais. Belo documentário, encantador e divertido como o próprio Jodorowsky – um broder em chamas constantes.

Hannibal, S01.

No mundo de Hannbial todo mundo se veste impecavelmente, combinando tecidos e tons com harmonia. A casa de todos os personagens é de uma sobriedade clássica, opulenta – todavia autêntica. No mundo de Hannibal, a psicologia a e terapia são armas letais, capazes de alterar mentes e guiar ações com detalhismo surreal. No mundo de Hannibal, todo jantar que ele prepara é uma refeição complexa extraída de um menu estrelado. Por ser uma série que segue moldes clássicos de Série De Crime, há claras limitações e incontáveis malabarismos de narrativa. Ignorando um pouco isso, é uma ótima série. Possui um universo próprio, o que já é um ótimo diferencial. E Hannibal é fatal. Mads Mikkelsen parece ter nascido pra esse papel, pra usar aquelas gravatas, cozinhar ao som de Handel e falar daquele jeito metafórico fatal. É como um bom filme de horror: tu até sabes para onde ele vai te levar, mas não por isso que a o caminho até lá não vai ser interessante.

Mouse On The Keys, Sesc Pompéia.

Isso aconteceu. Mais um show da longa Lista de Show Que Pensei Que Nunca Assistiria. Até porque o Mouse on The Keys tem um só disco e um par de EPs. Em 2009 eu ouvia o An Anxious Object e lia resenhas no finado The Silent Ballet sem nem cogitar assistir o trio ao vivo. E bem, aconteceu. Que tremendo show, uma saraivada incansável de pianera nervosa, de bateria frenética e empolgante, que fazia tu querer aprender a tocar bateria imediatamente. Foi um show de jazz que no sentimento era punk (tanto que o baterista cometeu stage dive algumas vezes e tudo). Os japoneses estavam completamente no controle do ambiente. Que show. Como é bom estar vivo.

Hawkeye, #01-11.

Antes do Maior Filme De Super-Heróis De Todos Os Tempos que foi o primeiro Avengers, não tinha muita gente que ligava para Clint Barton. Muito menos sabiam que ele é o Hawkeye (ou Gavião Arqueiro). Um eterno personagem secundário, dentro de um universo lotado de personagens estelares. Talvez justamente essa indiferença tenha dado liberdade para Matt Fraction e David Aja iniciarem uma série em quadrinhos que não precisava responder nada.

Não vou fingir que sei muito sobre o personagem dentro dos quadrinhos porque realmente não sei, acho que ele sempre meio que esteve lá, entre os Vingadores, entre alguns arcos maiores e tudo mais. Sempre existiu Hawkeye, nunca liguei muito. Ele tinha (e ainda tem) uma função secundária no universo spandex da Marvel e parece que sempre a cumpriu bem. Só que nessa versão do seu título próprio, Hawkeye não parece sequer habitar o mesmo universo que os X-Men.

Ele é Clint, um cara de vida pessoal azarada, que usa jeans e converse e passa horas demais trocando curativos. Faz parte dos vingadores, é milionário por conta disso – mas não é superpoderoso. Tem problemas demais com ex-mulheres, ex-namoradas e sua parceira de profissão, Kate Bishop (que nos quadrinhos já foi Hawkeye e meio que ainda é – quadrinhos são confusos, cara). Clint tenta levar os seus dias da melhor forma que dá. Só acontece que ele é um super-herói. E por isso, às vezes é difícil ter um dia de descanso decente. Ou saber como fazer coisas mundanas como desfazer uma mudança.

Há um efeito parecido com o que Alias (do Bendis e Gaydos) proporcionava, uma imersão fundamental que só o meio é capaz. Há uma empatia que se constrói entre os painéis, a risada que surge naquele meio segundo após ler o balão. Quando se acha que ela vai ser um tipo de história em quadrinho, ela vira outro tipo – mas sem experimentar a esmo. Ou talvez seja um experimento constante. Difícil acompanhar às vezes.

Matt Fraction e David Aja estão criando uma das histórias mais crocantes de se ler de todos os tempos. A arte de Aja é nada menos do que incrível em alguns momentos, dando vida ao roteiro de Fraction em painéis econômicos e certeiros. A edição que é narrada pelo um cachorro do Clint é praticamente um manual de como se fazer uma história em quadrinhos, é material para se usar como referência para a vida toda. Tem dias que tudo que tu precisas é de uma hq como essa.

Calvary, 2014.

O primeiro filme do John Michael McDonagh foi The Guard, que é basicamente um dos filmes mais engraçados que assisti. Foi um belo primeiro filme do diretor-roteirista. Calvary é o segundo dele, de novo com o Brendan Gleeson (que parece estar em tudo que é filme recentemente e meio que TUDO BEM). Não é tão engraçado quanto The Guard e talvez nem seja essa a intenção, pois acaba sendo um pouco mais exploratório, por assim dizer. É um filme autoconsciente, de passada lenta, mas não arrastada. Não chega a ser triste. É pragmático demais para se deixar entristecer. Gosta demais de brincar com seus personagens e suas situações para isso. Tem até o Dylan Moran. E todo filme com o Dylan Moran merece uma assistida. Bem que podia ser uma série.

Afflicted, 2013.

Tempos atrás fiz um top 5 de filmes found footage e caso tivesse assistido esse Afflicted, pelo menos colocaria nas menções honrosas. A primeira parte do filme é no estilo clássico de diário de pessoas normais que filmam tudo, já a segunda é um FPS de terror totalmente em chamas. Não dá pra falar muito do filme sem estragar muito as coisas, mas é um bom exemplo de que como subgênero, o found footage ainda tem algum espaço a ser explorado.