The Raid 2: Berandal, 2014.

No primeiro The Raid, o diretor Gareth Evans tinha a vontade e a visão para fazer um grande filme de artes marciais, apresentando o pencak silat ao mundo da forma brutal (jamais esquecer o primeiro filme sobre o estilo, que é do Evans também: o eterno Merantau). Mas longe de ser um filme refinado. Havia apenas intenção, que esbarrava em uma ou outra limitação técnica e um roteiro que ansiava por cenas e mais cenas de lutas (o que não pode ser interpretado diretamente como algo ruim, sempre). Em sua continuação, há mais orçamento, refinamento, uma capacidade técnica mais robusta. The Raid 2 é um filme que nasceu diretamente da visão do primeiro – e por causa do seu sucesso. É um filme de artes marciais para apaixonados por filmes artes marciais, que cresceram grudados em TVs de tubo assistindo fitas VHS toscas e mal dubladas de filmes asiáticos. Nas duas horas e meia de filme, fica a impressão que que o diretor resolveu realizar todos os sonhos de um moleque que cresceu assistindo filmes de artes marciais, imaginando cada vez mais cenas de luta imediatamente após assistir um filme impressionante. Dá pra listar a Cena do Banheiro Na Prisão, a Cena da Briga Na Lama, a Cena da Luta Dentro do Carro, a Cena do Metrô, a Cena da Boate e a brutalmente linda Cena da Cozinha como realizações extraídas da mente de um viciado de filmes de artes marciais. Sem contar os personagens, que também são saídos desse mesmo imaginário: A Mina Que Luta Com Dois Martelos, o Assassino Do Terçado, o Cara Do Taco e Bola de Baseball e o Capanga Das Lâminas Dentadas. Um filme cadenciado, que se dá tempo para criar suas cenas, não se atropela e consegue evitar a intenção mortal e falida de elevar filmes de artes marciais ao status de arte. Aqui o negócio é MUITA CABEÇADA EM QUINA e COTOVELADA NA CLAVÍCULA. Um filme gore que vai vender milhões de DVDs piratas pelo mundo pra sempre, que vai ser obrigatório para todo moleque de onze anos que curte ver umas cenas pegadas de luta. Um filme que de certa forma realiza alguns sonhos de muito maluco que nem eu.

Slime Girls – Vacation Wasteland EP, 2013.

Esse EP do Slime Girls foi a minha diversão crocante do final de semana. Entre uma GARFADA e outra de episódios de Top Of The Lake, dei play nessa belezinha. Fiquei viciado desde a primeira audição. Estou passando por uma fase meio intensa de surf music, desculpa, e nas minhas explorações dentro do gênero bati nesse EP. O que me chamou atenção mesmo foram as tags: electronic, ska, instrumental, surf, chip. Bela combinação. Não que eu seja um grande fã de chip como entretenimento pueo (como todo mundo da minha geração, cresci jogando videogame e tenho grande quilometragem nas audições de trilhas infinitas e repetitivas de oito, dezesseis e trinta e dois bits). Mas esse baita EP arrematou. Começa com uma guitarrinha massa, daí é uma sequência de músicas assoviáveis e irresistíveis. Emocionante às vezes. Excelente.

Top Of The Lake, S01.

Ah bicho, que série. Que série (repetir por mais uma dúzia de vezes: que série). Ignorei por tempo demais as diversas recomendações que pipocaram sobre Top Of The Lake. Total e completa obliteração em cada episódio, seja pelatrama conduzida sem perdão, seja pelo cenário totalmente psicodélico que é região da Nova Zelândia onde a série se passa (fica gravado na cabeça: as cenas em Paradise, no lago, na subida para Laketop). Tem umas séries que buscam ser duronas a qualquer custo, mas no final todas vão acabar devendo para Top Of The Lake, que nem tem essa intenção, aliás. É apenas o jeito que saiu, ao que parece. Brutal.

Tim’s Vermeer, 2013.

Faz um bom tempo que acompanho as coisas que Penn & Teller produzem, mais porque eles parecem ser enormes nerds com muitos recursos do que outra coisa. Peguei esse documentário, produzido pelos dois e dirigido pelo Teller – e de certa forma teve o mesmo efeito que aquele sobre o Ricky Jay: pura imersão, detalhismo delicioso, necessário. Um foco em um assunto que à primeira vista poderia ser bastante chato. É sobre um nerd, é sobre um mestrão pintor holandês, mas principalmente é sobre fazer as coisas que queremos fazer, seja no caso do Vermeer, do Tim ou do Penn & Teller. Cultura DIY eterna.

Habibi – Habibi, 2014.

Ouvi algumas vezes com o repeat ligado esse primeiro disco da Habibi, e o Head In The Dirt do Hanni El Khatib. Dois discos crocantes e curtinhos – bons pra se deixar tocando um par de vezes, sem nem reparar que já acabaram e começaram de novo. O primeiro da Habibi é ainda mais legal porque tem uma vibe lo-fi e pop mais pegada, cheio de bons refrões e letras engraçadas. Sempre bom ouvir corinhos e solos de guitarra. Boa banda.

Enemy, 2013.

Denis Villeneuve como mestre da desolação. Em 2013 entregou dois filmes prontos para desestruturar tua tranquilidade. Prisoners foi o mais direto, mais brutal. Apresentou um Jake Gylenhaal dirigido perfeitamente. Enemy é um pouco diferente, adaptando o romance de Saramago, conduzido com esmero e sem muitos erros clássicos de adaptações. Jake esmerilha muito. Detalhista e minimalista ao mesmo tempo. Talvez seja o destino de adaptações literárias sempre falharem, mas que pelo menos falhem mais como Enemy.

Albinö Rhino – Albinö Rhino, 2014.

Olhei essa capa e já deu pra saber que esse som seria grosso, o mais baixo possível, fincado no grave – e assim que começou a tocar The Forest Prevails, fui sucumbindo aos poucos a cada virada de riff, ficando preso sob uma camada de drone stoner que ganhava cada vez mais corpo, mais peso, ficando mais GRUDENTO e MELADO. Completo arrastão sensorial orquestrato por um trio finlandês. No final do disco, dá pra sentir o cheiro desse PEDRÃO aí da capa (baita nome de banda, aliás).

Serpent Throne – Ride Satan Ride, 2007.

A frase que melhor resume o Serpent Throne é: We don’t need a singer because he’ll just get in the way of the riffs. Tinha ouvido o quarto disco deles em 2013, Brother Lucifer, e curti – mas senti que precisava dar um passo atrás. Era o quarto disco, o som já estava indo por outros caminhos. Peguei recentemente esse primeiro, Ride Satan Ride e MASQUEI cada faixa com vontade. Experiência muito superior ao quarto disco, esse debut é pura casca de pizza em forma de riffs e solinhos intercalados. O tom de filme estradista também me agradou demais. Agora tou pronto para fazer o caminho até o quarto disco de novo. Antes, só mais algumas dezenas de rotações desse Ride Satan Ride.

Joe, 2013.

Em 2013 o David Gordon Green entregou dois filmes em um tom bem diferente das suas comédias anteriores: Prince Avalanche, um remake de um filme Islandês, com trilha jovial do Explosions In The Sky e Paul Rudd de bigode – que foi bem massa, grandes cenas intercaladas por momentos de excruciante minimalismo e lentidão. O outro foi esse Joe. A cenografia é fatal, com muita coisa pra se explorar na tela, o roteiro é nos moldes estou-assistindo-um-acidente-de-carro-forma-de-filme e nada muito além do esperado acontece, mas assim como Prince Avalanche, tem seus momentos. Lembra um pouco o excelente Mud.

Zulu AKA City of Violence, 2013.

Dia desses assisti o Anthony Zimmer, o bacanoso primeiro filme do frânces Jerôme Salle (nem me liguei na hora que tinha assistido muito antes o remake dele, o bobo The Tourist, com o Depp e a Jolie). Fiquei curioso com o diretor e peguei o Zulu, do ano passado. Lembra um pouco Tropa de Elite na forma como a brutalidade escala rapidamente, deixando poucos reféns e muitas vítimas. África do sul em modo trata pura. Até o Orlando Bloom consegue ir além da sua casca hollywoodiana e entrega uma bela performance. As cenas finais são muito bonitas, fechando o filme em um tom totalmente desolador. Um dos roteiristas é o Julien Rappeneau, que também foi roteirista em 36, que considero um dos melhores filmes policiais de todos os tempos.