3 Toneladas AKA The Great Robbery Of Brazil’s Central Bank, 2022.

O cara percebe que nem conhece o próprio país. Primeiro pois o jeito que os polícia falam nesse documentário é algo de especial: dos civis, aos estaduais e federais, aos agentes especiais e peritos, cada um usa a língua portuguesa de uma forma específica e comumente fatal. As regionalidades são achatadas quase sempre, mas ainda presentes ali, de forma até divertida, quase fascinante (descontado a galera do jurídico, que nossa senhora como é terrível ouvir grande parte do que falam). Tudo bem que isso só pode ser interessante pra mim por estar há muitos anos não convivendo com essa língua. Segundo que como é treta o br, né. Aqueles momentos pós-prisão, onde polícia e suspeitos trocam ideia livremente, é coisa que não existe, velho. Não dá pra escrever essa ficção. Os caras sendo preso em Porto Alegre, jogados na calçada garroteados – ou os caras posando ao lado de agentes especiais em algum rancho no sertão do Ceará, fazendo aquela cara de “putz fui preso”. Bruto demais. A treta é infinita. O caso em si é um clássico já (feliz em ver o Roger aparecendo, sendo reconhecido pelo seu excelente livro Toupeira), e não apresenta nada de novo além de uma narrativa mais amarrada. O documentário realmente brilha em mostrar as camadas de polícia, criminosos e toda sorte de envolvidos que se conectam em algum momento ao caso, dando breves, mas importantes, relampejos de como se forma a o br, esse país imenso e impossível.

The Night House, 2020.

Luto como portal para alucinações, sonambulismo e uma vida solitária alienante. Os filmes do David Bruckner são excelentes construções de monstros de filme de horror, e nesse ele abusa de uma espécie de trompe-l’oeil digital para aos poucos nos apresentar uma presença maligna brutal. Mas há outras camadas de treta, sutis e sem muita resolução (a porta para “é tudo uma alucinação apenas” é aberta algumas vezes). Rebeca Hall está excelente como uma pessoa naturalmente antipática e irritante, dureza de simpatizar mas ao mesmo tempo interessante. Luto é um troço complicado.

Tokyo Vice, S01E01.

Usando as memórias do repórter Jake Adelstein, um broder do Missouri que se tornou o primeiro gaijin a trabalhar num dos maiores (senão o maior na época) jornais do Japão (senão do mundo) como base, Tokyo Vice é basicamente feito para patos como eu: Michael Mann dirige o primeiro episódio, a Tóquio é aquela em plena ressaca pós-bonança dos 80s e tem o Ken Watanabe. Porra, é meio covardia até. Tem uma cena do Jake andando pela imensa redação do jornal que é um pequeno delírio nerd. Tem a presença inescapável de uma Yakuza altamente organizada e ritualística. Jake passa os seus dias estudando japonês e recortando reportagens de jornais, levando uma surra em Aikido, mandando ver num rango de Izakaya e sendo no geral um gaijin em total imersão numa cidade infinita. Bagulho bom.

Ku bei AKA The Sadness, 2021.

De zero à trezentos quilômetros por hora em alguns minutos. Um brutal espetáculo sadista de desgraceira tropical apocalíptica em pura forma gore. Um grand guignol vindo direto de Taiwan, que me dá aquela sensação massa de que há horror podre de alta qualidade a ser descoberto em vários países (tipo aquela sensação que o coreano Train To Busan deu, ou o japonês One Cut Of The Dead). Talvez seja o mais próximo que Crossed de Garth Ennis chegará a virar filme. Algumas cenas me fizeram dar aquela característica viradinha de cara, coisa que não fazia há muito. Ah, nada como ser fã de horror. Várias cenas são esteticamente lindas e repulsivas ao mesmo tempo, em uma espécie de balanço improvável entre técnica e desregramento grindcore.

Winning Time: The Rise Of The Lakers Dynasty, S01E04.

Uma doidera. Tem John C. Reilly em completas chamas ostentando um comb over criminoso, narração em off, quebra de quarta parede, inserts documentais, animação, gráficos pipocando na tela, cenas que parecem filmadas em câmera 8mm, outras em um digital-analógico meio torto, uma tonelada de personagens e atores que parece não terminar (não sabia nada sobre essa série quando comecei a assistir, daí pá Adrien Brody, pá Jason Segel etc). Quando saquei que é produção do Adam McKay, ficou meio óbvio até. Tenho me divertido pra cacete com os episódios dessa série. É um pacote inesgotável de piadas, referências e personagens encantadores. Puro suco de EUA nos 80s. Talvez o efeito seja mais intenso pois não sei muito sobre essas pessoas e esse período do basquete, só meio por cima. Ser jogado no meio das engrenagens daquela época dessa forma é um prazer.

Atlanta, S03E02.

Quando Darius diz que “This city is my Jesus”, sentado na beira de um canal de Amsterdam com um clássico joint holandês aceso, basta balançar a cabeça e concordar. Sempre tive forte respeito por Atlanta, uma série que evolui de forma surpreendente desde a sua primeira temporada. Todavia, sempre senti um desconforto característico, como se o que fosse retratado ali não fosse realmente pra mim. Não pra eu entender e tal. Talvez alguma coisa no senso de humor dos personagens sempre me deixou meio desconfortável. É como estar na roda de amigos e não entender algumas piadas e referências não por ignorância, mas por não saber o que eles querem dizer com aquilo de fato. Talvez seja pra ser assim (tudo bem). Entender é um luxo.

Billions, S05E10.

Tinha deixado episódios de Billions acumular, meio que de propósito (essa série sempre foi divertida demais e ter que esperar entre um episódio e outro quebra o sentimento). Não estava preparado paras as mudanças que acontecem da quinta pra sexta temporada. Personagens vão e vem, alguns entram e ficam. Os episódios começam a ficar esquisitos, de uma forma interessante. Nesse S05E10 tem uma cena de uns cinco minutos sem diálogo em que o Paul Giamatti faz uns ovos mexidos. Uma espécie de homenagem à Big Night. Lá no S06E04 aparecem uns cards ao lado dos personagens, mostrando o quanto eles estão vestindo/usando em seus fits do dia (Wendy obliterando tudo e todos com seu corte de cabelo de 800 doláres). Tem um momento bem Miami Vice em que Axe e Wendy encenam um possível futuro (romantismo descarado fundamental). Pra uma série que já está há mais de meia década no ar, nada mau. Continue esquisita, Billions.

Black Summer, S02.

Certa vez, uma ex me disse algo como “Você não é um niilista intelectual, é um niilista instintivo e, portanto, irrefutável”, ela estava anos-luz de mim nessa afirmação (aliás sempre esteve em tudo). Demorei para entender o que ela queria dizer. Tava assistindo essa segunda temporada de Black Summer, que passou completamente batida pelo meu radar ano passado, mesmo que eu tenha curtido e recomendado demais a primeira temporada. Minha série minimalista de zumbi favorita. Ou: meu tipo de niilismo em forma de série de zumbi minimalista. O sentimento da primeira temporada ainda está aqui: a cena de abertura é um exercício em desgraceira, que te joga em um mundo onde o apocalipse aconteceu há uns seis meses e quem sobrou é tudo zoado da cabeça. Nos últimos dois anos brinquei que a Pandemia Global foi um dos mais entediantes fim do mundo. Mas queria passar longe (ou: não duraria muito) no fim do mundo que Black Summer apresenta. Tudo que funcionou na primeira temporada tá aqui: alguns personagens são os mesmos, algumas situações até parecidas. A série expande em outros pontos importantes (um deles sendo que mesmo com um fuzil automático, um zumbi furioso é um alvo quase impossível, outro sendo que conflitos armados entre pessoas em um mundo onde existem zumbis são um dos mais terríveis momentos do cosmos). O niilismo bruto, galopante e óbvio (irrefutável) de Black Summer é talvez o que me faz mais gostar dessa série. Decisões bad trip são tomadas em quase todos os episódios, numa roleta-russa intensa, triste e inescapável.

jeen-yuhs: A Kanye Trilogy, 2022.

Por um período de tempo, ali naqueles primeiros anos em que me introduzi ao hip-hop, achei que Kanye era um artista que demoraria para eu realmente entender. Havia algo de indescritível e ilimitado em discos como My Beautiful Dark Twisted Fantasy. Um comentário brutal sobre si mesmo, sobre o estado da música e da cultura naquele 2010. Hoje em dia, Ye encontrou seus próprios limites. Não que isso seja ruim, acontece com bastante frequência aliás. Ainda acredito que em vários momentos ele estava fatalmente antecipando tendências e momentos culturais com precisão anormal. Assistir jeen-yuhs é quase uma experiência masoquista: difícil acompanhar um artista em ascensão que não consegue ainda materializar a sua arte nos seus próprios termos – apesar dele só falar sobre isso. A frustração de Ye em não ser quem acha que deve ser é aparente. Chega a irritar, quem é esse cara pra se achar tudo isso? Aí o documentário pula alguns anos e nos entrega Kanye West full power: ele chegou lá. Aí que desanda. Difícil especular o que Ye estava tentando alcançar, mas é evidente que ele chegou lá e pagou um preço por isso. O documentário vira um filme triste, confuso, repetitivo. Mostra que os limites de Ye foram antecipados por ele mesmo, quase que inconscientemente.

The Batman, 2022.

Não estava tendo um dia muito bom. Viver em um inverno infinito tem seus momentos baixos. Quase cancelei o ingresso, só pra ficar na minha. Mas acabei indo, me empurrando para algumas horas de entretenimento multimilionário apenas pra ver o que sentia. Não estava preparado para um Batman que se sentia tão merda e tão solitário quanto eu. Talvez seja o primeiro filme do personagem que tem narração em off. Talvez seja o primeiro filme que nos apresenta o Batman Deprê tão comum nas HQs. Bruce está no seu segundo ano como vigilante, vivendo em uma noite infinita, entrando e saindo de foco quando pensa nas consequências do que faz, ouvindo Nirvana todo soturno na Bat Garagem (entendo). Dolorido, falando baixo, quase murmurando, deficiente em vitamina D e ainda levando umas porradas bem dadas. A vida de um bilionário vigilante é uma dureza. O filme é de uma estética inclemente, trazendo a Gotham gótica em todo o seu esplendor. É como se os filmes do Tim Burton tivessem cruzado com alguns do Scorsese. Batman ainda não se tornou um mito, caminha entre as pessoas como se nada tivesse acontecendo, dirige veículos arromba-ouvido, leva tiro no peito como se fosse essa a intenção. Metal pesado. O broder tá tentando reverter o fluxo da cachoeira na base do soco. Apesar da melancolia grudenta de Bruce, o filme todo se desdobra mais como uma ode à Gotham, uma cidade suja, cheia de obras abandonadas, passando por uma temporada de chuva que parece não querer terminar. As cenas que usam o anoitecer/amanhecer como pano de fundo são muito bonitas, assim como o som distinto dos passos do Batman em algumas cenas, ou a textura do couro que a Selina usa. Por momentos, esqueci completamente do Riddler e suas tretas. O filme sucede em ser um ataque sensorial, usando ruído, escuridão e silhuetas para se firmar. Não me senti tão melhor quando o filme acabou, mas gostei de ter ido.