The Batman, 2022.

Não estava tendo um dia muito bom. Viver em um inverno infinito tem seus momentos baixos. Quase cancelei o ingresso, só pra ficar na minha. Mas acabei indo, me empurrando para algumas horas de entretenimento multimilionário apenas pra ver o que sentia. Não estava preparado para um Batman que se sentia tão merda e tão solitário quanto eu. Talvez seja o primeiro filme do personagem que tem narração em off. Talvez seja o primeiro filme que nos apresenta o Batman Deprê tão comum nas HQs. Bruce está no seu segundo ano como vigilante, vivendo em uma noite infinita, entrando e saindo de foco quando pensa nas consequências do que faz, ouvindo Nirvana todo soturno na Bat Garagem (entendo). Dolorido, falando baixo, quase murmurando, deficiente em vitamina D e ainda levando umas porradas bem dadas. A vida de um bilionário vigilante é uma dureza. O filme é de uma estética inclemente, trazendo a Gotham gótica em todo o seu esplendor. É como se os filmes do Tim Burton tivessem cruzado com alguns do Scorsese. Batman ainda não se tornou um mito, caminha entre as pessoas como se nada tivesse acontecendo, dirige veículos arromba-ouvido, leva tiro no peito como se fosse essa a intenção. Metal pesado. O broder tá tentando reverter o fluxo da cachoeira na base do soco. Apesar da melancolia grudenta de Bruce, o filme todo se desdobra mais como uma ode à Gotham, uma cidade suja, cheia de obras abandonadas, passando por uma temporada de chuva que parece não querer terminar. As cenas que usam o anoitecer/amanhecer como pano de fundo são muito bonitas, assim como o som distinto dos passos do Batman em algumas cenas, ou a textura do couro que a Selina usa. Por momentos, esqueci completamente do Riddler e suas tretas. O filme sucede em ser um ataque sensorial, usando ruído, escuridão e silhuetas para se firmar. Não me senti tão melhor quando o filme acabou, mas gostei de ter ido.

Verdens Verste Menneske AKA The Worst Person in the World, 2021.

O trabalho do Joachim Trier sempre me chamou atenção, aliás, pesado pensar que Reprise é de 2006 (um século atrás). Onde estava quando assisti esse filme? Acho que ainda na faculdade em Belém. Experimentando a vida de uns nórdicos meio ricos em Oslo. The Worst Person in the World revisita temas dos seus primeiros filmes, mas sem pesar muito no intelectualismo. É um filme que se expande sozinho, demonstra uma vida própria, criado por alguém experiente. Cheio de atores interessantes e cenas lindas. A vida, mesmo em um dos cantos mais ricos e prósperos do mundo, ainda é a mesma coisa para todos nós. Mesmo que em alguns momentos o drama não seja muito além de um conjunto de escolhas bem aceitáveis. Renate Reinsve é possivelmente a maior paixão cinematográfica dos últimos tempos junto com Alana Haim e o filme é repleto de momentos que doem demais para quem está na mesma faixa etária dos personagens do filme. Mas assopra também: uma risada, um novo olhar, um novo dia. Ninguém sai ileso.

Messa – Close, 2022.

Aí sim papai. É disso que sou feito. Um dos efeitos colaterais de ter me criado ouvindo o clássico roquenrol, metal tr00 e inevitavelmente galões e galões de fuzz do nosso stoner de cada dia é que: aos trinta e cinco, meus ouvidos estão cansados. Difícil um disco de roque me empolgar de verdade hoje em dia (naquele sentimento Like A Virgin, geralmente acontece com discos mais extremos ou raras surpresas tipo aquele primeiro do FIDLAR, só pra dizer que não sou um total eremita fechadão). Mas tudo isso à parte, o Messa abre 2022 com um belo disco, que possivelmente morará nos meus players durante o ano todo (e que capa!). DOOOOOOOM :: https://messaproject.bandcamp.com/

Burial – Antidawn, 2022 [EP].

Desde Untrue (de 2007), o Burial não fez algo que eu curtisse muito. Não que seus trampos sejam ruins, mas a beleza incompleta e assombrada de Untrue foi tamanha, que eu sempre ouvia algo novo dele e ficava pensando porra não bateu aquele sentimento. Acho que era mais eu do que o Burial mesmo. Talvez eu precisasse ser mais paciente, talvez essa fosse a lição. Esse EP, Antidawan, tem sido o meu escudeiro em manhãs congeladas, dias de pouco sol e a trilha sonora perfeita para uma vida que sempre quis ter e estou tendo. O presente é um lugar massa. Mas utilizo as palavras do mago Warren Ellis para descrever melhor o EP: “Burial has often been about a solitary outsider’s experience of music, culture, its memory and its remains. But ANTIDAWN feels to me like the loneliest thing he’s ever done. It’s sitting on your own listening to the radio in the dark. It’s standing alone by the river at night while life and music pulses away a mile behind your back.” :: https://burial.bandcamp.com/album/antidawn-ep

Nightmare Alley, 2021.

Um primeiro ato encantador, bonito até o osso. Um segundo ato meio naquelas e um terceiro ato que é completamente roubado por Cate Blanchett (como sempre deveria ser). O delírio cinematográfico que é esse filme é coisa que somente o Del Toro consegue fazer hoje me dia, aparentemente. Alguns cenários são intrincados, vindo direto de um passado que não sei se existiu dessa forma. Mas se existiu, que doidera absoluta. É um bom filme, mas fica algo faltando, por mais que sua beleza tente nos distrair.

Clean, 2022.

Já vimos esse filme pelo menos meia dúzia de vezes. Cara comete/sofre eventos terríveis, escolhe reclusão e vira o clássico Broder Quieto Com Passado Desconhecido, até que é forçado a reviver esse passado para proteger o seu presente. Notei que Brody faz a trilha sonora desse filme, além de escrever o roteiro. Um projeto de paixão, como dizem os gringos. Há um certo esmero que transparece nas cenas, mesmo que o tutano seja insípido. Talvez a melhor forma de ver esse filme é notando que alguns loops são escolha pessoal, mesmo que não pareça. Em certo momento, o barbeiro e sponsor de Brody diz que “não querer falar sobre seus problemas é uma escolha tão válida quanto querer falar sobre”.

Licorice Pizza, 2021.

Um forte raio de sol da manhã que atravessa a tela. É como visitar memórias alheias em forma de filme. Acho que passei o filme inteiro com um sorriso aberto no rosto, embriagado pelo grão da cópia em 70mm que tive o privilégio de assistir, pensando que de certa forma eu já vivi aquilo ali. Um sentimento impossível, claro. Mas de que serve filmes como esse se não para justamente para isso? Bicho, como eu sorri. Gargalhei. Que vida excelente. Os ecos de Licorice Pizza em minha própria história são inescapáveis (minha primeira namorada era dez anos mais velha que eu – e eu tinha mais ou menos a idade do Gary quando a conheci), o amor pelo cinema também, assim como a predisposição para o romantismo descarado, singelo e imediato que PTA insere em seus filmes. Quando Alana solta um “idiot” para Gary no final do filme, estalou em minha cabeça: eu acho que já vivi isso aí. Essa ficção já foi a minha realidade, ou vice-versa.

Loose Ends.

Nas notas finais da edição de Loose Ends que li, o roteirista Jason Latour conta que essa HQ quase matou os seus criadores. Por uma década, eles tentaram fazer algo que muitos consideravam equivocado, impossível ou simplesmente errado. Ainda bem que essa luta foi vencida pelos criadores, pois Loose Ends preenche um lugar especial nas HQs modernas. A composição de páginas, o ritmo fragmentado e constante, as cores que explodem sem perdão. É um trabalho minucioso, impressionante e essencial em seu próprio mérito. Em alguns momentos, fica a impressão “nem sabia que dava pra fazer hq assim”. Sinal de que estás lendo algo que possui a sua própria verdade.

Archive 81, S01E03-08.

Salvo alguns momentos menores (culpa do elenco irregular), essa temporada foi muito boa. A progressão da narrativa acabou por me prender, mesmo que não tenha ficado esquisito de verdade. Bem massa esse lance de utilizar vídeo como código-chave para interseccionar dimensões. O tipo de coisa que curto demais. Sou fã da antologia de horror V/H/S, e Archive 81 encaixa bem nessa categoria. É como um spin-off mais sério e menos gore. Se o tempo é um círculo plano, como diria Rust Cohle, os acontecimentos dessa série fazem sentido e se tornam até óbvios. Tudo é uma questão de observação.