Burial – Antidawn, 2022 [EP].

Desde Untrue (de 2007), o Burial não fez algo que eu curtisse muito. Não que seus trampos sejam ruins, mas a beleza incompleta e assombrada de Untrue foi tamanha, que eu sempre ouvia algo novo dele e ficava pensando porra não bateu aquele sentimento. Acho que era mais eu do que o Burial mesmo. Talvez eu precisasse ser mais paciente, talvez essa fosse a lição. Esse EP, Antidawan, tem sido o meu escudeiro em manhãs congeladas, dias de pouco sol e a trilha sonora perfeita para uma vida que sempre quis ter e estou tendo. O presente é um lugar massa. Mas utilizo as palavras do mago Warren Ellis para descrever melhor o EP: “Burial has often been about a solitary outsider’s experience of music, culture, its memory and its remains. But ANTIDAWN feels to me like the loneliest thing he’s ever done. It’s sitting on your own listening to the radio in the dark. It’s standing alone by the river at night while life and music pulses away a mile behind your back.” :: https://burial.bandcamp.com/album/antidawn-ep

Nightmare Alley, 2021.

Um primeiro ato encantador, bonito até o osso. Um segundo ato meio naquelas e um terceiro ato que é completamente roubado por Cate Blanchett (como sempre deveria ser). O delírio cinematográfico que é esse filme é coisa que somente o Del Toro consegue fazer hoje me dia, aparentemente. Alguns cenários são intrincados, vindo direto de um passado que não sei se existiu dessa forma. Mas se existiu, que doidera absoluta. É um bom filme, mas fica algo faltando, por mais que sua beleza tente nos distrair.

Clean, 2022.

Já vimos esse filme pelo menos meia dúzia de vezes. Cara comete/sofre eventos terríveis, escolhe reclusão e vira o clássico Broder Quieto Com Passado Desconhecido, até que é forçado a reviver esse passado para proteger o seu presente. Notei que Brody faz a trilha sonora desse filme, além de escrever o roteiro. Um projeto de paixão, como dizem os gringos. Há um certo esmero que transparece nas cenas, mesmo que o tutano seja insípido. Talvez a melhor forma de ver esse filme é notando que alguns loops são escolha pessoal, mesmo que não pareça. Em certo momento, o barbeiro e sponsor de Brody diz que “não querer falar sobre seus problemas é uma escolha tão válida quanto querer falar sobre”.

Licorice Pizza, 2021.

Um forte raio de sol da manhã que atravessa a tela. É como visitar memórias alheias em forma de filme. Acho que passei o filme inteiro com um sorriso aberto no rosto, embriagado pelo grão da cópia em 70mm que tive o privilégio de assistir, pensando que de certa forma eu já vivi aquilo ali. Um sentimento impossível, claro. Mas de que serve filmes como esse se não para justamente para isso? Bicho, como eu sorri. Gargalhei. Que vida excelente. Os ecos de Licorice Pizza em minha própria história são inescapáveis (minha primeira namorada era dez anos mais velha que eu – e eu tinha mais ou menos a idade do Gary quando a conheci), o amor pelo cinema também, assim como a predisposição para o romantismo descarado, singelo e imediato que PTA insere em seus filmes. Quando Alana solta um “idiot” para Gary no final do filme, estalou em minha cabeça: eu acho que já vivi isso aí. Essa ficção já foi a minha realidade, ou vice-versa.

Loose Ends.

Nas notas finais da edição de Loose Ends que li, o roteirista Jason Latour conta que essa HQ quase matou os seus criadores. Por uma década, eles tentaram fazer algo que muitos consideravam equivocado, impossível ou simplesmente errado. Ainda bem que essa luta foi vencida pelos criadores, pois Loose Ends preenche um lugar especial nas HQs modernas. A composição de páginas, o ritmo fragmentado e constante, as cores que explodem sem perdão. É um trabalho minucioso, impressionante e essencial em seu próprio mérito. Em alguns momentos, fica a impressão “nem sabia que dava pra fazer hq assim”. Sinal de que estás lendo algo que possui a sua própria verdade.

Archive 81, S01E03-08.

Salvo alguns momentos menores (culpa do elenco irregular), essa temporada foi muito boa. A progressão da narrativa acabou por me prender, mesmo que não tenha ficado esquisito de verdade. Bem massa esse lance de utilizar vídeo como código-chave para interseccionar dimensões. O tipo de coisa que curto demais. Sou fã da antologia de horror V/H/S, e Archive 81 encaixa bem nessa categoria. É como um spin-off mais sério e menos gore. Se o tempo é um círculo plano, como diria Rust Cohle, os acontecimentos dessa série fazem sentido e se tornam até óbvios. Tudo é uma questão de observação.

Archive 81, S01E01-02.

Posso estar enganado, mas acho que essa é a segunda série de medo que assisto que é baseada em um podcast (a boa Channel Zero sendo a primeira). Dan Turner, um bróder analógico em um mundo digital, trabalha como restaurador em um museu audiovisual. Um dia começa a restaurar uma fita 8mm que acaba por virar o começo de uma série de restaurações que vão aterrorizar seus dias. Acho que eu tenho em algum lugar um plot parecido, que tentei escrever uns anos atrás (algo como “chapeiro de uma casa noturna de uma cidade dos arredores de Belém aluga um dvd pirata contendo um assassinato real”) e fiquei pensando bastante na minha ideia, até desencanar e deixar Archive 81 tomar as rédeas, porque parece ter algo massa aqui. Dan é um isolado que curte os mesmos filmes que eu (ao encontrar uma fita de Solaris, murmura um hell yeah fundamental), parece ter saído de um break-up e caído em algo mais que apenas isolamento por um tempo. Mamoudou Athie faz Dan de forma ótima, retratando bem um Cara Que Não Está Realmente Aqui.

A Drifting Life.

Um mangá semi-autobiográfico de quase novecentas páginas. Comecei a ler A Drifting Life por pura curiosidade. Não demorou muito para ver que tinha algo mais ali (por pura ignorância minha, não sabia nada sobre o autor, um influente contemporâneo de Tezuka). A história de Yoshihiro Tatsumi é a de um artista que começa ainda adolescente, desenhando mangá em um Japão pós-guerra. Tatsumi começa a criar pois percebe que: pode e consegue. Um hobby de estudante do ensino médio, que vive em um país devastado. É algo que inicialmente serve para lhe render algum trocado e algo para fazer. Até começar a virar algo que pode lhe sustentar. A partir do momento em que Tatsumi decide não ir para a faculdade e investir em sua carreira de autor, o livro começa a expandir, tratando sobre o ato de criar. Mesmo que as condições melhorem, ainda é preciso sentar e fazer o que precisa ser feito. Não é porque ele consegue o que quer (ir trabalhar em Tóquio) que seu trabalho melhora. Não é porque conhece Tezuka em pessoa, que conseguirá fazer um trabalho naquele nível. Quando tudo dá errado para Tatsumi, o que lhe resta é o som da cidade entrando pela sua janela, os cinemas que ele incessantemente frequenta e suas páginas de mangá a criar. Há muito em A Drifting Life que chama atenção, e, mesmo que eu não conheça nada de mangá dessa época (maioria do que li começa na década de 90), consegui perceber a influência que Tatsumi teve. Acho que sem autores como ele, não haveriam os mangá que cresci lendo.

The Expanse, S06.

Essa série começou em um ano em que muita coisa mudou pra mim. Inevitavelmente, virou uma das minhas constantes. Desde suas temporadas iniciais, que construíram um universo que sempre me encantou, passando seu triste cancelamento, terminando em suas temporadas finais renascidas da pilha de dinheiro da Amazon. As mudanças que passei nos últimos combinavam com o caos futurístico que a série me trazia. Me apeguei aos personagens e seus códigos de conduta, aprendi e observei. Acho que todo mundo que conversou comigo nos últimos seis anos sobre séries, ouviu um pouco sobre The Expanse. Me tornei um influenciador. A última temporada foi uma talagada após a outra, apenas seis episódios. Um adeus. Trazendo em primeiro plano algo que The Expanse sempre quis expor: as coisas podem ser diferentes dessa vez. Se há uma chance, é possível. Que anos bons. Até mais, The Expanse.