Faz uns anos que Rick Remender escreve Deadly Class, uma baita série, daquelas que me fazem guardar umas edições pra ter uma boa hora de leitura quando for parar pra ler. Ao se juntar com André Lima Araújo, já dava pra sacar que viria coisa boa. E A Righteous Thirst For Vengeance entrega. Arte impossivelmente cinematográfica, roteiro econômico e fluído, que no final deixa exatamente a mesma sensação que Deadly Class sempre deixou: bem que isso aqui poderia ter mais umas cem páginas.
Logo na primeira edição de That Texas Blood tu sabes que algo interessante está para acontecer nessa HQ. A arte minimalista, os diálogos de cadência impossível, as dores de um canto do Texas esquecido pelo resto do país. Acho que em alguma das colunas no final das edições, o roteirista Chris Condon comenta que inicialmente That Texas Blood era para ser um roteiro de filme. Talvez tivesse funcionado. Mas prefiro assim em HQ, pois o espaço de tempo que se precisa para ler, observar e pensar é mais subjetivo. Edição após edição, algumas coisas fazem mais sentido que outras, alguns personagens completam-se sem muito esforço. Alguns quadros ficam presos na mente.
No final desse livro de Reckless, Brubaker escreve no Afterword sobre assistir Diner quando adolescente e sentir inveja dos personagens do filme, que se conhecem a vida toda, e como ele sabia que não teria o mesmo. Aí um cara como eu fica triste e quer abraçar o Brubaker, porque senti a mesma coisa. Não com Diner, mas com os livros de Reckless que ele, Sean e Jake vem soltando (resenhas aqui e aqui) de forma meio intensa no último ano. Dos três livros até agora, esse é o mais emocional. Explora a amizade e companheirismo dos dois personagens centrais, enquanto entrega uma clássica história de detetive do Brubaker. Uma lindeza de livro. Uma vida excelente.
No universo de Promethea, que é capaz de ser o mesmo universo que o meu e o teu, histórias, mitos e lendas possuem sua própria dimensão, que pode ou não interseccionar com o nossa. O Imaterial, como é chamada, é um reino vasto, que vai além do que podemos vivenciar em carne e osso. E que vai além do que os mitos e lendas podem experimentar por si só. Talvez usando essa conexão, Danny Cates escreve Crossover como um enorme what if uma dessas dimensões, no caso a Imaterial, começasse a invadir a nossa dimensão. Para quem está lendo, é diversão pura. As edições passam voando, o universo da HQ é de uma nerdice contemporânea recheada até o talo de bons momentos, equilibrando meta com a boa e velha narrativa de herói. É meio que um trampo de um nerd para outros nerd, com tudo de bom e ruim que isso significa. No caso específico de Crossover, em uma era de super-exploração de IPs em todos os setores da indústria, há um romantismo inescapável, irresistível. Uma das melhores HQs do ano, certamente.
Continuando minhas andanças pela obras de Cullen Bunn, li Regression, uma treta reincarnatória que expande o universo de Bunn além do horror, com resultados esteticamente interessantes (mesmo que em alguns momentos meu cérebro não soubesse interpretar o movimento que Danny Luckert sugere em suas páginas – um baita artista em momentos não-dinâmicos, mas confuso em outros) e narrativa interessante até o seu “terceiro ato”. Não sei, talvez eu esteja mimado demais com os bons anos de Gideon Falls e minhas leituras recentes de Promethea, mas se tu vais montar um lance transcedental, monta um lance bem transcendental, broder. Boa leitura, mas somente para completistas da obra de Bunn.
Meio que do nada, resolvi começar a (re)ler Promethea, que tenho na minha coleção há uns anos. A primeira vez que li algumas edições de Promethea foi na finada revista Marvel Max, que era publicada pela Panini no Brasil. Naquela época, me interessava mais Alias, Supreme Power e um monte de coisa “adulta” que a revista trazia. Lia Promethea mais por protocolo.
Mas agora… broder que porra é essa. Esculacho atrás do outro. Páginas duplas infinitas, roteiro totalmente sem freio do Moore, como se ele tivesse guardando tudo aquilo justamente para uma série como essa. J.H. Williams III desenhando como se não houvesse amanhã. Um 1999 que nunca existiu, mas que ao mesmo tempo continua futurista e retrô.
Tenho indo dormir tarde só por causa do gás que ler Promethea me deu. A página acima é da #5, e é só uma das diversas páginas duplas onde Moore e Williams resolvem viajar pesado – ou: como utilizar HQs para escrever sobre os diversos planos existenciais assim, de leve. As edições são deliciosamente ambiciosas, mas nunca inacessíveis. Há um equilíbrio (editorial talvez, autoimposto talvez) que mantém o cabecismo verborrágico de Moore sob controle. É como se ele tivesse operando umas marchas a menos do que poderia, mas por escolha.
Ed Piskor é dos meus. Acho que ele é um dos poucos artistas que acompanho há anos no Instagram e ainda curto o que ele posta. Porque ele é nerdão. Daqueles que passa o tempo livre realmente jogando games 8-bit. E quando ele senta pra trampar, trampa mesmo. Escreve, ilustra, letra, diagrama, edita. Broder é um estúdio de arte inteiro sozinho. Red Room foi desenvolvida quase em tempo real, com páginas disponíveis no Patreon assim que Piskor as terminava (não paguei, mas valeu esperar pra ver Red Room no formato “final”). Misturando dark web, snuff, gore a galore e um doentio detalhismo gráfico, Piskor apresenta Red Room em histórias fechadas, mas que se conectam dentro do universo da HQ. É um trampo de nerd pra nerd, na sua forma mais brutal e intrincada. Coisa de quem cresceu assistindo Faces da Morte em VHS, que baixou um DIVX de Cannibal Holocaust, que lia revistas como Lôdo. Treta demais pra explicar, na real.
Enquanto os detentores dos direitos de Friday The 13th não se resolvem, posso colocar essa boa Maniac Of New York direto na linhagem de Voorhees: e se o monstro como esse surgisse em uma cidade incapaz de resolver problemas óbvios? Por quanto tempo ele seguiria destruindo tudo ao seu redor? Um brutal exercício slasher em forma de HQ.
Matt Kindt em boa forma, econômico e esquisito no grau. Tyler Jenkins em seu modo mais noir-gore possível. Fear Case desenrola como um filme amaldiçoado, deixando pouco espaço para especulações ou conspirações, apesar de ser calcado em justamente coisas do tipo. Algumas perguntas merecem nem ser contempladas.
Acho que comecei a ler as HQs do Cullen Bunn via Cold Spots ou The Empty Man, não lembro (mas recomendo ambas fortemente). De cara gostei do jeito que ele escreve horror e desde então tenho acompanhado o autor, de vez em quando lendo alguma coisa que ele publicou anos atrás; Phantom On The Scan é de 2021 e reúne Bunn com o artista Mark Torres, que fez Cold Spots. Cinco edições que passam voando, triturando referências e mostrando que Bunn e Torres operam no mesmo nível, seja no gore ou no minimalismo. O horror sci-fi nosso de cada dia, bem representado.