Reckless: Friend of The Devil, 2021.

Ano passado, ao escrever sobre o primeiro livro de Reckless, meio que deixei a entender que é um privilégio acompanhar o trabalho de Brubaker & Philips hoje em dia. Continuo pensando o mesmo, um ano depois. Nada como ter um livro como esse em mãos e viver esse pequeno momento. Esse segundo livro, Friend of The Devil, me fez lembrar da última vez que reassisti Once Upon a Time… in Hollywood. Há um sentimento de familiaridade, que inicialmente achei meio esquisito, pois não tenho lá muitos amores pelos 70s (ou 80s). Mas acho que são os personagens mesmo, que soam como um amigo, mesmo eles sendo de um período doido naquele pedaço dos Estados Unidos, nada a ver comigo ou de onde venho. Em breve sairá mais um livro dessa série, mais um espaço de tempo a ser compartilhado com esses personagens. Te desejo vida longa, Ethan Reckless.

Reckless, V01.

Hoje tudo ao nosso redor parece estar galopando, um pouco mais rápido do que de costume, em direção à ruína. Mas ao mesmo tempo a gente tem o Ed Brubaker e o Sean Phillips publicando uma HQ foda atrás da outra. Como é bom ser testemunha disso. Em 2020, a dupla soltou Reckless e Pulp, duas baitas histórias que seguem a linhagem “one-shot” das sensacionais Bad Weekend e My Heroes Have Always Been Junkies, de 2019. São HQs de 70 até umas 150 páginas, começam e terminam sem cerimônia, apenas deixando aquela sensação familiar. Meu tipo favorito de melancolia benevolente. Coisa de quem entende de forma singular o que tá fazendo, que experimenta com a manha infinita que um mestre tem. De vez em quando, a combinação da arte incansável de Philips com a narração irrepreensível do Brubaker me mostra que apesar dos pesares, está tudo bem. É só sentar e ler. Ser vem depois.

Ice Cream Man, #01-22.

Começou em 2018 como uma (ótima) história em quadrinhos de horror. Cada edição era uma história só, alguma treta bem bad vibe, figurando de uma forma ou de outra o Ice Cream Man. Pequenos contos de terror em forma de quadrinhos.

Começou a ficar cada vez mais esquisita ali pela #6. Na edição #9, entra um conto meio faroeste psicodélico. Estranho pra cacete, todavia irresistível de se ler. A partir daí, o tom da série fica cada vez mais distorcido, experimental. Ainda completamente assustador.

No número #13 os caras fazem uma história “palíndroma”, uma HQ que dá pra ler de frente pra trás se quiser. Um TENET, por assim dizer. É uma leitura muito da sua doida.

Na #18, vem uma dos maiores baques se uma história em quadrinhos pode te dar. Uma leitura triste e amedrontadora. Uma narração de perda de memória que dói bastante ler. Na #19, a edição inteira é diagramada como um manual de instruções (o “index” no final é matador). A #20 deforma histórias infantis.

A cada nova edição, não dá pra saber o que Ice Cream Man vai trazer. Pode ser um conto meio Black Mirror/Lynchano, ou, pode ser algo que vai te deixar bem zoado, de verdade. Em 2020 foi uma das leituras-doidera que mais apreciei ter em tempos de lockdown. Seja pela pura nerdice técnica e estética, ou seja porque não faço ideia do que vai acontecer assim que abro uma edição nova.

[hellblazer #42]

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[shipwreck]

The Wake, #01-10.

Dividida em duas partes que se completam sem esforço algum, The Wake é uma história que engana, por parecer muito mais simples do que é. Não que isso seja a deixa para ser uma HQ cabeçuda, que quer explicar o sentido de tudo entre um painel e outro. Não há cabecismo verborrágico transcendental.

Há apenas esmerilhamento constante, em todas as edições. Seja na arte, seja no roteiro, seja na maldita premissa. Uma coisa ficou na minha cabeça após a leitura de The Wake, uma frase do Bill Hicks. It’s just a ride. Uma frase necessária e fundamental. Que merece virar mantra. The Wake seria um dos pontos altos dessa ride, até por pura ironia. Obrigado Scott Snyder e Sean Murphy.

Moon Knight, #01-06.

Marc Spector é um cara com sérios problemas. Na real mesmo, ele é pirado. A história conta que ele morreu uma vez e o deus egípicio Khonshu o ressuscitou. Desde então, ele assume de vez em quando a identidade de Moon Knight – ao mesmo tempo que ainda tem mais outras duas personalidades. Moon Knight protege os viajantes noturnos de NY. Se veste todo de branco, ora num terno three-piece, ora numa armadura e capa, sempre auxiliado por um drone no formato de meia lua e uma limousine auto-dirigível.

Com Warren Ellis no roteiro, a Marvel relançou o Moon Knight (mais um personagem que não tinha lido nada antes de pegar essas edições). Foram seis edições com roteiro do Ellis, arte de Declan Shalvey e cores de Jordie Bellaire (a partir da #7, Brian Wood e Greg Smallwood assumem o título). Edições com arte cristalina, roteiro elegante e cores que vão do sóbrio ao explosivo com maestria.

Fica evidente que são três artistas calejados e talentosos pra caralho, aplicando um conjunto de habilidades muito específicas em uma história em quadrinhos. Estas seis edições de Moon Knight são como o primeiro disco do Interpol: auto-consciente, soturno e perfeito. Seja na edição com o sniper, ou na edição em que Moon Knight entra em um sonho psicodélico, os três mantém um auto-controle e foco nervoso.

Cada edição possui um tom e uma direção firme, um ritmo que nunca se excede – mas também não cai na armadilha monótona do pseudo-minimalismo. O efeito que a leitura proporciona é algo que certamente só poderia existir em formato de história em quadrinhos (por mais babaca que seja dizer isso justamente sobre uma hq); Em tempos onde tudo vira filme, disco, livro ou série de TV, é quase inusitado encontrar uma obra que explora sem limites o potencial do meio para qual foi criada.