Comecei esse filme sem saber muito sobre, imaginando que seria algum filme de máfia pós-guerra estiloso (“ah parece ser sobre um alfaite que trampa pra máfia, massa, vamo ae”). Quase acertei, mas não sabia que também se passa todo em um lugar só. O contraste constante de modos e jeito de falar de um britânico em Chicago acabou por sustentar o meu interesse durante o filme todo. Observar Mark Rylance trabalhando nesse filme é demais. Utiliza o pouco que tem com esmero e precisão, sustentando com cuidado o ritmo de cenas que quase (quase) perdem o gás quando o foco sai muito dele. A diferença que uma milhagem alta faz.
A doidera de existir. Não fiquei surpreso ao ver o nome dos irmão Russo nos créditos. É uma espécie de Avengers da A24: filtrando um conto meio Siddhartha acidental via comédias da década de 80, com maximalismo violento década de 00 e com questões de identidade típicas dos anos 10. Um filme que, fatalmente, só poderia existir nessa década pirada que estamos vivendo nesses anos 20. Na penúltima temporada de The Expanse, um dos personagens professa que a única escolha real que temos é ir ou ficar. No decorrer da vida, ir ou ficar é a decisão suprema, que se desmembra em infinitas decisões menores. Mas tudo começa ali, no segurar/soltar. O material de que a existência é feita está todo compreendido entre o ato de ficar ou ir. Surpreso, me vi soltando lágrimas com momentos de Everything Everywhere All at Once. Michelle Yeoh (eterna crush desde sei lá, Police Story 3, pelo menos), uma mestre em plena forma, encarna o filme de uma forma que a gravidade do seu trampo puxa todo o resto do elenco junto. Um filme esquisito, clichê e não muito inovador – mas mesmo assim forte pra caralho. Como a vida.
Luto como portal para alucinações, sonambulismo e uma vida solitária alienante. Os filmes do David Bruckner são excelentes construções de monstros de filme de horror, e nesse ele abusa de uma espécie de trompe-l’oeil digital para aos poucos nos apresentar uma presença maligna brutal. Mas há outras camadas de treta, sutis e sem muita resolução (a porta para “é tudo uma alucinação apenas” é aberta algumas vezes). Rebeca Hall está excelente como uma pessoa naturalmente antipática e irritante, dureza de simpatizar mas ao mesmo tempo interessante. Luto é um troço complicado.
De zero à trezentos quilômetros por hora em alguns minutos. Um brutal espetáculo sadista de desgraceira tropical apocalíptica em pura forma gore. Um grand guignol vindo direto de Taiwan, que me dá aquela sensação massa de que há horror podre de alta qualidade a ser descoberto em vários países (tipo aquela sensação que o coreano Train To Busan deu, ou o japonês One Cut Of The Dead). Talvez seja o mais próximo que Crossed de Garth Ennis chegará a virar filme. Algumas cenas me fizeram dar aquela característica viradinha de cara, coisa que não fazia há muito. Ah, nada como ser fã de horror. Várias cenas são esteticamente lindas e repulsivas ao mesmo tempo, em uma espécie de balanço improvável entre técnica e desregramento grindcore.
Não estava tendo um dia muito bom. Viver em um inverno infinito tem seus momentos baixos. Quase cancelei o ingresso, só pra ficar na minha. Mas acabei indo, me empurrando para algumas horas de entretenimento multimilionário apenas pra ver o que sentia. Não estava preparado para um Batman que se sentia tão merda e tão solitário quanto eu. Talvez seja o primeiro filme do personagem que tem narração em off. Talvez seja o primeiro filme que nos apresenta o Batman Deprê tão comum nas HQs. Bruce está no seu segundo ano como vigilante, vivendo em uma noite infinita, entrando e saindo de foco quando pensa nas consequências do que faz, ouvindo Nirvana todo soturno na Bat Garagem (entendo). Dolorido, falando baixo, quase murmurando, deficiente em vitamina D e ainda levando umas porradas bem dadas. A vida de um bilionário vigilante é uma dureza. O filme é de uma estética inclemente, trazendo a Gotham gótica em todo o seu esplendor. É como se os filmes do Tim Burton tivessem cruzado com alguns do Scorsese. Batman ainda não se tornou um mito, caminha entre as pessoas como se nada tivesse acontecendo, dirige veículos arromba-ouvido, leva tiro no peito como se fosse essa a intenção. Metal pesado. O broder tá tentando reverter o fluxo da cachoeira na base do soco. Apesar da melancolia grudenta de Bruce, o filme todo se desdobra mais como uma ode à Gotham, uma cidade suja, cheia de obras abandonadas, passando por uma temporada de chuva que parece não querer terminar. As cenas que usam o anoitecer/amanhecer como pano de fundo são muito bonitas, assim como o som distinto dos passos do Batman em algumas cenas, ou a textura do couro que a Selina usa. Por momentos, esqueci completamente do Riddler e suas tretas. O filme sucede em ser um ataque sensorial, usando ruído, escuridão e silhuetas para se firmar. Não me senti tão melhor quando o filme acabou, mas gostei de ter ido.
O trabalho do Joachim Trier sempre me chamou atenção, aliás, pesado pensar que Reprise é de 2006 (um século atrás). Onde estava quando assisti esse filme? Acho que ainda na faculdade em Belém. Experimentando a vida de uns nórdicos meio ricos em Oslo. The Worst Person in the World revisita temas dos seus primeiros filmes, mas sem pesar muito no intelectualismo. É um filme que se expande sozinho, demonstra uma vida própria, criado por alguém experiente. Cheio de atores interessantes e cenas lindas. A vida, mesmo em um dos cantos mais ricos e prósperos do mundo, ainda é a mesma coisa para todos nós. Mesmo que em alguns momentos o drama não seja muito além de um conjunto de escolhas bem aceitáveis. Renate Reinsve é possivelmente a maior paixão cinematográfica dos últimos tempos junto com Alana Haim e o filme é repleto de momentos que doem demais para quem está na mesma faixa etária dos personagens do filme. Mas assopra também: uma risada, um novo olhar, um novo dia. Ninguém sai ileso.
Um primeiro ato encantador, bonito até o osso. Um segundo ato meio naquelas e um terceiro ato que é completamente roubado por Cate Blanchett (como sempre deveria ser). O delírio cinematográfico que é esse filme é coisa que somente o Del Toro consegue fazer hoje me dia, aparentemente. Alguns cenários são intrincados, vindo direto de um passado que não sei se existiu dessa forma. Mas se existiu, que doidera absoluta. É um bom filme, mas fica algo faltando, por mais que sua beleza tente nos distrair.
Já vimos esse filme pelo menos meia dúzia de vezes. Cara comete/sofre eventos terríveis, escolhe reclusão e vira o clássico Broder Quieto Com Passado Desconhecido, até que é forçado a reviver esse passado para proteger o seu presente. Notei que Brody faz a trilha sonora desse filme, além de escrever o roteiro. Um projeto de paixão, como dizem os gringos. Há um certo esmero que transparece nas cenas, mesmo que o tutano seja insípido. Talvez a melhor forma de ver esse filme é notando que alguns loops são escolha pessoal, mesmo que não pareça. Em certo momento, o barbeiro e sponsor de Brody diz que “não querer falar sobre seus problemas é uma escolha tão válida quanto querer falar sobre”.
Um forte raio de sol da manhã que atravessa a tela. É como visitar memórias alheias em forma de filme. Acho que passei o filme inteiro com um sorriso aberto no rosto, embriagado pelo grão da cópia em 70mm que tive o privilégio de assistir, pensando que de certa forma eu já vivi aquilo ali. Um sentimento impossível, claro. Mas de que serve filmes como esse se não para justamente para isso? Bicho, como eu sorri. Gargalhei. Que vida excelente. Os ecos de Licorice Pizza em minha própria história são inescapáveis (minha primeira namorada era dez anos mais velha que eu – e eu tinha mais ou menos a idade do Gary quando a conheci), o amor pelo cinema também, assim como a predisposição para o romantismo descarado, singelo e imediato que PTA insere em seus filmes. Quando Alana solta um “idiot” para Gary no final do filme, estalou em minha cabeça: eu acho que já vivi isso aí. Essa ficção já foi a minha realidade, ou vice-versa.
A desolação que a vasta paisagem causa nesse filme é encantadora (me fez pensar bastante naquelas baitas cenas de Top Of The Lake). Jane Campion comanda narrativa e personagens de forma magistral (talvez valha notar que é um dos poucos momentos de sua obra onde personagens masculinos estão em destaque), montando um crescendo sutil que alcança forte tensão em seu terceiro ato. Os atores encontram formas distintas de dar profundidade ao seus personagens e, por mais que Cumberbatch e Dunst estejam em plena forma, é de Kodi Smit-McPhee os melhores momentos do filme. Esse lance de homens comumente transferirem seus sofrimentos a terceiros chega a dar um nó na garganta, por mais tradicional que seja esse tipo de comportamento. A trilha de Jonny Greenwood é excelente como sempre, envelopando as cenas sem nunca te deixar muito à vontade. Por um bom tempo vou ficar pensando naquela cena do “picnic”, por sua beleza e verdade absoluta.