The Card Counter, 2021.

“The days move along with regularity, over and over, one day indistinguishable from the next”. A vida de mais um cara extremamente solitário e penitente, sob os olhos de Schrader, um mestre. Trilha sonora de metade do BRMC, cinematografia minimalista e crocante. Os dias infinitos de um broder que vive de uma forma deliberada, utilizando de forma discreta um talento que desenvolveu após ter ido longe demais com seus talentos anteriores. Oscar Isaac é um avatar perfeito para esse tipo de personagem que Schrader escreve e filma tão bem. Sua narração é quase monótona, apresentando fatos e observações em um tom reto de sem muita modulações. Talvez seja só eu, mas no momento em que me encontro, o misto de vida monasterial, meditação, disciplina, autoanálise e restrições sociais que Schrader trabalha em seus personagens é como uma sessão de terapia em forma de filme. Por um espaço de tempo, nossas solidões se encontram.

Shorta AKA Enforcement, 2020.

Sempre tem uma treta acontecendo em algum lugar. Dessa vez é em algum lugar da Dinamarca. Um dia bem ruim na vida de de dois policiais em um subúrbio em chamas. A história é sempre a mesma, mas há um bom pulso forte nesse filme. No final das contas, os papéis sempre meio que são os mesmos, não importa muito a posição geográfica.

Dune, 2021.

Fear is the little death. Um filme gigantesco. Que sem perdão, deposita toda a sua escala no espectador. Pesado, melancólico, estupidamente bonito. Pensei um pouco em The Green Knight, quando o filme terminou. Pensei também que tarefa absurda tentar contar uma história visualmente expansiva, com cenas que parecem que de cinco em cinco minuto querem te soterrar. A trilha sonora é um metal pesado, pressionando as imagens como uma bateria colossal. Acho que já vivi algo parecido, mas não tenho certeza se foi com um filme.

Old, 2021.

Fico meio em dúvida sobre o quanto autoconsciente o Shyamalan é. Acho que vou decidir que ele sabe o que tá fazendo. Pois em alguns momentos, rola um lance com o áudio desse filme que só pode ser brincadeira ou uma escolha deliberada. Sem contar no diálogo, que causa uma sofrência meio gratuita. Mas fora isso, se eu tivesse uns doze anos de idade, ia curtir pra caralho ver esse filme e chegar e contar pra todo mundo ver na escola. Talvez seja isso, né. Um filme que não se se leva muito a sério, mas que mesmo assim é bem filmado e montado. É como um sonho, que tu não sabes muito bem se é um sonho engraçado ou triste.

Candyman, 2021.

Não lembro muita coisa do original, acho que a última vez que assisti foi em VHS ainda. Nunca entrei numas com o material do Clive Baker que foi adaptado para filmes. Ele é creditado como um dos roteiristas desse remake, que achei bem competente e funcionou muito bem. Chicago continua sendo uma baita cidade para ser filmada. A parte do horror mesmo, não sei se foi muito eficiente (algumas cenas parece que foram inseridas na pós-produção, após alguém dizer “gente tá faltando uma cena assim assado”), mas como drama sobre o ciclo infinito de demolição e construção que cidades muito grandes passam década após década, bom filme. Até mesmo a parte Velvet Buzzsaw foi interessante. Lendas urbanas eternas, fazendo o que sabem fazer melhor.

Malignant, 2021.

Bagulho é doido. James Wan sempre foi um diretor que sabe o que está fazendo, mesmo que esse “o quê” seja ruim (Aquaman, Furious 7), bom (The Conjuring, Death Sentence) ou simplesmente filme-pra-adolescente-se-divertir (Saw, continuações de Conjuring e Insidious). Malignant é meio indeciso como filme, pois há uma produção massa, que constrói uma cinematografia até rebuscada às vezes (numas meio “ei, faz meu filme parecer Se7en pfv”) – mas daí tudo fica meio zoado com a atuação do cast em cima dos diálogos totalmente dureza de se testemunhar e com a notória predileção por gore grotesco de Wan (em boa forma, mas de novo, meio indeciso no que quer “ser”). No final das contas, divertido pra carai, mesmo que ali pelo começo dê uma canseira leve. Um filme feito por um cara que certamente passou horas em seções de horror de videolocadoras, assistia aquelas sessões de filmes B da BAND e que até hoje se lembra dos filmes que viraram lenda na escola ali pela sétima série.

The Green Knight, 2021.

O que você quer ser quando ninguém tá prestando atenção. Ou: como diferenciar ser de ter. Esteticamente atraente, quase não parecendo um filme vindo dos Estados Unidos. Acho que li o poema quando ainda não sabia ler, então não sei dizer nada sobre a adaptação em si. Aprecio o tema e as poucas explicações. Ambição é uma merda. Boa trilha sonora. Patel em quase-chamas. Não escaparia de uma eventual reassistida. Que quando importar, estejamos prontos (e sempre importa).

The Vast of Night, 2019.

A primeira vez que tentei assistir esse, não passei dos primeiros quinze minutos. Daí tentei de novo e meio que do nada eu só queria estar ali presente, assistindo cenas e mais cenas sobre essas doideras que estão acontecendo em uma cidade muito pequena. Um diretor a se acompanhar.

Lake Mungo, 2008.

A primeira vez que assisti Lake Mungo, nem sabia o que tava fazendo (ainda bem). Dia desses assisti ao crocante blu ray e acabou por ser outro filme, quase. Perdeu a aura de filme para TV e revelou um filme que claramente estava anos à frente dos seus pares. É como um Blair Witch que envelheceu muito bem. O diretor nunca mais fez outro filme, alimentando fortemente a aura de lenda urbana que Lake Mungo parece/deveria ter.

Man Push Cart, 2005.

Na sincera, achei que era um documentário quando comecei a assistir. E digo isso como elogio, pois foi somente depois de um tempo que saquei que era ficção. Um fime triste para cacete, que ressoou de forma brutal comigo. Uma dureza de vida, de filme, de tudo. O tipo de filme difícil de recomendar, mas que fica marcado não só pela impressionante capacidade técnica, mas pela sensibilidade fundamental ao narrar uma bad trip incomensurável.

First Reformed, 2017.

Belo filme, com mão firme no minimalismo estético sem cair na vibe teatral. Possui uma conexão direta com filmes como Diary Of A Country Priest, do Bresson, e Winter Light, do Bergman. Mas como esses filmes já possuem várias decadas de vida, talvez seja bom ter First Reformed disponível em serviços de streaming hoje em dia. Os temas são os mesmos, a dor também – os tempos é que são diferentes mesmo. Ethan Hawke em seu estado mais bruto, ainda que sensível. Algumas cenas ficam queimadas na minha cabeça. Ser um bicho humano é uma treta infinita. Destaque para a trilha do Lustmord, uma boa surpesa.

No Sudden Move, 2021.

Antes desse filme, Soderbergh havia entregue o ótimo Let Them Talk (obrigado, Steven). A mudança drástica de tema é admirável, assim como o impecável trabalho de câmera e cinematografia nesse No Sudden Move. E qualquer filme que coloca o Del Toro em situações como as que ele passou nesse, será bom filme. Que homem. E o resto do elenco é um Avengers Assemble em si. Coisa boa de se assistir.

On the Rocks, 2020.

Quem dera ter um pai como o Murray para me acompanhar em momentos terríveis da vida, me pagando drinques e insistindo em me dar caronas para todo lugar. Bom filme, engraçado sem ser uma comédia. Um drama que usa a “velha” New York como personagem de forma muito eficiente, sem pesar a mão no romantismo por tempos idos. Ah, a cidade que nunca morei, mas que parece ser casa.

The Sparks Brothers, 2021.

Uma metralhadora apontada para o formato “documentário músical”, que usa a história dos Sparks para descer o dedo em tudo que eu e você já vimos diversas vezes em docs tipo esse. Irresistível, empolgante, denso, bem engraçado. Coisa bem de quem curte mais o formato do que o conteúdo, como fizeram várias vezes os próprio irmãos do Sparks. 10/10.

The Only Living Boy in New York, 2017.

Meio inevitável assistir a esse filme inteiro imaginando a Marisa Tomei no lugar da Kate Beckinsale, mas tudo bem. Nada muito novo aqui, além do Jeff Bridges em chamas incandescentes em todas as cenas. Só por isso já vale a assistida “I’m a duke!”. Um bom filme de tardes de domingo. Saudades de ser um jovem granado.

Motherless Brooklyn, 2019.

Fadado a ser eternamente fascinado por filmes (neo) noir, demorou alguns minutos para eu curtir esse Motherless Brooklyn, dirigido e escrito pelo próprio Norton. De certa forma, é um filme sobre tentar lutar em umas categorias de peso acima da sua. Entendo. Destaque para um dos melhores Miles já registrados em um filme e para o eterno Alec Baldwin, que me fez ter simpatia por tiranos (mas não muita).

Nocturnal Animals, 2016.

Apesar de ser grande fã do primeiro filme do Ford, A Single Man (todo ano uma reassistida) deixei o Nocturnal Animals por anos ali no hd. Tentei começar, nem passava dos créditos. Talvez por receio de ser menor, talvez por querer ter algo que sei que iria me transtornar, só pelo prazer de ter algo intocado guardado. Uma ferramenta que se reserva para um uso específico. O tempo foi passando e parecia que não ia conseguir assistir esse filme. Felizmente em uma noite insone, olhei pro arquivo, o arquivo pra mim e o play foi dado. Um filme brutal, lindo e importante pra mim. Que você tenha o Michael Shannon ao teu lado quando fores caminhar pelo inferno.

One Night in Miami, 2020.

Tem algo de mágico em ver um ator encarnar o Ali da forma que acontece nesse filme, é como uma enorme injeção B12. Inevitável olhar pra mim mesmo no espelho e exclamar não tem latino mais bonito que eu puta que pariu. O mesmo acontece com Sam Cooke, que apenas sorri, faz milhões e aceita com dignidade ser reduzido a mais um cantor. Bom filme, de estética irrepreensível, atores sedimentados em seus papéis e ritmo que fica entre treta e glória o tempo todo.

Her Smell, 2018.

Tava pensando aqui quando foi que assisti um filme do Alex Ross Perry, porque o nome não me é estranho.

Foi um pouco antes de me mudar de São Paulo. Entrei em uma seção de Listen Up Philip naquele cinema Itaú da Augusta, em 2014. Parece umas duas vidas atrás. Entrar em uma sala de cinema espontaneamente. Cinema com saída pra rua. Essas coisas que vão se perdendo.

Her Smell é o mais recente dele, e assim como Listen Up Philip, é um filme que demanda bastante do espectador. Neste caso não só é difícil acompanhar os diálogos frenéticos (com um quê caótico-irritante de Safdie Brothers) como a trilha sonora/sound design totalmente paranoico e semi-nauseante (com um quê sádico de Gaspar Noé) que te degasta minuto após minuto.

Teve um momento em que tive que parar o filme só pra poder respirar normalmente. Colocar a cabeça fora da água.

Elizabeth Moss, eterna favorita deste humilde canal, comanda todo esse teatro com maestria. Por mais difícil que seja assistir essa bad trip em forma de filme, há muito a ser aproveitado aqui. seja o retrato importante de um período musical ainda pouco explorado no cinema, seja no elenco de suporte que brilha demais (quando consegue).

Não há muita redenção, ou até mesmo satisfação. Mas há pureza. O que mais pode se querer de um filme.

The Battery, 2012.

Seria mais um filme indie sobre broders que andam por aí fumando beques, bebendo cerveja, jogando baseball – se não fosse pelo fato de que existem zumbis andando pela terra. E meio que isso acaba com o rolê todo, na real. Mas ao mesmo tempo é para um deles a oportunidade para não tomar banho, matar uns monstrengos e viver selvagem por aí – enquanto para outro faz falta dormir em uma cama de verdade. Com orçamento claramente baixo, Jeremy Gardner escreve, dirige, produz e atua em The Battery, que consegue ter momentos massa aqui e ali. Um bom filme para tardes de sábado.

Calvary, 2014.

O primeiro filme do John Michael McDonagh foi The Guard, que é basicamente um dos filmes mais engraçados que assisti. Foi um belo primeiro filme do diretor-roteirista. Calvary é o segundo dele, de novo com o Brendan Gleeson (que parece estar em tudo que é filme recentemente e meio que TUDO BEM). Não é tão engraçado quanto The Guard e talvez nem seja essa a intenção, pois acaba sendo um pouco mais exploratório, por assim dizer. É um filme autoconsciente, de passada lenta, mas não arrastada. Não chega a ser triste. É pragmático demais para se deixar entristecer. Gosta demais de brincar com seus personagens e suas situações para isso. Tem até o Dylan Moran. E todo filme com o Dylan Moran merece uma assistida. Bem que podia ser uma série.

Afflicted, 2013.

Tempos atrás fiz um top 5 de filmes found footage e caso tivesse assistido esse Afflicted, pelo menos colocaria nas menções honrosas. A primeira parte do filme é no estilo clássico de diário de pessoas normais que filmam tudo, já a segunda é um FPS de terror totalmente em chamas. Não dá pra falar muito do filme sem estragar muito as coisas, mas é um bom exemplo de que como subgênero, o found footage ainda tem algum espaço a ser explorado.

Only Lovers Left Alive, 2013.

Me sinto totalmente pretensioso e meio pau no cu ao afirmar que adorei cada segundo desse filme. Only Lovers Left Alive pode até ser sobre vampiros seculares que conversam sobre Tesla, astrofísica, botânica e viveram durante praticamente todos os movimentos culturais da humanidade. Mas creio que é sobre uma linha de tempo longa o suficiente para mostrar que poucas coisas são realmente imortais. Difícil não se apaixonar pelo casal, principalmente pelo romântico e suicida Adam (Hiddleston em brasa), que toca post-rock fúnebre, gravado em pornográficos aparelhos analógicos. Um filme delicioso para quem é nerd consigo mesmo (o jogo de Doutores que Adam faz com seu traficante de sangue) e que não costuma entender toda a humanidade (o desdém de Adam pela tecnologia que usamos). Filmes como esse são prêmios secretos para quem vive tempo demais consumindo tudo ao seu redor, decorando todos os detalhes e todas as nuances de tudo que lhe apetece. De nerd para nerd, com amor.

The Raid 2: Berandal, 2014.

No primeiro The Raid, o diretor Gareth Evans tinha a vontade e a visão para fazer um grande filme de artes marciais, apresentando o pencak silat ao mundo da forma brutal (jamais esquecer o primeiro filme sobre o estilo, que é do Evans também: o eterno Merantau). Mas longe de ser um filme refinado. Havia apenas intenção, que esbarrava em uma ou outra limitação técnica e um roteiro que ansiava por cenas e mais cenas de lutas (o que não pode ser interpretado diretamente como algo ruim, sempre). Em sua continuação, há mais orçamento, refinamento, uma capacidade técnica mais robusta. The Raid 2 é um filme que nasceu diretamente da visão do primeiro – e por causa do seu sucesso. É um filme de artes marciais para apaixonados por filmes artes marciais, que cresceram grudados em TVs de tubo assistindo fitas VHS toscas e mal dubladas de filmes asiáticos. Nas duas horas e meia de filme, fica a impressão que que o diretor resolveu realizar todos os sonhos de um moleque que cresceu assistindo filmes de artes marciais, imaginando cada vez mais cenas de luta imediatamente após assistir um filme impressionante. Dá pra listar a Cena do Banheiro Na Prisão, a Cena da Briga Na Lama, a Cena da Luta Dentro do Carro, a Cena do Metrô, a Cena da Boate e a brutalmente linda Cena da Cozinha como realizações extraídas da mente de um viciado de filmes de artes marciais. Sem contar os personagens, que também são saídos desse mesmo imaginário: A Mina Que Luta Com Dois Martelos, o Assassino Do Terçado, o Cara Do Taco e Bola de Baseball e o Capanga Das Lâminas Dentadas. Um filme cadenciado, que se dá tempo para criar suas cenas, não se atropela e consegue evitar a intenção mortal e falida de elevar filmes de artes marciais ao status de arte. Aqui o negócio é MUITA CABEÇADA EM QUINA e COTOVELADA NA CLAVÍCULA. Um filme gore que vai vender milhões de DVDs piratas pelo mundo pra sempre, que vai ser obrigatório para todo moleque de onze anos que curte ver umas cenas pegadas de luta. Um filme que de certa forma realiza alguns sonhos de muito maluco que nem eu.

Enemy, 2013.

Denis Villeneuve como mestre da desolação. Em 2013 entregou dois filmes prontos para desestruturar tua tranquilidade. Prisoners foi o mais direto, mais brutal. Apresentou um Jake Gylenhaal dirigido perfeitamente. Enemy é um pouco diferente, adaptando o romance de Saramago, conduzido com esmero e sem muitos erros clássicos de adaptações. Jake esmerilha muito. Detalhista e minimalista ao mesmo tempo. Talvez seja o destino de adaptações literárias sempre falharem, mas que pelo menos falhem mais como Enemy.

Joe, 2013.

Em 2013 o David Gordon Green entregou dois filmes em um tom bem diferente das suas comédias anteriores: Prince Avalanche, um remake de um filme Islandês, com trilha jovial do Explosions In The Sky e Paul Rudd de bigode – que foi bem massa, grandes cenas intercaladas por momentos de excruciante minimalismo e lentidão. O outro foi esse Joe. A cenografia é fatal, com muita coisa pra se explorar na tela, o roteiro é nos moldes estou-assistindo-um-acidente-de-carro-forma-de-filme e nada muito além do esperado acontece, mas assim como Prince Avalanche, tem seus momentos. Lembra um pouco o excelente Mud.

Zulu AKA City of Violence, 2013.

Dia desses assisti o Anthony Zimmer, o bacanoso primeiro filme do frânces Jerôme Salle (nem me liguei na hora que tinha assistido muito antes o remake dele, o bobo The Tourist, com o Depp e a Jolie). Fiquei curioso com o diretor e peguei o Zulu, do ano passado. Lembra um pouco Tropa de Elite na forma como a brutalidade escala rapidamente, deixando poucos reféns e muitas vítimas. África do sul em modo trata pura. Até o Orlando Bloom consegue ir além da sua casca hollywoodiana e entrega uma bela performance. As cenas finais são muito bonitas, fechando o filme em um tom totalmente desolador. Um dos roteiristas é o Julien Rappeneau, que também foi roteirista em 36, que considero um dos melhores filmes policiais de todos os tempos.

Night of the Demon AKA Curse of the Demon, 1957.

em 1957, um filme sobre demônios devia ser algo bem sinistro. Esse do Jacques Tourneur provavelmente devia ser um dos mais, até porque se leva bastante a sério. O roteiro ainda segura as pontas até hoje (massa ver um filme em que os cientistas ainda tratam hipnose como algo seriamente científico?) e apresenta uma estrutura abusada até hoje em filmes de horror, provando que não há nada de novo desde aquela época: verborragia científica para mascarar argumentos de “não acredito em demônios”, referências ocultas rebuscadas e intraduzíveis para rechear argumentos “o demônio é real mermão” – e claro, cenas dúbias para assustar. O demônio em si é um espetáculo brega e gloriosamente datado.

The Haunting, 1963.

Esse é um dos filmes que deixei no hd mofando por tempo demais. Essa belezinha do Robert Wise sempre aparece em listas e recomendações de filmes de horror. Vacilei por tempo demais: é puro delírio em preto e branco implacável. Doidera como o roteiro ainda funciona. A cinematografia talvez seja eterna: nunca uma casa pareceu tão assustadora, sem praticamente nenhum efeito especial – e esse lance de não ter CANTOS é um troço simples e que dá um senhor efeito final. Rola um estranhamento com a protagonista Eleanor, mas talvez seja proposital – e mesmo que não seja, tudo ajuda a construir o clima sombrio atemporal.

Cry-Baby, 1990.

Não estava nem um pouco preparado para esse delírio rockabilly, em forma de musical. É o tipo de filme que conheci através de referências, mas nunca tinha parado para assistir. Meio que sabia o que esperar. Só não estava preparado para esse ataque direto à minha memória afetiva e musical. Foi divertido do começo ao fim, e terminou tão rápido que me deixou meio desnorteado. É como um Scott Pilgrim sem videogame, cheio de música redneck no meio. Que filme, que destruição.

V/H/S 2, 2013.

O primeiro V/H/S foi interessante, uma coletânea de horror capaz de criar uma nova mitologia. O segundo filme segue a mesma estrutura, e expande ainda mais a premissa inicial. Gosto do uso do vídeo como artifício sobrenatural – Desde Blair Witch venho acompanhando o “gênero”: tivemos bons exemplares como Sinister, The Ring/Ringu, Shutter e Pulse. E com a série V/H/S, dá pra dizer que o gênero tá indo bem.

Only God Forgives, 2013.

Não que seja um filme bom. Muito menos o melhor do Refn. Mas ele tem aquela maldita atmosfera. Fico hipnotizado. Assisto somente para ficar encarando a tela, ouvindo os sons e aos poucos me sentir totalmente cooptado. É como um sonho recorrente. Há um conforto bem específico, incomum. Only God Forgives não é um filme, é apenas um espaço de tempo que eu gosto de visitar.

Page Eight, 2011.

Bill Nighy é um analista de inteligência do MI5, mora sozinho, teve quatro esposas, vive uma rotina minimalista – e então conhece a sua vizinha, Rachel Weisz. Daí tem alguma coisa envolvendo escândalos internacionais, mas tem também a Rachel Weisz. Grande filme para uma noite de domingo.

New World, 2013.

Dirigido pelo roteirista de I Saw The Devil. A história tem ecos de Infernal Affairs e outras tramas de crimes asiáticas. Os ternos são todos bem cortados e os carros, pretos e luxuosos. As cidades são letais de noite e pouco confortantes durante o dia. Os personagens acabam te conquistando de uma forma ou de outra – não adianta especular até assistir o filme inteiro. É um filme triste, mas não melancólico. Dificilmente filmes coreanos são melancólicos, aliás. A tristeza que eles carregam é bem específica, não se arrasta. Ela pontua. Vale ressaltar a cena da briga no estacionamento e elevador.

My Blueberry Nights, 2006.

Sempre enrolo muito para ver (ou rever) filmes do Wong Kar-Wai. Sei o que me espera neles. São filmes que primeiro fingi não gostar, depois abracei incondicionalmente e hoje em dia trato com cuidado, pois sei o estrago que cometem. Rever My Blueberry Nights foi um pouco mais fácil do que esperava, muito por ser em um idioma que conheço e por ser o filme do Kar-Wai que possivelmente mais escutei a trilha sonora. Havia muita coisa familiar no filme, mas mesmo assim sempre tem algo para te derrubar. Dessa vez foi talvez um diálogo logo nos cinco primeiros minutos do filme. É complicado esse negócio de ficar assistindo os filmes desse cara.