A Drifting Life.

Um mangá semi-autobiográfico de quase novecentas páginas. Comecei a ler A Drifting Life por pura curiosidade. Não demorou muito para ver que tinha algo mais ali (por pura ignorância minha, não sabia nada sobre o autor, um influente contemporâneo de Tezuka). A história de Yoshihiro Tatsumi é a de um artista que começa ainda adolescente, desenhando mangá em um Japão pós-guerra. Tatsumi começa a criar pois percebe que: pode e consegue. Um hobby de estudante do ensino médio, que vive em um país devastado. É algo que inicialmente serve para lhe render algum trocado e algo para fazer. Até começar a virar algo que pode lhe sustentar. A partir do momento em que Tatsumi decide não ir para a faculdade e investir em sua carreira de autor, o livro começa a expandir, tratando sobre o ato de criar. Mesmo que as condições melhorem, ainda é preciso sentar e fazer o que precisa ser feito. Não é porque ele consegue o que quer (ir trabalhar em Tóquio) que seu trabalho melhora. Não é porque conhece Tezuka em pessoa, que conseguirá fazer um trabalho naquele nível. Quando tudo dá errado para Tatsumi, o que lhe resta é o som da cidade entrando pela sua janela, os cinemas que ele incessantemente frequenta e suas páginas de mangá a criar. Há muito em A Drifting Life que chama atenção, e, mesmo que eu não conheça nada de mangá dessa época (maioria do que li começa na década de 90), consegui perceber a influência que Tatsumi teve. Acho que sem autores como ele, não haveriam os mangá que cresci lendo.

The Expanse, S06.

Essa série começou em um ano em que muita coisa mudou pra mim. Inevitavelmente, virou uma das minhas constantes. Desde suas temporadas iniciais, que construíram um universo que sempre me encantou, passando seu triste cancelamento, terminando em suas temporadas finais renascidas da pilha de dinheiro da Amazon. As mudanças que passei nos últimos combinavam com o caos futurístico que a série me trazia. Me apeguei aos personagens e seus códigos de conduta, aprendi e observei. Acho que todo mundo que conversou comigo nos últimos seis anos sobre séries, ouviu um pouco sobre The Expanse. Me tornei um influenciador. A última temporada foi uma talagada após a outra, apenas seis episódios. Um adeus. Trazendo em primeiro plano algo que The Expanse sempre quis expor: as coisas podem ser diferentes dessa vez. Se há uma chance, é possível. Que anos bons. Até mais, The Expanse.

Station Eleven, S01E04-10.

Desde os episódios iniciais, comecei a sentir algo diferente por essa série. Tecnicamente há vários pontos positivos. Bela cinematografia, elenco que parece expandir sem perder a qualidade. Apocalipse neo-feudal, timelines que de conectam, ou interseccionam ou parecem se sobrepor. O mais aconchegante fim do mundo. Mas acho que tem algo a mais, comecei a perceber que meu foco virou mais emocional. Quando um episódio contou o que aconteceu com um grupo de pessoas que passou pelo começo do fim do mundo ilhado em algum aeroporto em Michigan, comecei a ver que nem eram os personagens que me interessavam. O que eu sentia era uma conexão forte com um dos temas da série: recomeçar não é fazer tudo o que foi feito antes (ou não pode apenas ser isso). Recomeçar é não dever quase nada ao que veio antes. As escolhas que se abrem quando se passa por isso, meu velho, são intensas e definitivas. Station Eleven abre esse leque na tua frente, ora de forma direta, ora sendo deliciosamente obtusa. Acho que tenho que ler o livro em que a série se baseia. Bagulho bateu forte.

Mythic Quest, S01.

Me diverti bastante assistindo essa primeira temporada de Mythic Quest. Demorou uma eternidade para uma sitcom fazer justiça ao universo de produção de games (Silicon Valley tangenciou muito disso, mas não chegou lá). É uma boa temporada, boa série. Mas o que me cativou mesmo foi um episódio isolado, bem no meio da temporada (S01E05), que não possui muitas conexões com o resto da série. O episódio “A Dark Quiet Death” é uma espécie de one-shot, contando a história de um casal que se conhece em uma loja de games, começa a produzir o seu próprio jogo (aparentemente um fps de horror), atinge um sucesso imenso e começa a ter problemas entre visão artística e decisões comerciais. Sempre curti a estrutra rom-com da virada do século (comfort food mental pra mim, que fui adolescente nessa época) e Jake Johnson e Cristin Milioti estão excelentes como o casal que atravessa várias fases tentando se manter junto. Tem dias que tu só queres assistir uma sitcom e relaxar, mas aí um episódio como esse acontece. Inicialmente pensei que seria o “episódio triste” da temporada, mas em alguns minutos percebi que estava sendo fisgado por algo diferente. Muito por causa de Milioti, apaixonante como uma criadora dark e em conflito consigo mesma. Um bonito e singelo episódio, engraçado e escrito com esmero. Foi como ter um flashback de algo não vivido. Obrigado, Mythic Quest.

The Power of the Dog, 2021.

A desolação que a vasta paisagem causa nesse filme é encantadora (me fez pensar bastante naquelas baitas cenas de Top Of The Lake). Jane Campion comanda narrativa e personagens de forma magistral (talvez valha notar que é um dos poucos momentos de sua obra onde personagens masculinos estão em destaque), montando um crescendo sutil que alcança forte tensão em seu terceiro ato. Os atores encontram formas distintas de dar profundidade ao seus personagens e, por mais que Cumberbatch e Dunst estejam em plena forma, é de Kodi Smit-McPhee os melhores momentos do filme. Esse lance de homens comumente transferirem seus sofrimentos a terceiros chega a dar um nó na garganta, por mais tradicional que seja esse tipo de comportamento. A trilha de Jonny Greenwood é excelente como sempre, envelopando as cenas sem nunca te deixar muito à vontade. Por um bom tempo vou ficar pensando naquela cena do “picnic”, por sua beleza e verdade absoluta.

Boiling Point, 2021.

Um filme em estado bruto. Inclemente one-shot de uma noite em uma cozinha de um restaurante em ascensão em Londres. Não precisa ter trabalhado em uma cozinha para entender a destruição controlada e gradual que uma noite dessas causa em uma pessoa, por mais normal que esse tipo de noite seja dentro dessa indústria (quando trabalhei em restaurantes, aprendi que uma noite em que ninguém se esconde em algum lugar para chorar por uns minutos não é uma noite normal). O excelente Stephen Graham faz um chef em brasas, cansado, querendo sumir. Um ator que não encontra pares atualmente quando se trata em fazer personagens que são broders comuns carregando bem mais do que são capazes. Vinette Robinson faz a sua sous-chef, também carregando mais do que consegue, entretanto de forma quase graciosa (é dela o melhor momento do filme: uma mijada destruidora de vidas em cima da gerente do lugar). Sempre aprecei filmes e séries que retratam esse universo e posso colocar Boiling Point lá em cima, junto com grandes como Dinner Rush e Big Night.

For All Mankind, S01.

Esse lance de História Alternativa nunca foi muito a minha. Mas aí o cara envelhece e aprende umas coisas, começa a ver tudo como nós que se desenrolam sem limites. Hoje em dia, essa vibe até rola (dependendo do ponto de vista, toda a História é alternativa). Mas normalmente não me engaja muito além de um interesse inicial. Comecei a assistir For All Mankind meio que nessa, ah, e se os EUA tivessem perdido a corrida espacial, como seria né. Confesso que engatei algumas vezes ali no primeiro episódio (meu interesse pela corrida espacial é bem pequeno hoje em dia). Mas aí teve aquela cena em que os Soviéticos mandam uma mulher pra lua, ela abre o capacetão de cosmonauta e tá lá, mortal. Baita cena. Assim que deveria ser feito. Os episódios então começaram a me consumir: era isso que eu queria ver. Muito bom ver o Joel Kinnaman brilhando, encontrando bons pares em suas cenas – mesmo que a melhor parte do elenco sejam as mulheres, que vão de personagem estereótipo ao infinito em apenas alguns episódios. Dominam a série com maestria (Margo, excelente personagem, Molly idem). A série deixa de ser sobre esse lance de “os melhores de nós indo ao espaço” para ser sobre as mudanças que uma década cheia de transformações sociais causam nas pessoas. Os anos 60/70 dos EUA já foram retratados de forma competente por séries como Mad Men, deixando para For All Mankind uma linha de tempo alternativa que é cheia de problemas, mas também cheia de avanços e possibilidades. Difícil soltar de alguns personagens, mesmo que a série pule ferozmente por meses, anos até. Alguns episódios dessa temporada são muito melhores que outros, todavia boa temporada inicial.

2021: EVERYBODY HAD A HARD YEAR

(séries)

Vigil

  • um submarino nuclear em pedaços.

Reservation Dogs

  • skoden.

Superstore

  • a temporada final e excelente de uma série que viveu em tempos ingratos.

Succession

  • não existe amor em nenhum lugar.

The Beatles: Get Back

  • o maior reality show de todos os tempos.

Heels

  • enfrentando as suas próprias limitações.

What We Do In The Shadows

  • o reinado continua.

Mare Of Easttown

  • um suspiro cansado em forma de série.

Mr. Inbetween

  • até mais, Ray.

Dave

  • problemas que não são problemas.

Only Murders in the Building

  • vontade de largar tudo e ser rico.

Ted Lasso

  • obrigado.

The White Lotus

  • nada é realmente necessário.

Master of None Presents: Moments in Love: Season 3

  • difícil de assistir. talvez por isso: bom.

Brand New Cherry Flavor

  • guaraná.

McCartney 3,2,1

  • sinceramente: mestres mestrando.

Invincible

  • irresistível.

Painting With John

  • visitas constantes de amigos.

Time

  • não existe eles e nós.

For All Mankind

  • isso aqui é como deve ser feito.

Hacks

  • o amor mais difícil de se encontrar.

2021: EVERYBODY HAD A HARD YEAR

(hqs)

The Many Deaths of Laila Starr

  • memento mori. o tipo de coisa que o cara precisa de vez em quando.

The Nice House On The Lake

  • como fazer o fim do mundo.

Restless

  • mestres em atividade. um dos privilégios de se estar aqui.

That Texas Blood

  • assim se nasce uma lenda.

Crossover

  • pequenos prazeres de ser nerdola.

Red Room

  • incansável Piskor. obrigado por tudo.

Ice Cream Man

  • experimentação constante e inclemente.

A Righteous Thirst For Vengeance

  • e de repente tudo faz sentido.

Fear Case

  • as perguntas que importam.

Monsters

  • toma aí, disse o mestre. te vira.

The Department of Truth

  • é como poder ver algo que está logo ali, pronto pra ser desvendado. uma baita série.