Prey, 2022.

Em algum momento de Prey me senti tipo esse gif do Jeff Goldbum. Não é complicado fazer um filme bom e divertido tipo esse, mesmo usando uma IP que permeia o imaginário popular por décadas. Corta pro básico: O Predador é um ser caçador que viaja o cosmos caçando troféus. Tempo é uma ilusão, então dá pra colocar ele na América do norte durante as primeiras décadas do genocídio colonial do continente. Coloca o predador caçando uns bichões tipo lobos, ursos brutos e tal, meio que se divertindo sozinho. E fatalmente ele cruza com uma das mais poderosas tribos nativas da região: os Comanche. Pronto, Predador versus Comanche. O resto é detalhe. Tu precisas de um cinegrafista que saiba usar a selva com esmero, atores confortáveis em seus papéis e claro, violência estética inclemente (com uma predileção por efeitos práticos, mesmo tendo que usar VFX em todos os animais – menos naquele cão muito parça da protagonista). Curti bastante que os Comanche quando falam inglês demonstram uma coolness quase impossível (que me fez lembrar de Scalped um pouco). Ótimo filme, que se junta à outros filmes diferentes que a franquia fez (Predators de 2010 é bem massa também). Essa fórmula de Prey serve pra qualquer IP de horror/ação que precise de um gás. Esperando com calma um Predador no Japão feudal, ou contra mercenários gregos de Alexandre.

God Country, 2018.

Tenho lido as publicações de Donny Cates de forma meio atordoada. Acho que a primeira coisa que li foi Buzzkill (diversão demente), seguido da ótima temporada de Venom que ele comandou, daí Crossover tem sido uma das melhores hqs dos últimos anos e eu decidi que porra, esse bróder tem uma manha que não sei direito dizer o que é, uma facilidade em trabalhar temas complexos em linguagem bruta e sensível que se assemelha à Jason Aaron (pra ficar num exemplo contemporâneo, ou Morrisson para comparar com um dos mestres). Fui lendo outras coisas dele, como a excelente The Ghost Fleet (uma HQ de ação deliciosamente pré-adolescente das ideia) e finalmente cheguei no debut na Image: God Country. Que pancada. A história se desenrola feito uma canção épica de metal atmosférico, ora abrindo espaço para respirar, ora descendo a porrada sem limites. A cadência com que Cates desenvolve a sua história é quase anime/mangá em sua essência: ele trabalha crescendos inevitáveis sem deixar-se perder em uma cascata infindável de momentos, como muitos autores que trabalham os mesmos temas fazem. Cates vai de A até B de forma direta e quase simplória, entregando o que o povo quer. São os três acordes do punk, o dedilhado do black metal, a bateria do death. Coisas que funcionam porque são simples e possuem uma intenção clara. A beleza está em ser o que se parece.

Pílulas Azuis AKA Pilules Bleues, 2001.

Não sei bem como essa HQ veio parar na minha coleção, tampouco sei dizer porque comecei a lê-la; o nome do autor não me desperta nada e se alguém me perguntasse sobre o que era, meu melhor palpite seria algo com “talvez seja sobre viagra ou prozac?”. O bom de ser ignorante é que entrei nessa leitura apenas querendo ver qual é, mas o estilo de traços grossos e expressivos do suiço Frederik Peeters prendeu a minha atenção (aqueles olhos imenso de Cati, que inicialmente parecem querer assustar) e a história de desenrolou sem cerimônias, sobre um casal que se apaixona mas ela tem HIV. A HQ possui um típico senso de humor europeu da virada do século, autoconsciente, singelo mas pedante ao mesmo tempo e autobiográfico sem querer ser (mas tornando a autobiografia um dos temas da obra mesmo assim). De vez em quando é bom remexer a própria coleção de mídia e descobrir coisas como essa.

Black Bird, S01E01-03.

Tem dias que viram um desastre completo e tu consegues notar cada mudança sutil, que em incrementos te levam à ruína. Black Bird começa com um dia desses para James Keene (Taron Egerton, que demora um pouco pra preencher o espaço do personagem, mas quando engata, vira uma daquelas atuações quase míticas), um dealer de Chicago esperto demais para o próprio bem, que acaba engolindo uns dez anos de prisão. Para comutar sua sentença, uns federais oferecem um acordo do capeta: se realocar para uma prisão infernal no Missouri, onde o serial killer Larry Hall (Paul Walter Hauser, bicho completamente solto, aí sim mítico demais, como se alguém tivesse dito calmamente pra ele “agora sim pai, vai lá e seja doentio como tu quiser, o gol é teu”) se encontra e está prestes a ser solto na real pois nunca acharam algum corpo para colocar na conta dele. Fica a cargo de James extrair a localização de algum dos crimes de Larry. Doidera. Se não tivesse sido verdade (a minissérie é baseada no livro autobiográfico de Keene). Parte o coração ver o Ray Liotta também, que faz o pai ex-policial de Keene (talvez sua última atuação? que triste constatar isso ao assistir essa série “é essa a última vez que verei algo novo do Ray Liotta?”). Aliás, a história toda te parte o coração. Cortesia da direção estoica do belga Michaël R. Roskam (do excelente The Drop – que aliás é um dos últimos trampos do James Gandolfini, que tendência macabra, Roskam), que consegue dar peso à cenas que nós já vimos dezenas de vezes, sem se tratando de dramas e thrillers em prisões. Que nós jamais tenhamos dias tão ruins quanto os de James Keene.

The Black Phone, 2021.

Um filme acima da média para a Blumhouse, e abaixo da média para Scott Derrickson, que repete aqui a colaboração com Ethan Hawke (excelente como The Grabber, criando com pouco – quase nada – um personagem que imediatamente ganha espaço no imaginário de filmes de horror). Entrei nesse achando que seria algum horror de verdade, mas ganhei um thriller setentista baseado em um conto do Joe Hill que usa alguns clichês do pai Stephen King (semi-paranormalidade, bullies, jovens se metendo em merda) para contar uma história competente, mas que se distrai consigo mesma, seja nas atuações dureza do cast juvenil, seja na progressão tão linear da história que o interesse meio que some (acho que algumas cenas eu nem registrei direito o que tava acontecendo). Um Stranger Things mais adulto, ou um thriller de serial killer Disney. Hawke tentou (e quase consegue), mas além da máscara, não tem muito mais.

North Sea Jazz 2022, 8/7 – Rotterdam.

Numa sexta de sol e vento, em um atípico dia perfeito de verão holandês, o North Sea Jazz teve o seu primeiro dia (de três). Cheguei no final da tarde, sob sol excelente (o cara aprende a gostar de sol novamente) e esperei Marcus King tomar o palco principal do festival (coberto). Banda de barbudos, tocando alto e com categoria de quem sabe demais. Um baita show, daqueles que te faz pensar que esse broder tem só 26 anos e comanda uma banda assim. Não chegou a emocionar, mas todo o poder estava na distorção e em momentos como a versão de uns quinze minutos de Hoochie Coochie Man que eles mandaram. E eu achando que tinha me aposentado de festivais e shows grandes, de repente me senti confortável com aquele mar de gente, indecisa entre a dezena de palcos do festival, perambulando constantemente.

Caminhando entre os corredores limpos, refrigerados e cheios de stands de comida do centro de convenções Ahoy, demorei pra achar o palco menor onde Theo Crocker estava para começar a comandar a vibe. Todo mundo sentadinho (um festival onde todos os palcos tinham assentos, todos) e eu acabei ficando no melhor lugar, atrás dos monitores do projetista. Condiz com a minha condição de Senhor não ir muito pra frente do palco em shows hoje em dia, ficar ali pelas arestas, perto do pessoal da graxa, que sabe onde o som bom está batendo. Ver shows mais pelo som do que pelo que estão fazendo ali no palco (envelhecer é massa). A banda de Theo é outra banda absurda, com um baterista que do nada engatava um drum’n’bass analógico de forma aveludada, dando potência ao som suave, límpido e viajante que Theo extrai do seu trompete. Trilha sonora para se caminhar em um planeta estranho (ou para se caminhar em um país estranho). O som do trompete do Theo certamente é top cinco experiências que vivi nos últimos tempos.

Comi um sanduíche indonésio de porco na panela, um hotdog chamado RATDOG (um hotdog normal mas daí enrolado em bacon e passado na chapa), fritas com maionese, tomei água e coca quente (ah, festivais), fiquei uma meia hora procurando o palco onde BADBADNOTGOOD e quando finalmente entrei, dei sorte de subir uma escada lateral e me vi em um mezanino confortável e com som potente batendo; quando a banda começou mermão, o lugar inteiro tremeu. De longe a banda mais barulhenta que vi no dia, o BADBADNOTGOOD sem perdão soltou seu punk jazz sobre todos os presentes (expulsando grande parte do público jovem vibe chill, claramente não preparado para aquele atordoamento todo) e entregou um show que recalibra a cabeça do cara na base do barulho e no solo perfurante de sax. Uma projeção em 16mm sobre a banda forçava o palco a ficar escuro, o que parecia agradar os canadenses. O baterista sentava a mão como se estivesse tocando hardcore (com um groove aqui e ali, só pra contrariar) e o baixista fez uns lances que me fez pensar se era de propósito ou o som do palco não tava sabendo processar o que ele queria fazer. Em algum momento, alguém da banda falou ao microfone (na escuridão não dava pra ver quem fazia o quê) que estavam muito felizes em estarem ali naquela noite, tocando em um dia cheio de artistas que eles admiram e que tudo que gostariam que a gente experimentasse fosse amor, compaixão e beleza atrás da música deles. Anos atrás eu mentalmente soltaria um “sae dae mano” e nem prestaria muito atenção. Mas envelhecer é massa, concordei, apreciei e me senti um sortudo também.

The Bear, S01.

Tive um chefe em Frankfurt que dizia que Barbeiros de sucesso e renome geralmente contraiam uma condição que ele apenas chamava de A Doença. Quanto mais sucesso comercial acontecia e sua capacidade técnica evoluía, pior a pessoa se tornava como companheiro de trabalho ou como chefe. A Doença os tornava antipáticos, combativos, obcecados, narcisistas. Ele sempre fazia um adendo: é bem comum A Doença atacar chefs e cozinheiros também (talvez eles tenham sido os originários da condição toda, pensando aqui). The Bear é sobre A Doença e como ela contamina a vida inteira de quem a contrai, mesmo que intencionalmente. Usando um restaurante familiar em Chicago como centro do universo (curti que demora alguns episódios para se entender como o restaurante é por “fora”, pois tudo acontece na cozinha e nas portas dos fundos), a série se desenrola após o antigo dono cometer suicídio e deixar como herança o restaurante para o seu irmão mais novo, um cozinheiro prodígio que trabalhava como Chef de Cuisine no melhor restaurante do mundo em NYC (uma espécie de French Laundry futurista). Voltar para casa é sempre uma treta, ainda mais em condições como essas. Em uma temporada cheia de episódios engraçados (destaque para Oliver Platt roubando várias cenas), tristes e tensos, a série torna-se sobre luto, nerds de comida, tradições, laços familiares (de sangue ou de vida), sobre como encontrar espaço em comum entre pessoas que parecem não ter nada a ver uma com as outras – e sobre como muitos dos que acabam por adoecer sabem muito bem que estão adoecendo. Mas a cura é parar de fazer justamente a atividade que os define naquele momento. Ao falar sobre a sua experiência em NYC, o protagonista diz que vomitava todos os dias antes de começar um turno, dormia mal, teve o estômago completamente zoado e trabalhava para um sadista inclemente que lhe deixou com PTSD. Mas: era o melhor restaurante do mundo e era ele que comandava a cozinha, encontrando todo dia um novo plateau de excelência. O preço para fazer algo assim como profissão é alto, muitas vezes impossível de se pagar por completo e a conta chega de uma forma ou de outra: ou a mente quebra, ou o corpo. Ou os dois. É uma questão de tempo, apenas. E muita gente, quase todo mundo, não vai entender muito bem o que tu estás fazendo contigo mesmo. O alarme vai tocar mais uma vez e tu vais ter que levantar e começar um turno que sabes que irá consumir alguns porcentos importantes da tua existência. Mas tu não consegues parar. Trabalhar desse jeito é viciante e consome muito mais do que aquelas horas de trabalho. Emocionante, The Bear é uma série que pega o romantismo Bourdainiano sobre cozinhas e esculpe cenas que parecem ser sobre coisas simples, mas que importam muito mais do que parece ser possível.

The Outfit, 2022.

Comecei esse filme sem saber muito sobre, imaginando que seria algum filme de máfia pós-guerra estiloso (“ah parece ser sobre um alfaite que trampa pra máfia, massa, vamo ae”). Quase acertei, mas não sabia que também se passa todo em um lugar só. O contraste constante de modos e jeito de falar de um britânico em Chicago acabou por sustentar o meu interesse durante o filme todo. Observar Mark Rylance trabalhando nesse filme é demais. Utiliza o pouco que tem com esmero e precisão, sustentando com cuidado o ritmo de cenas que quase (quase) perdem o gás quando o foco sai muito dele. A diferença que uma milhagem alta faz.

Everything Everywhere All at Once, 2022.

A doidera de existir. Não fiquei surpreso ao ver o nome dos irmão Russo nos créditos. É uma espécie de Avengers da A24: filtrando um conto meio Siddhartha acidental via comédias da década de 80, com maximalismo violento década de 00 e com questões de identidade típicas dos anos 10. Um filme que, fatalmente, só poderia existir nessa década pirada que estamos vivendo nesses anos 20. Na penúltima temporada de The Expanse, um dos personagens professa que a única escolha real que temos é ir ou ficar. No decorrer da vida, ir ou ficar é a decisão suprema, que se desmembra em infinitas decisões menores. Mas tudo começa ali, no segurar/soltar. O material de que a existência é feita está todo compreendido entre o ato de ficar ou ir. Surpreso, me vi soltando lágrimas com momentos de Everything Everywhere All at Once. Michelle Yeoh (eterna crush desde sei lá, Police Story 3, pelo menos), uma mestre em plena forma, encarna o filme de uma forma que a gravidade do seu trampo puxa todo o resto do elenco junto. Um filme esquisito, clichê e não muito inovador – mas mesmo assim forte pra caralho. Como a vida.

All-Rounder Meguru.

Um dos primeiros mangás que li foi Eden, do Hiroki Endo. Publicado pela JBC no Brasil, lembro que um amigo da escola comprou a primeira edição e ao folhear eu sabia que tinha que ler/acompanhar aquilo (sem contar que era a chance de entrar em uma publicação bem no começo, pois a maioria dos mangás na banca já estavam bem adiantados e ao tentar entrar em algum desses títulos eu ficava mais confuso do que empolgado). Por anos durante o ensino médio, Eden foi minha companhia mensal, até que meio que pararam de publicar (demorei anos a terminar a leitura, já depois da faculdade). Desde então, acho que já reli umas três vezes a obra toda. Virou um mangá essencial pra mim. Um daqueles lances que tu sabes que não é O Melhor De Todos Os Tempos, mas é importante pra ti. Muito dos meus gostos de sci-fi, mangá e anime, foi moldado por Eden. Quando comecei a ler All-Rounder Meguru confesso que nem notei o nome do Hiroki Endo ali, mas após alguns capítulos, o senso de humor, o estilo gráfico e o nerdismo detalhista pareceu muito familiar. Porra, é do Hiroki Endo! Li o mangá todo em uns dias, viciado no estilo “manual de como lutar MMA” que Endo aplica nos capítulos (aprendi fundamentos importantes de grappling durante a leitura, na moral). Os detalhes de como funciona uma carreira amadora de MMA no Japão são excelentes, explorando além disso temas como aspirações iniciais da vida adulta, amizades versus tempo, limitações pessoais e o significado de ser “forte” – que varia incrivelmente de pessoa pra pessoa, mesmo dentro de um microcosmo como lutas amadoras de MMA. As cenas de luta são cinéticas e bem calibradas, pontuando o mangá sem entrar numas de uma luta durar trezentas páginas. Conforme o final vai se anunciando, os personagens começam a encontrar definições próprias para os temas levantados. Feliz pela leitura, senti falta de tudo quando All-Rounder Meguru terminou. Assim como me senti quando terminei Eden pela primeira vez. Que privilégio, ter momentos distintos da minha vida pontuados pela arte de Hiroki Endo.

Cachalote, 2010.

Quase doze anos após seu lançamento, terminei de ler Cachalote. Essa hq sempre esteve perto de mim. Acho que cheguei a comprá-la umas duas ou três vezes (não lembro mais se pra mim, ou pra alguém). O lançamento dela na Mercearia foi num dia em que passei ali na frente e reparei muvuca. Como um filme que se tem uma cópia física em casa que nunca terminei de assistir, Cachalote não me perseguia, mas estava sempre ali. Eu mesmo esquecia dela e o tempo passava, lia uns pedaços e largava por algum motivo (vida). Dia desses, conversando sobre artes marciais com um cliente, ele me contava sobre sua segunda luta amadora de kickboxe enquanto eu contava que estava me preparando para a minha primeira competição de jiu-jitsu, e ele me disse que a melhor parte de competir, pra ele, é que quando a luta começa, tudo torna-se brutalmente simples: apenas marrete o oponente. Um momento só teu. Cachalote é, de certa forma, centrada em vários momentos assim. Uma coleção de fragmentos que parecem não conversar entre si, mas que carregam tudo que importa nesse lance de estar vivo. Valeu Galera, valeu Coutinho.

We Own This City, S01E01-03.

Acho que foi ano passado (os anos da pandemia misturaram-se uns com os outros na minha cabeça) que reassisti The Wire pela terceira vez, ainda sentindo fortemente os efeitos do monumento em forma de série de TV que é a imortal, suprema, incansável e bela The Wire. Sempre pensei, se durante os anos em que ela passava semanalmente, as pessoas que a assistiam tinham noção do que estava acontecendo, que aquilo ali era provavelmente o apogeu do universo de série criminal dentro do formato. Assistindo We Own This City, tenho a resposta: sim, é óbvio que dá pra sacar que algo de especial está acontecendo. Em We Own This City, David Simon retorna à Baltimore, dessa vez usando um livro-reportagem sobre uma treta imensa de corrupção e crime dentro da polícia da cidade como base. Reinaldo Marcus Green dirige os episódios e o cast é uma mistura de amados atores que estiveram em The Wire (e Treme e The Deuce) e outros estreantes que claramente abraçam o material com afinco. Mágica e técnica, realismo e ficção em um equilíbrio possível somente dentro desse mundo que Simon é tão fluente. Não fica muito melhor do que isso.

Slow Horses, S01.

Espião, via de regra, não chega a se aposentar. Ou desaparece, morre em ação ou vira burocrata dentro do governo. Jackson Lamb escolheu/tentou virar um burocrata falido, limitado, chefe de uma divisão horrível do MI5 após evitar morrer como um espião que presenciou os anos pré-muro e pós. Seu departamento não faz nada além de engrossar o caldo da “inteligência” britânica. Gary Oldman infalível deita como Lamb, controlando os episódios com experiência e cadência. A série desenrola-se como uma improvável mistura de The Office e Killing Eve, como se tivesse sido escrito por um Carré que curte George Carlin; entre momentos engraçados, trágicos e tensos, Slow Horses mostra-se como uma série que, assim como Jackson Lamb, talha um espaço próprio para si em um mundo lotado de séries e shows e toda sorte de narrativas. Feito admirável.

The Righteous Gemstones, S02.

Danny McBride como o campeão atual do humor vindo dos EUA: escreve, dirige e atua de forma excelente em The Righteous Gemstones. Essa segunda temporada é um dos ápices de sua carreira, certamente. Tudo funciona, os personagens são deliciosamente complexos, engraçados até o talo (e um pouco menos insuportáveis), as cenas de ação são espetaculares e tem Walton Goggins entregando a performance de uma vida em cada frame. Demorei para dar play nessa temporada e quando vi já tinha atravessado todos os episódios. Os roteiros são metralhadoras de piadas e referências constantes, não deixando o ritmo afrouxar quase nunca. Diferente da primeira temporada, que consegue ter momentos antipáticos que estragam um pouco a diversão, essa segunda encontra um equilíbrio e esmerilha sem perdão. A cena em em que Danny fala “The whole church sucking my wife’s dick” requer reconhecimento como um patrimônio cultural global imediato. Cumpra-se.

3 Toneladas AKA The Great Robbery Of Brazil’s Central Bank, 2022.

O cara percebe que nem conhece o próprio país. Primeiro pois o jeito que os polícia falam nesse documentário é algo de especial: dos civis, aos estaduais e federais, aos agentes especiais e peritos, cada um usa a língua portuguesa de uma forma específica e comumente fatal. As regionalidades são achatadas quase sempre, mas ainda presentes ali, de forma até divertida, quase fascinante (descontado a galera do jurídico, que nossa senhora como é terrível ouvir grande parte do que falam). Tudo bem que isso só pode ser interessante pra mim por estar há muitos anos não convivendo com essa língua. Segundo que como é treta o br, né. Aqueles momentos pós-prisão, onde polícia e suspeitos trocam ideia livremente, é coisa que não existe, velho. Não dá pra escrever essa ficção. Os caras sendo preso em Porto Alegre, jogados na calçada garroteados – ou os caras posando ao lado de agentes especiais em algum rancho no sertão do Ceará, fazendo aquela cara de “putz fui preso”. Bruto demais. A treta é infinita. O caso em si é um clássico já (feliz em ver o Roger aparecendo, sendo reconhecido pelo seu excelente livro Toupeira), e não apresenta nada de novo além de uma narrativa mais amarrada. O documentário realmente brilha em mostrar as camadas de polícia, criminosos e toda sorte de envolvidos que se conectam em algum momento ao caso, dando breves, mas importantes, relampejos de como se forma a o br, esse país imenso e impossível.

The Night House, 2020.

Luto como portal para alucinações, sonambulismo e uma vida solitária alienante. Os filmes do David Bruckner são excelentes construções de monstros de filme de horror, e nesse ele abusa de uma espécie de trompe-l’oeil digital para aos poucos nos apresentar uma presença maligna brutal. Mas há outras camadas de treta, sutis e sem muita resolução (a porta para “é tudo uma alucinação apenas” é aberta algumas vezes). Rebeca Hall está excelente como uma pessoa naturalmente antipática e irritante, dureza de simpatizar mas ao mesmo tempo interessante. Luto é um troço complicado.

Tokyo Vice, S01E01.

Usando as memórias do repórter Jake Adelstein, um broder do Missouri que se tornou o primeiro gaijin a trabalhar num dos maiores (senão o maior na época) jornais do Japão (senão do mundo) como base, Tokyo Vice é basicamente feito para patos como eu: Michael Mann dirige o primeiro episódio, a Tóquio é aquela em plena ressaca pós-bonança dos 80s e tem o Ken Watanabe. Porra, é meio covardia até. Tem uma cena do Jake andando pela imensa redação do jornal que é um pequeno delírio nerd. Tem a presença inescapável de uma Yakuza altamente organizada e ritualística. Jake passa os seus dias estudando japonês e recortando reportagens de jornais, levando uma surra em Aikido, mandando ver num rango de Izakaya e sendo no geral um gaijin em total imersão numa cidade infinita. Bagulho bom.

Ku bei AKA The Sadness, 2021.

De zero à trezentos quilômetros por hora em alguns minutos. Um brutal espetáculo sadista de desgraceira tropical apocalíptica em pura forma gore. Um grand guignol vindo direto de Taiwan, que me dá aquela sensação massa de que há horror podre de alta qualidade a ser descoberto em vários países (tipo aquela sensação que o coreano Train To Busan deu, ou o japonês One Cut Of The Dead). Talvez seja o mais próximo que Crossed de Garth Ennis chegará a virar filme. Algumas cenas me fizeram dar aquela característica viradinha de cara, coisa que não fazia há muito. Ah, nada como ser fã de horror. Várias cenas são esteticamente lindas e repulsivas ao mesmo tempo, em uma espécie de balanço improvável entre técnica e desregramento grindcore.

Winning Time: The Rise Of The Lakers Dynasty, S01E04.

Uma doidera. Tem John C. Reilly em completas chamas ostentando um comb over criminoso, narração em off, quebra de quarta parede, inserts documentais, animação, gráficos pipocando na tela, cenas que parecem filmadas em câmera 8mm, outras em um digital-analógico meio torto, uma tonelada de personagens e atores que parece não terminar (não sabia nada sobre essa série quando comecei a assistir, daí pá Adrien Brody, pá Jason Segel etc). Quando saquei que é produção do Adam McKay, ficou meio óbvio até. Tenho me divertido pra cacete com os episódios dessa série. É um pacote inesgotável de piadas, referências e personagens encantadores. Puro suco de EUA nos 80s. Talvez o efeito seja mais intenso pois não sei muito sobre essas pessoas e esse período do basquete, só meio por cima. Ser jogado no meio das engrenagens daquela época dessa forma é um prazer.

Atlanta, S03E02.

Quando Darius diz que “This city is my Jesus”, sentado na beira de um canal de Amsterdam com um clássico joint holandês aceso, basta balançar a cabeça e concordar. Sempre tive forte respeito por Atlanta, uma série que evolui de forma surpreendente desde a sua primeira temporada. Todavia, sempre senti um desconforto característico, como se o que fosse retratado ali não fosse realmente pra mim. Não pra eu entender e tal. Talvez alguma coisa no senso de humor dos personagens sempre me deixou meio desconfortável. É como estar na roda de amigos e não entender algumas piadas e referências não por ignorância, mas por não saber o que eles querem dizer com aquilo de fato. Talvez seja pra ser assim (tudo bem). Entender é um luxo.

Billions, S05E10.

Tinha deixado episódios de Billions acumular, meio que de propósito (essa série sempre foi divertida demais e ter que esperar entre um episódio e outro quebra o sentimento). Não estava preparado paras as mudanças que acontecem da quinta pra sexta temporada. Personagens vão e vem, alguns entram e ficam. Os episódios começam a ficar esquisitos, de uma forma interessante. Nesse S05E10 tem uma cena de uns cinco minutos sem diálogo em que o Paul Giamatti faz uns ovos mexidos. Uma espécie de homenagem à Big Night. Lá no S06E04 aparecem uns cards ao lado dos personagens, mostrando o quanto eles estão vestindo/usando em seus fits do dia (Wendy obliterando tudo e todos com seu corte de cabelo de 800 doláres). Tem um momento bem Miami Vice em que Axe e Wendy encenam um possível futuro (romantismo descarado fundamental). Pra uma série que já está há mais de meia década no ar, nada mau. Continue esquisita, Billions.

Black Summer, S02.

Certa vez, uma ex me disse algo como “Você não é um niilista intelectual, é um niilista instintivo e, portanto, irrefutável”, ela estava anos-luz de mim nessa afirmação (aliás sempre esteve em tudo). Demorei para entender o que ela queria dizer. Tava assistindo essa segunda temporada de Black Summer, que passou completamente batida pelo meu radar ano passado, mesmo que eu tenha curtido e recomendado demais a primeira temporada. Minha série minimalista de zumbi favorita. Ou: meu tipo de niilismo em forma de série de zumbi minimalista. O sentimento da primeira temporada ainda está aqui: a cena de abertura é um exercício em desgraceira, que te joga em um mundo onde o apocalipse aconteceu há uns seis meses e quem sobrou é tudo zoado da cabeça. Nos últimos dois anos brinquei que a Pandemia Global foi um dos mais entediantes fim do mundo. Mas queria passar longe (ou: não duraria muito) no fim do mundo que Black Summer apresenta. Tudo que funcionou na primeira temporada tá aqui: alguns personagens são os mesmos, algumas situações até parecidas. A série expande em outros pontos importantes (um deles sendo que mesmo com um fuzil automático, um zumbi furioso é um alvo quase impossível, outro sendo que conflitos armados entre pessoas em um mundo onde existem zumbis são um dos mais terríveis momentos do cosmos). O niilismo bruto, galopante e óbvio (irrefutável) de Black Summer é talvez o que me faz mais gostar dessa série. Decisões bad trip são tomadas em quase todos os episódios, numa roleta-russa intensa, triste e inescapável.

jeen-yuhs: A Kanye Trilogy, 2022.

Por um período de tempo, ali naqueles primeiros anos em que me introduzi ao hip-hop, achei que Kanye era um artista que demoraria para eu realmente entender. Havia algo de indescritível e ilimitado em discos como My Beautiful Dark Twisted Fantasy. Um comentário brutal sobre si mesmo, sobre o estado da música e da cultura naquele 2010. Hoje em dia, Ye encontrou seus próprios limites. Não que isso seja ruim, acontece com bastante frequência aliás. Ainda acredito que em vários momentos ele estava fatalmente antecipando tendências e momentos culturais com precisão anormal. Assistir jeen-yuhs é quase uma experiência masoquista: difícil acompanhar um artista em ascensão que não consegue ainda materializar a sua arte nos seus próprios termos – apesar dele só falar sobre isso. A frustração de Ye em não ser quem acha que deve ser é aparente. Chega a irritar, quem é esse cara pra se achar tudo isso? Aí o documentário pula alguns anos e nos entrega Kanye West full power: ele chegou lá. Aí que desanda. Difícil especular o que Ye estava tentando alcançar, mas é evidente que ele chegou lá e pagou um preço por isso. O documentário vira um filme triste, confuso, repetitivo. Mostra que os limites de Ye foram antecipados por ele mesmo, quase que inconscientemente.

The Batman, 2022.

Não estava tendo um dia muito bom. Viver em um inverno infinito tem seus momentos baixos. Quase cancelei o ingresso, só pra ficar na minha. Mas acabei indo, me empurrando para algumas horas de entretenimento multimilionário apenas pra ver o que sentia. Não estava preparado para um Batman que se sentia tão merda e tão solitário quanto eu. Talvez seja o primeiro filme do personagem que tem narração em off. Talvez seja o primeiro filme que nos apresenta o Batman Deprê tão comum nas HQs. Bruce está no seu segundo ano como vigilante, vivendo em uma noite infinita, entrando e saindo de foco quando pensa nas consequências do que faz, ouvindo Nirvana todo soturno na Bat Garagem (entendo). Dolorido, falando baixo, quase murmurando, deficiente em vitamina D e ainda levando umas porradas bem dadas. A vida de um bilionário vigilante é uma dureza. O filme é de uma estética inclemente, trazendo a Gotham gótica em todo o seu esplendor. É como se os filmes do Tim Burton tivessem cruzado com alguns do Scorsese. Batman ainda não se tornou um mito, caminha entre as pessoas como se nada tivesse acontecendo, dirige veículos arromba-ouvido, leva tiro no peito como se fosse essa a intenção. Metal pesado. O broder tá tentando reverter o fluxo da cachoeira na base do soco. Apesar da melancolia grudenta de Bruce, o filme todo se desdobra mais como uma ode à Gotham, uma cidade suja, cheia de obras abandonadas, passando por uma temporada de chuva que parece não querer terminar. As cenas que usam o anoitecer/amanhecer como pano de fundo são muito bonitas, assim como o som distinto dos passos do Batman em algumas cenas, ou a textura do couro que a Selina usa. Por momentos, esqueci completamente do Riddler e suas tretas. O filme sucede em ser um ataque sensorial, usando ruído, escuridão e silhuetas para se firmar. Não me senti tão melhor quando o filme acabou, mas gostei de ter ido.

Verdens Verste Menneske AKA The Worst Person in the World, 2021.

O trabalho do Joachim Trier sempre me chamou atenção, aliás, pesado pensar que Reprise é de 2006 (um século atrás). Onde estava quando assisti esse filme? Acho que ainda na faculdade em Belém. Experimentando a vida de uns nórdicos meio ricos em Oslo. The Worst Person in the World revisita temas dos seus primeiros filmes, mas sem pesar muito no intelectualismo. É um filme que se expande sozinho, demonstra uma vida própria, criado por alguém experiente. Cheio de atores interessantes e cenas lindas. A vida, mesmo em um dos cantos mais ricos e prósperos do mundo, ainda é a mesma coisa para todos nós. Mesmo que em alguns momentos o drama não seja muito além de um conjunto de escolhas bem aceitáveis. Renate Reinsve é possivelmente a maior paixão cinematográfica dos últimos tempos junto com Alana Haim e o filme é repleto de momentos que doem demais para quem está na mesma faixa etária dos personagens do filme. Mas assopra também: uma risada, um novo olhar, um novo dia. Ninguém sai ileso.

Messa – Close, 2022.

Aí sim papai. É disso que sou feito. Um dos efeitos colaterais de ter me criado ouvindo o clássico roquenrol, metal tr00 e inevitavelmente galões e galões de fuzz do nosso stoner de cada dia é que: aos trinta e cinco, meus ouvidos estão cansados. Difícil um disco de roque me empolgar de verdade hoje em dia (naquele sentimento Like A Virgin, geralmente acontece com discos mais extremos ou raras surpresas tipo aquele primeiro do FIDLAR, só pra dizer que não sou um total eremita fechadão). Mas tudo isso à parte, o Messa abre 2022 com um belo disco, que possivelmente morará nos meus players durante o ano todo (e que capa!). DOOOOOOOM :: https://messaproject.bandcamp.com/

Burial – Antidawn, 2022 [EP].

Desde Untrue (de 2007), o Burial não fez algo que eu curtisse muito. Não que seus trampos sejam ruins, mas a beleza incompleta e assombrada de Untrue foi tamanha, que eu sempre ouvia algo novo dele e ficava pensando porra não bateu aquele sentimento. Acho que era mais eu do que o Burial mesmo. Talvez eu precisasse ser mais paciente, talvez essa fosse a lição. Esse EP, Antidawan, tem sido o meu escudeiro em manhãs congeladas, dias de pouco sol e a trilha sonora perfeita para uma vida que sempre quis ter e estou tendo. O presente é um lugar massa. Mas utilizo as palavras do mago Warren Ellis para descrever melhor o EP: “Burial has often been about a solitary outsider’s experience of music, culture, its memory and its remains. But ANTIDAWN feels to me like the loneliest thing he’s ever done. It’s sitting on your own listening to the radio in the dark. It’s standing alone by the river at night while life and music pulses away a mile behind your back.” :: https://burial.bandcamp.com/album/antidawn-ep

Nightmare Alley, 2021.

Um primeiro ato encantador, bonito até o osso. Um segundo ato meio naquelas e um terceiro ato que é completamente roubado por Cate Blanchett (como sempre deveria ser). O delírio cinematográfico que é esse filme é coisa que somente o Del Toro consegue fazer hoje me dia, aparentemente. Alguns cenários são intrincados, vindo direto de um passado que não sei se existiu dessa forma. Mas se existiu, que doidera absoluta. É um bom filme, mas fica algo faltando, por mais que sua beleza tente nos distrair.