The Vow, 2020.

Em certo episódio tem uma entrevista com o jornalista do The New York Times, que está escrevendo o artigo sobre NXIVM – ele diz que se sente confortável escrevendo sobre o tema pois esses lances de “explorar o seu potencial/ser sua melhor versão” não funcionam com ele. Me senti representado. A narrativa dos nove episódios desse doc é bem arrumada e fácil de ficar assistindo, mas não consegue fazer pessoas como eu e o jornalista realmente entenderem o que as pessoas envolvidas no culto passaram. A parte comercial do culto é muito mais interessante pra mim, mas infelizmente não detalharam tanto essa parte. Bom doc, mas recomendaria o sobre Heaven’s Gate ao invés desse. Se é pra entrar na doidera, que seja com os dois pés.

I’ll Be Gone In The Dark, 2020.

Meu cérebro infeliz ficava lembrando daquela frase do Bukowski, que muito me encantou quando tinha 14 anos, “Find what you love and let it kill you” (que nem é dele), enquanto assistia aos longos, profundos e dolorosos episódios desse documentário. Terrível assistir esse documentário. É uma caixa imensa de vídeos, textos, áudios, sms, fotos, caixas postais, emails, dms – toda uma maneira de registros que cobre décadas. Muita dor, velho. Dor demais. Por tanto tempo. É assustador o detalhismo técnico da série toda. Morrer pode ser tão mais do que se parece.

“Ora bem, faz hoje um ano que voltei definitivamente da Europa. O que me lembrou esta data foi, estando a beber café, o pregão de um vendedor de vassouras e espanadores: “Vai vassouras! vai espanadores!” Costumo ouvi-lo outras manhãs, mas desta vez trouxe-me à memória o dia do desembarque, quando cheguei aposentado à minha terra, ao meu Catete, à minha língua. Era o mesmo que ouvi há um ano, em 1887, e talvez fosse a mesma boca.

Durante os meus trinta e tantos anos de diplomacia algumas vezes vim ao Brasil, com licença. O mais do tempo vivi fora, em várias partes, e não foi pouco. Cuidei que não acabaria de me habituar novamente a esta outra vida de cá. Pois acabei. Certamente ainda me lembram coisas e pessoas de longe, diversões, paisagens, costumes, mas não morro de saudades por nada. Aqui estou, aqui vivo, aqui morrerei.” :: Memorial de Aires, Machado.